Peguei covid, faço exercícios e agora? Como retornar?

O vírus de RNA apresenta alta taxa de mutação

A pandemia de coronavírus 2019 (COVID-19) teve um impacto sem precedentes na atividade física e no esporte, afetando atletas profissionais, de elite, colegiados, táticos e recreativos. A participação esportiva foi significativamente reduzida em 2020 com o objetivo de conter a propagação viral. Exigiu-se maiores esforços táticos e de contingência com precauções e modificações especiais.

O vírus pode causar uma série de complicações médicas com potenciais consequências a médio e longo prazo. Nos atletas que se preparam para voltar a competir, os efeitos residuais da doença podem complicar seu retorno, sendo indispensável o adequado monitoramento para a liberação da atividade esportiva com segurança.

O vírus pode deixar sequelas duradouras

Embora a compreensão da doença relacionada ao COVID-19 continue evoluindo, já está claro que os sintomas podem  persistir após a fase aguda em muitos pacientes. Para atletas e não atletas, a recuperação varia a depender da gravidade da doença aguda, condições pré-mórbidas e outros fatores, sendo que a aptidão física parece mitigar a gravidade da doença, enquanto que a inatividade física está associada a formas mais graves e piores desfechos.

Atletas em recuperação são suscetíveis a várias outras complicações relacionadas ao COVID-19, incluindo fadiga geral, disfunção cognitiva e coagulopatia (por exemplo, trombose venosa profunda, embolia pulmonar). Vários autores têm levantado preocupações sobre o impacto das complicações neurológicas e neuromusculares no retorno aos treinos. Atletas em recuperação da doença COVID-19 podem apresentar função neuromuscular prejudicada com força muscular reduzida, levando a queda de desempenho.

Uma preocupação entre atletas recreativos e de elite durante a pandemia de COVID-19 é o impacto do destreinamento. Vários estudos relatam que os bloqueios comunitários para evitar a propagação viral tiveram efeitos adversos na aptidão física. O destreinamento é uma consideração importante para os médicos abordarem ao fornecer orientação sobre o retorno ao esporte. O período de inatividade causa descondicionamento e aumenta o risco de lesões potenciais, principalmente se o atleta retomar o exercício de forma muito agressiva. A National Collegiate Athletic Association (NCAA) dos Estados Unidos identificou esse período como de vulnerabilidade especial. É necessário cuidado quando do retorno à pratica de esportes. Ao monitorar o progresso do atleta, o clínico deve prestar muita atenção à intensidade e volume do treinamento, fazendo ajustes conforme necessário.

LIBERAÇÃO MÉDICA EM ATLETAS

A segurança e o momento ideal para retomar o exercício intenso após a infecção por COVID-19 são desconhecidos. Várias declarações de consenso baseadas principalmente na opinião de especialistas promovem uma estratificação de risco baseada na repercussão clínica da doença e na presença de outros fatores relevantes.

Atletas de alto desempenho devem ser avaliados pelo médico antes de retornar à prática esportiva

As possíveis sequelas cardiovasculares da  COVID-19 apresentam desafios para os médicos que cuidam de atletas que se preparam para voltar a competir. Uma preocupação é a miocardite, que geralmente apresenta sintomas e pode ser exacerbada pelo exercício, podendo eventualmente, precipitar parada cardíaca súbita. Apesar da maioria das lesões miocárdicas relacionadas ao COVID-19 ocorra em pacientes hospitalizados, há relatos  de miocardite  em pacientes ambulatoriais. Embora a compreensão da epidemiologia da miocardite em atletas assintomáticos com COVID-19 e entre atletas com doença leve ou moderada continue evoluindo, o risco ainda parece ser baixo.

O pulmão é órgão mais afetado pela COVID-19. Os pacientes que desenvolvem síndrome do desconforto respiratório agudo secundária à infecção correm risco substancial de morte. Os médicos devem realizar exame pulmonar cuidadoso em atletas que se preparam para voltar a treinar após a doença.

Uma vez que os sintomas tenham desaparecido e os pacientes sejam capazes de realizar as atividades da vida diária sem falta de ar, eles podem iniciar um retorno gradual e monitorado às atividades.

RETORNO ÀS ATIVIDADES

O processo de retorno do atleta as suas atividades pode ser complexo e requerer que os médicos considerem alguns fatores, tais como segurança do atleta, riscos potenciais para outros participantes, capacidades funcionais do atleta (ou seja, linha de base e condição física atual), demandas funcionais do esporte (atividade específica que o atleta exerce), requisitos legais e regulamentares (por exemplo, governo federal ou local, órgão regulador do esporte).

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tempo médio de recuperação clínica após a infecção por COVID-19 é de duas semanas para casos leves e de três a seis semanas para doenças graves.

A liberação para prática esportiva pode passar por um processo gradativo a depender da expressão da doença no atleta

Embora não existam diretrizes baseadas em evidências para auxiliar na tomada de decisão sobre o retorno do atleta em recuperação do COVID-19, recomenda-se a abstenção de qualquer exercício por pelo menos 10 dias do início dos sintomas, incluindo um mínimo de sete dias da resolução dos mesmos. Além disso, o atleta deve já estar sem qualquer tratamento relacionado aos sintomas antes de iniciar o retorno estruturado à atividade. Como a perda de paladar e/ou olfato pode persistir por mais de 10 dias, esses sintomas não devem ser levados em conta na tomada de decisão.

Recomenda-se um retorno gradual em 5 estágios, a saber:

Estágio I – Descanso inicial. Dar tempo para recuperação das atividades da vida diária.

Estágio II – Exercícios leves (por exemplo, caminhada, corrida leve, bicicleta ergométrica), sem treinamento de resistência/força. Aumento gradual da atividade baseada na frequência cardíaca e no tempo (Frequência cardíaca inferior a 70% da máxima para a idade (220- idade)/e tempo abaixo de 15 minutos).

Estágio III – Atividade moderada, com atividades aeróbicas mais desafiadoras. Início do treinamento de resistência/força (por exemplo, exercícios com peso corporal que podem ser realizados por 15 a 20 repetições sem dificuldade, treinamento com pesos a 50% da carga máxima de uma repetição ou menos). Aumento na frequência cardíaca e duração do exercício (Fc inferior a 80% da máxima para a idade/ Abaixo de 45 minutos).

Estágio IV – Atividade avançada. Aumento da intensidade do exercício. Treinamento de resistência mais intenso (por exemplo, exercícios com peso corporal total, treinamento com pesos a 70% da carga máxima de uma repetição ou menos). Aumento na frequência cardíaca e duração do exercício (Fc inferior a 80% da máxima para a idade/ 60 minutos).

Estágio V – Treinamento normal. Retomada gradual da rotina de condicionamento físico padrão.

Após completada a avaliação, e não havendo restrições, a atividade física pode ser liberada.

Os médicos devem exercer julgamento e manter uma comunicação próxima com os atletas à medida que avançam os estágios. Recomenda-se um mínimo de um a dois dias por estágio, mas isso pode ser modificado dependendo da idade do paciente, gravidade da doença COVID-19, comorbidades e objetivos de atividade. O ritmo no qual os atletas progridem dentro e entre os estágios varia muito. Os indivíduos devem completar cada estágio confortavelmente antes de progredir para o próximo estágio.

Bom treino!

Dr Bruno Sthefan

Cardiologista e Médico do Esporte

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