
Pelo visto, o Brasileirão já está resolvido. Afinal, o Galo sequer balança no poleiro de cima, enquanto o Urubu, quando parece alçar voo, despenca.
Resultado: periga Cuca saltar ao pedestal da história do Atlético, ao lado de ninguém menos do que Telê Santana, o primeiro e único, até agora, campeão brasileiro pelo Galo, há meio século.
Aliás, Cuca já havia feito história no Galo, ao levar seu time à Libertadores da América, e segue sendo um treinador competente, sem exageros, mais conhecido por suas superstições do que pelo excelente trabalho por esses brasis afora ao longo dos anos.
Não inventa, não recorre ao anti-futebol a exemplo de outros tantos, tipo Felipão, que gozam de mais prestígio por aí. Apenas dá uma espiada no elenco de que dispõe e arma seus esquemas de acordo com as características dos jogadores disponíveis. E os treina para obter o melhor resultado possível.
Não nos esqueçamos, por exemplo, que Cuca é o técnico vice-campeão da Libertadores, dirigindo um Santos de recursos limitados, diante de um milionário Palmeiras, em jogo decidido no último instante por aquela abençoada cabeçada de Breno Lopes.
Haverá quem, aliás, atribuirá a Cuca a perda desse título pela confusão que ele causou à beira do campo, tentando segurar indevidamente a bola, à espera do apito final que levaria a decisão aos pênaltis. É verdade, mas quem não erra?
Já Renato Gaúcho passa os últimos dias esquivando-se das pedras que a crônica rubro-negra e as redes sociais disparam sobre ele, depois de tantos elogios que cobriram sua volta ao Ninho do Urubu, quando com o time titular iniciou sua jornada com uma série de goleadas e tal e cousa e lousa e maripousa.
E aqui está a razão maior dos últimos resultados negativos do Fla de Renato: há várias rodadas, seu time joga sem sete ou oito titulares,
Contudo, na essência desse bombardeio contra Renato está o forte sentimento do sebastianismo que toma conta da nação rubro-negra.
O amigo, por certo, conhece a lenda de Dom Sebastião, rei de Portugal que simplesmente sumiu quando voltava das Cruzadas. Dizem que sua caravela afundou e ele se foi nas águas da desesperança. O povo português, porém, durante décadas, alimentou a esperança de que Dom Sebastião, de repente, emergisse do Tejo para promover o reinado de ouro tão cobiçado.
Jorge Jesus é o Dom Sebastião dos rubro-negros, que repudiam qualquer outro que se atreva a tomar-lhe o trono esculpido por aquela campanha extraordinária de dois anos atrás.
Ora, aquilo foi uma maravilhosa exceção, não apenas para os flamenguistas, mas para todos que amam o futebol bem jogado e eficiente. Não há volta, embora o Fla, completo, continue apresentando um jogo de alta excelência, como se provou na breve e vitoriosa passagem de Rogério Ceni por lá, com dois títulos conquistados – um deles, o Brasileirão, gente!
A propósito, desconfio mesmo que Jorge Jesus pediu o boné, no auge, justamente por prever a mudança da maré, onde naufragaria, em breve tempo, toda aquela adoração rubro-negra.
Mas, é assim que as ondas se comportam – vão e vêm de acordo com os movimentos dos ventos e da lua. E sempre morrem na praia feita das areias do tempo.
