
A primeira vez que vi o Corinthians assim, ao vivo e em cores, foi no Pacaembu, em jogo de encerramento do Campeonato Paulista de 1949. Era um Majestoso, jogo da entrega das faixas de bicampeão para o São Paulo.
O empate por 3 a 3 marcava o declínio do Tricolor tão vitorioso nessa década e o início da redenção do Corinthians, que completaria dez anos de fila em 1950, ano pintado de verde.
Mas, já era a semente daquele Timão que venceria os campeonatos de 51/52 e de 54, durante os festejos do Quarto Centenário da cidade de São Paulo. Semente plantada no Terrão do Parque São Jorge e que floresceu aos pés de Cabeção, Idário, Nelsinho, Roberto Belangero, Luisinho, O Pequeno Polegar, Colombo, Nardo, Alã, Diogo, grande parte deles oriundos do Maria Zélia, o primeiro clube da poderosa várzea paulistana a ter um estádio com iluminação própria. Todos, sob a regência discreta e cerebral de Cláudio Cristóvan de Pinho, que surgira no Santos, passara pelo Palmeiras e fincaria raízes no Parque São Jorge na alma da Fiel, com seus passes certeiros e cobranças de faltas traiçoeiras.
Cláudio, aliás, também conhecido como Gerente ou Baixinho, que também atuara como meia-direita, era, ao estilo de Telê Santana no Flu, aquele ponta que recuava para armar as jogadas do meio de campo, e, em seguida, abrir para a extrema e de lá cruzar bolas exatas na cabeça de Baltazar, o Cabecinha de Ouro, artilheiro implacável que viera do Jabaquara.
Fazia com o meia-direita, embora canhoto, Luisinho, uma dupla irresistível: enquanto Cláudio era a discrição personificada, Luisinho era o bandalho, cheio de dribles desmoralizantes e provocações históricas, como aquela vez em que, depois de aplicar vários arabescos diante do centromédio argentino Luís Villa, do Palmeiras, sentou-se na bola diante do adversário, que simplesmente, como cavalheiro que era, limitou-se a passar a mão na cabeça do provocador irremediável.
Porém, o fenômeno mais curioso nestes 111 anos de vida do Corinthians, que num passado mais remoto encheu-se de títulos, graças a craques lendários como Neco, Amílcar Barbuhy, Servílio de Jesus, o Bailarinho, Teleco das viradas artilheiras, Brandão, o Pai Jaú e tantos outros, foi o crescimento absurdo da Fiel.
Absurdo, por ter se dado justamente nos dois períodos de estiagem do clube: de 41 a 51 e de 54 a 77. Foi justamente nesse período que se cristalizou a marca Fiel referindo-se à torcida corintiana, coincidentemente na época mais fértil da chegada das grandes levas de nordestinos que fugiam da seca em busca dos alojamentos de construções aceleradas que mudavam a cara da cidade de São Paulo.
A turma descia na Estação Roosevelt, também conhecida como Estação do Norte, ali no Largo da Concórdia e ia se instalando na Zona Leste, reduto alvinegro. E cresceu tanto a Fiel, que atingiu, segundo as estatísticas, cerca de 30 milhões de adeptos, população maior do que muitos países mundo afora.
De lá pra cá, veio acumulando conquistas até chegar ao título máximo de campeão do mundo.
E, neste exato momento, quando a Fiel ia se preparando para viver tempos de plena agonia, pois o clube, atolado em dívidas produzidas na maior parte pela conquista do estádio próprio, de súbito, passa a voar a bordo da maior esperança: um time capaz de voltar ao seu real patamar, com as chegadas de Renato Augusto, Giuliano, Roger Guedes e, no dia do aniversário do Timão, o filho pródigo, William, está de volta.
Com esse quarteto,o Timão ganha uma dimensão técnica capaz de fazê-lo se ombrear com os melhores – Galo, Flamengo e Palmeiras.
É desses renascimentos que a Fiel palpita, como se sua sina é viver à espreita das grandes viradas históricas.
Parabéns, Timão.
Que beleza mestre Helena.
Corinthians, uma paixão de 35 milhões de loucos por ti!
Corinthians minha vida, minha história, meu amor.