
Tava aqui vendo e ouvindo na tv o garoto Caio, grande promessa do Flu, autor de um dos dois gols (o outro foi de Ramón, um pontinha esperto, hábil e igualmente de futuro), mandando um beijo pra sua mãe: “Uma guerreira!”, arrematou o menino.
Aliás, é recorrente nas Copinhas a molecada, ao marcar um gol, correr em direção à câmera da tv à beira do gramado e mandar um beijo às suas mães: “Mãe, eu te amo!”.
Pra muita gente pode parecer brega, sentimentaloide ou algo do gênero.
Mas, pare pra pensar, meu. Esses meninos, quase todos, vêm das periferias de onde moram a riqueza e o bem-estar, o acesso fácil à educação e à segurança pessoal. São fruto de quinhentos anos de pobreza, ignorância e submissão às incertezas da vida.
Suas mães, em geral, são solteiras, viúvas ou abandonadas por maridos irresponsáveis ou simplesmente infelizes. Carregam no colo uma ninhada que sustentam como podem, tentando mantê-la fora do alcance da violência que ronda seus lares todo o santo dia: faxineiras, quituteiras, verdureiras, empregadas domésticas, enfim, o emprego que estiver ao seu alcance, aquele que não exige diplomas ou conhecimentos específicos. Afinal, elas, como seus filhos, netos e bisnetos formam aquela legião imensa dessa gente bronzeada, como dizia o poeta baiano Assis Valente, cujos ancestrais chegaram ao Brasil nos porões dos navios negreiros e aqui se juntaram aos brancos degredados e aos nativos igualmente cativos.
A escravidão física foi abolida há mais de duzentos anos. Mas, o acesso à igualdade, ah, essa, nem pensar.
O atalho que lhes restou pra dar um salto de quinhentos anos numa só geração praticamente se restringe a esse caprichoso e encantador jogo da bola, em torno do qual giram milhões e milhões de dinheiros de todas as cores, denominações e valores por esse mundão afora.
Imagine só: são milhões de brasileirinhos sonhando em escapar do gueto da pobreza, quando não da miséria, correndo atrás de uma bola que, na sua ânsia, representa nada menos do que o mundo.
E, quando conseguem romper a barreira do espaço e do tempo, a renhida competição com tantos iguais a eles, e viram craques bem remunerados, alguns deles verdadeiros milionários, fruto tão-somente do seu esforço e talento, vêm os afortunados da sorte, aqueles que tiveram todas as oportunidades que esta sociedade injusta lhes oferece, e disparam: “Como é que esse negrinho analfabeto ganha muito mais do que eu apenas chutando uma bola?” Outro se junta a este: “Mercenários!” E assim por diante.
Eles são os artistas, são eles que fazem a roda da fortuna girar arriscando suas cabeças e pernas duas ou três vezes por semana durante dez, quinze anos do melhor de suas vidas, viajando daqui pra lá, enfurnados em concentrações, longe dos seus e expostos tanto à glorificação das pessoas nas ruas quanto ao escárnio delas, onde estejam.
Bem, de qualquer forma, as esperanças se renovam a cada ano que chega sob o aceno da Copinha, a primeira porta de entrada para o futuro desses meninos. E, para os bolsos já recheados dos empresários, claro.
Mestre! Simples assim! Tanto como craque de bola, voce faz com as palavras e ideias, texto maravilhoso , parabéns , só isso!
Belo texto, Helena!
Alberto Helena,,,o senhor é um craque! Parabéns!!!
Como uma pessoa com todo esse talento para escrever, esbanjando sabedoria, não é tão bem remunerado, como qualquer perna de pau que corre atrás da bola?
Que mundo é este!
Como uma pessoa, com tanto conhecimento e esbanja sabedoria, não é tão bem remunerado, como qualquer perna de pau que corre atrás da bola? Como um jogador de futebol engana, como dizia Carlos Drumond de Andrade,
Que mundo é esse!
Hoje um muleque desses ai que joga muita bola para chegar a jogar um time grande virou uma verdadeira via sacra tal as barreiras e jogo de interesses que encontram pelo caminho. Daí essas comemorações que são verdadeiros desabafos carregados de emoções.
Bem, queria falar sobre um assunto que está vira e mexe na pauta do Helena aqui nesse Bola Virtual. Trata-se do atual baixo nível técnico do futebol brasileiro. E cheguei a um conclusão diria até meio engraçada se não fosse trágica. Antes dela, vocês já repararam quando um determinado time ou seleção vai fazer a apresentação do elenco ou de um novo técnico? O que é que se fala nessas reuniões e entrevistas que mais parecem uma premiação do Oscar em Hollywood? O técnico, começa prometendo mundos e fundos, seus “projetos”, elogiando seus novos diretores elegendo seus potenciais amigos na mídia. Daí quando nada há mais a falar e se sobrar tempo, fala de suas táticas e como enxerga o futebol. Na maioria das vezes se valendo de chavões manjadíssimos fala também do “futebol de intensidade” “muita pegada” “jogador tem que marcar o tempo inteiro” ” e essa pérola: “jogador tem que ser um homem acima de tudo”. E por ai e vai o desfilando um rosário de assuntos que o qualificam como “muito bem preparado”. Os jogadores(e até um certo técnico)então, são de uma maldade descomunal com o português, sua língua pátria. Dá vergonha. Falam de tudo, começando com o infalível “meus companheiros” e o beijo à la cosa nostra na camisa do clube e no resto é um festival de obviedades e mesmices.
Para um observador mais atendo há um elemento que passa em brancas nuvens nessas entrevistas, tanto do professor quanto dos seus alunos. Simplesmente eles não tocam no assunto. É como se você fosse entrevistar um piloto de F1 e ele desandasse a falar de patrocinadores, das pistas do seu salário milionário do glamour que envolve as corridas mais se esquecesse de falar da coisa mais um importante. Do carro. É a mesma coisa hoje em dia no futebol. Fala-se de tudo menos de uma coisinha, um detalhe chamado BOLA. É incrível como se evita falar daquela que é a razão de ser do jogo. E a partir daí pode se tirar várias conclusões. Primeiro, quando a bola é relegada a um segundo plano, tudo que vem em seguida adquire um caráter mais importante e prioritário, como por exemplo, os sistemas e táticas de jogo. E ai, você deixa de valorizar os caras que conhecem e sabem o que é uma BOLA, e passa dar prioridade aqueles jogadores que são mais “táticos” e obedecem como cegos os tais sistemas de jogo. Hoje, os técnicos de futebol e o da seleção em particular deveria no final da preleção falar o seguinte: gente isso aqui é uma BOLA de futebol e como tal nego para jogar no meu time tem que conhecer seus segredos e dominar seus caprichos. Não há dúvidas que muita gente boa dita como craque por esse Brasil afora não sabe o que é uma bola, e .muito menos para que serve. Há caras que já vi, passar 30 minutos sem pegar nela durante um jogo. E o pior, quando ela chega a seus pés se assusta dá um chutão e manda pra fora do estádio. Há caras que se limitam a cumprir o que pede o seu “professor”, correr o tempo inteiro, chegar junto e destruir o jogo. Onde se percebe isso? Na nossa própria seleção que irá a Rússia fazer vergonha. Os nossos jogadores de meio de campo não dominam os fundamentos mais simples para um jogador desse nível, tem medo da bola pois não conhecem os seus segredos não tem habilidade para “dominá-la” Esses caras são como aquele pintor que contratamos para pintar nossa casa. Falam de tudo, fazem de tudo mais na hora que lhe apresentamos a brocha e eles começam a pintar, é um desastre. Do jeito que a coisa vai não é de se espantar que de jogador de futebol seja exigido MBA em finanças, cursos de auto ajuda, que ele fale pelo menos dois ou treis idiomas. Saber o que é uma bola mesmo continuará sendo, um mero detalhe.
Sem saída:
Hernanes de volta à China infeliz com seus milhões.
Hernanes de volta à China infeliz, com seus milhões.
Hernanes infeliz, de volta à China com seus milhões
Hernanes infeliz de volta à China, com seus milhões