Ganhar ou não perder, eis a questão.

(Foto: Pedro Martins/MoWA Press)

Encerradas as Eliminatórias Sul-Americanas, o que restou, além da campanha extraordinária da Seleção do Tite, que saiu lá de baixo pra assumir a liderança, disparada, até o final?

Pingam a emoção compartilhada por várias seleções na última rodada, os três gols decisivos de Messi e a certeza de que estamos anos-luz de distância dos europeus, por exemplo, na busca pela excelência, o que, há vinte anos era coisa nossa, muito nossa, como a prontidão e outras bossas, no dizer do gênio da Vila e da raça (leia-se aqui prontidão nos seus dois sentidos: durindana e capacidade de improvisação).

Perdemos, ao longo destas última décadas, a força da imaginação, da solução improvisada do que está escrito e pautado antes mesmo de entrarmos em campo. Fomos ganhando ares de robôs, fisicamente bem dotados, que correm o tempo todo em direção alguma. Ou melhor, num só sentido: o resultado a qualquer preço. Nem que, para tanto, tenhamos de vestir os trapos medievais do velho catenaccio, ferrolho suíço ou nossa tão famigerada retranca, mascarados pelo tal equilíbrio, um eufemismo que soa para os incautos como a mais recente descoberta do mundo moderno e suas máquinas mágicas.

Tudo em nome do resultado. E, de fato, o resultado é que não há resultado algum, na medida em que tivemos uma disputa de baixíssimo nível técnico, com resultados díspares, e muitos dos adeptos desse jeito de jogar (ou, não jogar) caíram fora da Copa. Tanto, que o Peru, pelo resultado, jogando em casa diante da Colômbia, passou os últimos minutos da partida trocando bola em seu próprio campo, em nome da repescagem, creia!

(Foto: Ernesto Benavides/AFP)

Tempos atrás, quando éramos ousados conquistadores, dizia-se que uma equipe invadia a área adversária. No imaginário do torcedor, tratava-se de uma horda de invasores, subjugando o inimigo no espaço da decisão do jogo. Hoje, a moda é outra: fulano pisa na área. É como se o temeroso ser, cautelosamente, se aproximasse da meta adversária, na verdade, a meta do próprio jogo em si.

Ah, mas a Copa do Mundo é mata-mata, sistema que privilegia esse tipo de futebol. É verdade. Mas, atenção, as duas últimas campeãs do mundo foram a Espanha e a Alemanha, que buscam o tempo todo um jogo ofensivo, com marcação por pressão no campo adversário, muita troca de passes curtos, envolvimento e ataque maciço, quando se aproxima da área inimiga, além, claro, das jogadas individuais, dribles, fintas e tal e cousa e lousa e maripousa.

Claro, a América do Sul lançou para o mundo craques que são capazes de desequilibrar o estabelecido de antemão. Neymar e Messi, assim como invasores de área de primeira linha, como Suárez e Cavani, por exemplo. Mas, quantos armadores de escol, aqueles que farão o jogo funcionar coletivamente e darão aos atacantes condições de executarem suas manobras? Pouquíssimos.

E, por quê? Porque esse carinha foi transformado em outro robô, o tal segundo volante, mais preocupado em destruir do que em construir. Isso, foi retraindo o time de tal maneira, que hoje em dia, quando se fala em atacante, referimo-nos ao solitário centroavante. O resto é chamado de meias ou volantes.

Pra nós, não há mais pontas, por exemplo, só meias. Pois, para os europeus de primeiro mundo do futebol, Robben, Ribéry, Coman e uma infinidade de outros são pontas-pontas, atacantes que se deslocam, vez por outra, para o meio, pois futebol não é pebolim, gente!

Resumindo: a turminha lá entra em campo pra ganhar, que é o espírito do jogo; aqui, entramos pra não perder, o que é a alma do antijogo.

(Foto: Emmanuel Dunand/AFP)

 

 

 

 

2 comentários

  1. Ontem escrevi sobre um certo “deslumbramento” que vejo em alguns admiradores das modernas escolas da Europa Ocidental e fui repreendido num comentário de outro leitor – e que só agora há pouco foi respondido – pelo uso do termo.
    Uso o termo novamente e, agora, para ser objetivo em relação ao jogo coletivo desses times – simbolizado pelo Barça e o termo “tiki-taka” – depois aprendido pelos alemães e que vitimou o desorientado Brasil de 2014, mas não a Argentina pragmática daquele mesmo ano, nem os EUA, nem Gana, nem a Argélia. No caso da Espanha, ainda estou tentando lembrar qual jogo – tirando a final da Euro contra Itália – foi realmente tão espetaculoso em meio a quase eliminações para Paraguai e Chile na Copa de 2010. Ah, claro, talvez tenha faltado um Messi espanhol, já que talento nato é o que dá vida a qualquer sistema de jogo.
    Isso me lembra os saudosos que ainda chamam a pragmatissíssima Holanda pós anos 70 e 90 de “carrossel”, com todos aqueles brucutus brancões e alguns corredores na frente – outro tipo de jogo físico e de marcação que deu certo contra o Brasil mas não contra os argentinos, alemães e outros.
    Bom, passes curtos e movimentação de jogadores SEMPRE foram buscados no decorrer da História. Podem tomar como exemplos da Hungria à Dinamarca, passando pela Holanda, chegando à Espanha e Alemanha. Nem sempre foi possível, não preciso nem dizer pois o próprio holandês famoso em sistematizar uma versão desse modo de jogar falava volta e meia de características natas de seus jogadores faziam o conjunto funcionar como pretendido. Mas, no fundo, o sucesso desse jogo é trivialmente lógico: controle a bola e evitará que o adversário a controle contra você. Marque sob pressão para retomar e continuar em segurança (o que implica “destruir” jogadas potenciais). O problema não é a “destruição” da jogada adversária, o que é natural, mas a qualidade da maneira como se constrói. Uma vez que você tem jogadores com ‘talento nato’ (imaginemos a Espanha com Messi…), tudo ficará mais fácil. Poderá ficar tão fácil que sequer você precisará de um sistema de jogo tão engendrado como aquele, holandês do passado.
    Uma coisa é falar sobre o time de 1982, por exemplo, que jogava fácil e naturalmente pela qualidade de seus jogadores. As jogadas fluíam naturalmente enquanto o jogo da Itália mostrou uma inocência defensiva que hoje esses times que tanto deslumbram as pessoas cuidam de não ter. Outra coisa é falar num método científico de reduzir espaços e aproveitar a posse de bola. O primeiro caso vem de espontaneidade (e aqui, mais uma vez respondendo ao MEMIL, não me lembro de que o Brasil fosse uma grande potência econômica naquele tempo… aliás, era o contrário). O segundo caso é produto de um desenvolvimento tático, físico, científico, que, aí sim, foi muito facilitado por uma estrutura (num mercado) mais sofisticada, com investimentos privados maciços e retornáveis aos investidores.
    É evidente que esperar que isso aconteça no Brasil é infrutífero. O resultado OBJETIVO é o seguinte: a base da Alemanha que hoje encanta tanta gente com seus passes curtos e infiltrações OBJETIVAS (nada de dribles de Messi ou dos melhores Ronaldos, Romários e outros) foi em IMENSA MEDIDA facilitada pela convivência de jogadores em clubes como Bayern de Munique, Borussia Dortmund, assim como na Espanha, por exemplo, nos 2 grandes do país. Repetindo: isso não acontecerá no Brasil tão cedo – se acontecer algum dia. Logo, é sem essa estrutura que estamos e estaremos, e com o desafio de competir contra ela – presente em outros lugares.
    “Macaquear” (copiar) o jogo desses times até pode ser possível dentro de um contexto limitado de jogos oficiais e amistosos mas, no “final do dia”, é pensando no que fazer ante tais desafios que os treinadores tomarão suas decisões. Obviamente, que não se espere que um treinador sensato admita tomar outro 7-1 tentando jogar como Alemanha contra a mesma. Inteligente é aquele técnico que sabe o time que tem e que caminhos traçar para, vejam só, atingir a meta mais banal do jogo: marcar mais gols que o adversário.
    Neste sentido, numa grande diferença momentânea de potencial, não sendo possível marcar mais, será necessário evitar levar os gols.
    E pronto! Voltamos à estaca zero outra vez. Se o Brasil deseja construir uma escola baseada no que está sendo feito nesses lugares, que traga pessoal de fora, ué! Qual o problema nisso? Não foi assim que conseguimos evolução em alguns esportes olímpicos?

  2. Decodificando o que está criptografado nos comentários do Alberto Helena leia-se a seguinte mensagem: Vamos dar com os burros n’água na Rússia.
    Quanto ao que escreveu o Elvis é o seguinte: O s treinadores recentes da seleção primam por convocar jogadores não pelo que eles são capazes tecnicamente de produzir e muito mais pelo que eles podem fazer para cumprir à risca os seus esquemas furados. Mesmo levando-se em conta que hoje há uma certa escassez de grandes craques, ainda assim se houvesse um treinador criativo poderíamos formar um grande seleção, Infelizmente caímos numa onda manodungatitesca de onde não conseguimos escapar.

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