O prodígio alemão

Foto: Christof STACHE/AFP

Estádio Fritz Walter. Isso nos remete à primeira Copa do Mundo vencida pela Alemanha, em 1954, na Suíça, quando Fritz Walter, um craque completo, ao mesmo tempo cerebral e decisivo, conduziu seu time ao longo do torneio e por caminhos sombrios na decisão com a espantosa Hungria de Puskas, Hideghutti, Puskas, Boszik e cia. bela, esbulhada nesse jogo, com dois gols de Puskas, legais, anulados.

Vinte anos depois, a Alemanha levantaria em casa seu segundo título diante de outro espanto do futebol: o Carrossel Holandês de Crujiff, Neskeens, Resembrick etc., desta vez, sem mutretas, e graças a Overath e Gerd Muller, especialmente.

Faço esse breve tour pelo passado para chegar ao jogo deste domingo no Estádio Fritz Walter, onde a Seleção Alemã, atual campeã do mundo, acaba de cumprir cem por cento nas Eliminatórias da Copa da Rússia, goleando o Azebaijão por 5 a 1, com direito a esticar esse placar a oito ou nove, fruto de tantas oportunidades perdidas.

E aqui quero fazer uma injusta comparação com o futebol brasileiro que se pratica atualmente por aqui. Reveja o tape e espie só quantos jogadores alemães estão na área na hora do cruzamento do lateral ou do ponta. Seis, sete, cinco, em média, mesmo quando se trata de uma jogada rápida pelas extremidades do campo.

Agora, compare com os nossos. Se o amigo surpreender três, leva uma maria-mole e um cigarro Yolanda de prêmio, como diria o nosso saudoso Adoniran.

A turma parece morrer de medo de pisar na área, como virou moda se dizer hoje em dia. Trata-se de uma zona interditada pela peste do contragolpe. Mais saudável é ficar por aqui, na intermediária, pra pegar a segunda bola, a rainha do jogo brasileiro, do que arriscar todo mundo lá e tomarmos um contragolpe.

Ah, mas se tratava do frágil Azerbaijão, dirá o pragmático amigo do tal resultado; assim, até eu.

Sim, não fosse o simples fato de que o time alemão em campo era praticamente todo de reservas, com exceção de Kimmich, um achado pra substituir o aposentado Lahm, e Muller. O mesmo que outro dia venceu a Eurocopa, dentro do planejamento dos alemães adotado desde o início do século.

Além do mais, a Alemanha jogou assim contra grandes e pequenos, do mesmo jeitinho, alcançando a extraordinária marca de 4,5 gols por jogo e tomando apenas quatro, em dez partidas.

E por quê? Sobretudo porque valoriza o toque de bola rápido. Não fica lançando bolas lá de trás a toda hora; não procura aquelas enfiadas inócuas aos atacantes marcados de frente pelo zagueiro; não cruza bolas na área a partir do bico da área, a não ser quando há uma multidão de compatriotas ocupando a área inimiga, e assim por diante. Simplesmente, joga bola.

E assim construiu essa goleada sem maiores sustos, a não ser o gol tomado do adversário, em falha do goleiro Leno, e uma bola no poste, em jogada ocasional.

Já a Polônia ganhou sua vaga na Rússia num jogo doidinho, doidinho, diante de Monte Negro.

Meteu 2 a 0 logo de cara, e passou o resto do tempo ali, ó, deixa pra lá.

Pois, no segundo tempo, tomou o empate, e teve de correr atrás do prejuízo, o que foi resgatado em poucos minutos, a partir de uma bola mal atrasada pelo beque que Lewandoviski, o artilheiro da competição, dividiu com o goleiro para desempatar e, em seguida, um gol contra do zagueiro.

E aqui vale retornar à Copa de 74, a última mais bem disputada tecnicamente desde que me  conheço por gente, e dar um  olá para aquela Polônia de Latho e Deyna, que nos tirou, com todos os méritos, a terceira colocação no Mundial da Alemanha.

 

 

11 comentários

  1. Assisti o jogo dos Tchecos no passeio de 5 x 0 contra San Marino e o que vi foi o mesmo observado por Alberto Helena no jogo da Alemanha. Completamente diferente da seleção brasileira. Agora, você vai esperar o que de Casemiro, Paulinho e Renato Augusto? Jogadores sem cacife técnico para entrarem na área. Eles não entram não por medo do contra-ataque, mas, por falta de talento mesmo. É o que sempre disse, você quer saber se o cara é craque? observe o jogo dele próximo e dentro da área. Ai o bicho pega.
    Outra coisa aterradora em relação ao sistema de jogo da seleção, não se vê um desses times grandes jogar com volantes de ofício. Todo meio de campo se movimenta rápido num revezamento constante de posições. O time de Tite senhoras e senhores joga com 3 VOLANTES cuja principal função é marcar. E isso Alberto Helena explica em parte também a ausência de jogadores na área nos contra-ataques e nos cruzamentos do fundo. Portanto, digo aqueles que duvidam: Tirem o cavalinho da chuva com esse time cujo meio de campo é um doente engessado sem criatividade.

  2. O meio de campo da seleção como está agora com 3 jogadores(vou ser justo) bons na marcação, mais sem as qualidades técnicas necessárias para desenvolver um time rápido, de toque de bola, com infiltrações, tabelas e dribles está fadado ao fracasso em se tratando de copa do mundo. Deixar que Philipe Coutinho ou Willian Ciscador sejam os únicos ou único responsável pela armação do time é um desastre anunciado. Tite engessa o time por conta de suas convicções de futebol de resultados que não funciona numa copa do mundo. Na hora da verdade que o time precisar se abrir e trocar cartas pra valer com um adversário de respeito o que fará Tite se ele sequer treina uma esquema alternativo?

    1. E pura verdade Sr.Sardinha ! Vi o jogo contra a Bolívia, mesmo na altitude ,nossa seleção ficou toda atrás e jogava bola para Neymar se virar e isto foi do início ao fim do jogo , mesmo que já classificado e a Bolívia fora teriamos quŕe vencer aquele jogo. Nosso ataque depende muito do talento de Neymar e isto é pouco para querer ganhar uma Copa! Falta ao time de Tito além de talento (criatividade)coletividade ,não consegue uma sequência de três ou quatro passes jogando para cima do adversário buscando invadir a área inimiga.

      1. Perfeita análise. É o que venho repetindo sempre. Na hora que pegar uma seleção de ponta que fizer uma marcação forte sobre o meia seja ele quem for e Neymar estamos perdidos. Vamos depender de Paulinho, Casemiro, Fernandinho, Renato Augusto, para ganhar o jogo?

  3. Gostaria de poder contradizê-los, infelizmente tanto o Alberto Helena como você, Sr. Sardinha, têm razão. Digo infelizmente porque vejo a torcida brasileira (talvez até a cartolagem) numa euforia de “já ganhou”. Acompanho o futebol europeu com mais frequência que o brasileiro. O que observo é que as seleções européias se renovam radicalmente a cada convocação. As gerações se sucedem mais rápido que na América do Sul e além disto o futebol europeu assimilou nos últimos anos muito mais técnica que na décadas anteriores. Hoje temos times que eram desconhecidos e exibem um futebol de alta categoria (como é o casa da Islândia e o Pais de Gales, para citar apenas dois). O futebol europeu não dorme, eu acho que em geral seleções como a brasileira, chilena, argentina e mexicana irão morder em granito na Rússia.

    A Alemanha (isto o Alberto Helena observou) acabou de atravessar a fase de classificação conseguindo o feito inédito na história da humanidade: ganhou todos os jogos! E o pior, nem apenas o jogo final porém alguns outros jogos foram sem o time principal, a Alemanha entrou várias vezes com alguns garotos inexperientes. Portugal, Bélgica, Espanha também estão se renovando muito.
    O Brasil se renovou também, entretanto acho que o nosso sistema continua sendo o clássico “feijão com arroz” de tentar dominar o meio-de-campo e mandar um centro-avante ou um ponteiro isolado para a fogueira. Isto funciona contra a Venezuela, mas contra a Bélgica, a Alemanha, Espanha, é tiro pela culatra. Isto pode ser complicado quando chegar a hora de enfrentar times fortes e esta situação me lembra um pouco da copa de 1972 na Alemanha, quando a Holanda pegou o Brasil de saia justa e tivemos sorte de perder apenas por 2 a 0. Bolívia, Venezuela não estão mais no cardápio, agora a situação vai ser outra…
    Se o Tite for o sujeito inteligente que todos acreditam, ele vai perceber este drama…

  4. Algumas perguntas “bobas”: 1 – Existem jogadores disponíveis para fazer isso pelo time? 2 – Em existindo, existe treinador para propor isso? 3 – Em existindo, existe paciência de acompanhar os tropeços que poderão ocorrer na tentativa?
    A resposta à primeira é fácil: sim, embora negativamente em todas as posições. Se a resposta à segunda é ‘não’, aí volta aquela pergunta que é proibida fazer nesse cenário de corporativismo tupiniquim: ‘assim como em outros esportes, é possível absorver conceitos novos trazendo treinadores de fora? Parece que uma barreira gigantesca já se impôs contra isso.
    A terceira pergunta também é pertinente num país em que técnico que perde 3 ou 4 jogos, ou sai de uma Libertadores é mandado embora no dia seguinte, A cultura do brasileiro não admite um tempo curto sem conquistas – o que é mais fácil em países que ficaram décadas sem ganhar nada ou que conheceram o fundo do poço de alguma maneira (Espanha, a própria Alemanha, etc).
    É claro que existe também um certo “complexo de cachorro vira-lata” de que tudo o que é gringo é melhor, etc. Bom, o Chile que jogou a final da copinha das Confederações merecia o título sobre a Alemanha, lembremos. Sampaoli, “o Guardiola das Américas”, está com um time ridículo em campo, pragmático e engessado – o que nos remete à questão 3, da paciência.
    De resto, ficar apenas se “deslumbrando” com a maneira com que os outros fazem as coisas já é coisa de um passado recente. Agora, o assunto se define em: “é possível fazer?”, “como fazer?”, “deixarão fazer?”…

  5. Senhor Elvis!
    Concordo em geral com tua diagnose da situação “tupiniquim” (para adotar teu vocabulário) e concordo até mesmo com a observação que sair do fundo do poço é mais fácil do que se aguentar à tona no mar turbulento da concorrência. A verdade porém é que no Brasil existe uma mentalidade secular, que procura solucionar os problemas sempre com Pelés. Deste a aposentadoria do Pelé vivemos sonhando que após um Pelé sempre vem outro e continuamos ganhando copas com atacantes egoístas que fazem a festa do povo entrando sozinhos na área e deslumbrando a torcida.
    Não concordo entretanto contigo, que os críticos desta mentalidade anacrônica (Alberto Helena, o Sardinha e eu, porém muitos outros observadores) se restrinjam a se deslumbrar com os adversários na escola européia.
    O problema, como se diz em alemão, é um “Teufelskreis” (um círculo onde o diabo domina sozinho).
    A solução, se me permito seguir teu raciocínio, é mais pragmática que teórica. No Brasil existe a epidemia da cartolagem que nunca foi erradicada. Clubes influentes, dirigentes comungados com cartolas, organizações e multinacionais que dominam a economia esportiva, determinam bem cedo para onde o jogador com talento vai (veja o Neymar que sumiu do Brasil, o Messi, o Gabriel Jesus e muitos outros que por não terem se adaptado na Europa acabaram desaparecendo). Um Espanhol, Alemão, Português, Francês (paro aqui para não esticar a lista sobre o Atlântico) nunca sai do país antes de produzir para a seleção. E como os garotos lá sempre são internamente valorizados e escalados ao invés de serem vendidos, observamos que a Alemanha, por exemplo, ganhou a última copa, renovou completamente o time e já está a caminho de brigar pela próxima copa com um time completamente renovado. Portugal venceu a última Eurocopa e está qualificado para a copa do mundo num grupo mortífero após disputar a única vaga direta com a Suíça que só perdeu o último jogo contra Portugal.
    Como você vê, não creio que é uma questão de “deslumbramento”, porém de fatos que qualquer leigo pode observar. Quem não tem Pelé caça com gato. O problema é que enquanto os adversários seguram os gatos, nós vendemos nossos gatos para eles e no final, a cada convocação temos que sair recolhendo os gatos. Se você correr o indicador sobre a lista da seleção, vai encontrar 95 % de convocados que buscamos a cada convocação na Europa (um chega cansado, o outro chega com lesão, o outro chega mais preocupado com a imagem que com o sucesso do grupo, outro chega com medo de se lesionar e perder o ganha-pão fora de casa). Esses fatores que relaciono, não o faço de forma maldosa, tenho compreensão, todos somos humanos. Europeus na mesma situação não fariam nada diferente. Com os Europeus entretanto é pior que o contrário: Todo mundo tem seus gatos em casa e os dramas que vivemos no Brasil nunca são tema lá. Tema lá é o aprimoramento da técnica de conjunto, de estado atlético dos jogadores, aí você vê onde acaba o “deslumbramento”…

    1. Caro MEMIL, Se me permite, “deslumbrar-se” tem diversos significados dentre os quais “ofuscamento”. E é precisamente esse o significado adequado quando se fala apenas uma coisa óbvia (como as diferenças entre mercados como o da Alemanha, do Brasil e suas implicações nas mais diversas organizações e até uma liga de futebol – o que naturalmente explica porque os jogadores vão daqui para lá cedo, e não o contrário) e essa mesma coisa óbvia impede até mesmo as respostas às questões mais objetivas – que se imporão à frente de Tite a partir de agora – de modo que os problemas econômicos do Brasil, culturais, políticos, etc, etc, etc não estão à alçada do treinador de seleções e por isso mesmo não foram explorados em meu post.. Nem sequer o problema do alto comando da confederação da qual ele é um mero empregado poderá ser solucionado imediatamente e em ação pontual. Quem sabe a Lava Jato desencadeie uma nova era de mais transparência (menos obscuridade), mas isso é outra questão. A educação do país não será resolvida até 2018 e o ensino de esportes tal qual nos países citados não será implementado. O ofuscamento diante dessas diferenças causa em alguns o “deslumbramento” que, POR EXEMPLO, os argentinos não tiveram e quase ganharam o campeonato mundial passado – não fosse um detalhe. Da mesma maneira, o Chile – que também não tem uma estrutura que deslumbra a tantos – poderia ter ganhado a Copa das Confederações. Sim, o mesmo Chile que caiu ante o Brasil, com exceção de Vidal. Os times pragmáticos, por exemplo, sempre ganharam de times menos pragmáticos, e isso é um detalhe de jogo – ao qual me lembro ter me limitado em escrever. Afinal de contas, um tratado sociológico dos problemas e soluções do país demandaria pesquisa e muito mais texto. E isso fica para outro momento. Para 2022 (nem só para 2018), aquelas perguntas são as primeiras adequadas À NOSSA REALIDADE. Abs

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