
O amigo espia as disputas das Olímpíadas, e a todo instante lá está um mulato, um negro, uma mulata, uma negra, assumindo o pódio, quando não de ouro a bronze, juntos.
E não são só os afrodescendentes, pra ser politicamente correto, filhos de escravos trazidos pelas caravelas dos 500 pra este lado do hemisfério. Lá estão luzidios alemães de fazer Hitler se revirar no túmulo infernal onde paga seus pecados, escandinavos, belgas, franceses, ingleses, espanhóis, eslavos e até italianos, creia, todos povos predominantemente brancos, quando não racistas históricos.
Só quero saber o que há com os nossos crioulos, que são a imensa maioria neste país mulato de duzentos milhões de habitantes.
Por que somos tão modestos na soma das competições, se comparados com países de população bem inferior como Jamaica, por exemplo?
Entre outras coisas, porque o esporte em geral é, e sempre foi, um atalho para as camadas sociais mais desprovidas, maioria do nosso povo.
Não só isso, mas uma fuga da marginalidade, quer queiram ou não, o levedo da violência e do crime.
Já nos anos 40, quando os EUA escapavam da Grande Depressão, fermento do crime organizado e desorganizado, uma série de filmes com os Anjos de Cara Suja, geralmente estrelado por Bing Crosby no papel de um padre moderno e piedoso, fazia o proselitismo do boxe como redenção para os jovens delinquentes.
Aqui mesmo, o boxe redimiu muito jovem marginal, sobretudo nos anos 50.
Mas, não só o boxe, claro.
Lembro de ter entrevistado nesta mesma TV Gazeta Denílson Show logo no início de sua carreira, aos 17 anos, quando ele me confidenciou que todos os seus amigos de infância, em Diadema, ou estavam presos, ou mortos.
Esqueça o amigo as medalhas olímpicas, e pense um pouco no esporte como alternativa real e eficiente para resgatar nossos meninos e adolescentes da tal violência urbana. Elas são apenas fruto de uma política de massificação do esporte.
Mais eficiente do que ficar por aí clamando por leis e ação policial rigorosas, é atacar a raiz do problema.
Sou de um tempo em que, tanto nas escolas públicas quanto nas particulares, a matéria de Educação Física era obrigatória. E, em cada escola, havia, pelo menos, uma quadra destinada à prática do basquete, do vôlei e do handebol, antes do advento do futebol de salão.
No nível universitário, a cidade parava para acompanhar as disputas entre Mackenzie e Medicina (a Mac-Med), que lotava o Ginásio do Pacaembu e enchia as páginas esportivas dos jornais de informações a respeito. Assim como Pauli-Poli etc.
Nem por isso chegamos a ser uma potência olímpica. Nunca foi esse objetivo. Mas, havia um espaço a ser explorado, que foi fechado. Mesmo porque o futebol era, como continua sendo, o rei das competições brasileiras. Entre outras coisas, por ser a mais barata de todas as práticas esportivas. O amigo podia jogar na rua ou no campinho em frente de casa, descalço e chutando uma bola de meia ou de borracha.
Nos tempos em que não havia largos jardins nem mesmo nas mansões da Avenida Paulista ou Brasil, multiplicavam-se os clubes poliesportivos, que foram cedendo espaço aos parques de diversão dos condomínios, onde, no rigor dos fatos, vicejou, sobretudo, o futsal, um arremedo do futebol de campo.
Naufragaram no rio antigo o Tietê e o Esperia, dois ícones das mais variadas modalidades esportivas, do remo ao basquete, o vôlei, a natação etc.
Logo, é preciso massificar o esporte por via das escolas.
Mas, como, se essas instituições chegaram ao fundo do poço desde a ditadura militar, e que nem conseguem ensinar o be-a-bá? E diante da perspectiva de o governo prestes a se legitimar anunciar cortes nas verbas destinadas à Educação, assim como o fez com a Cultura?
Assim, com exceção das grandes e heroicas marcas pessoais, como, por exemplo, o caboclinho de Marília Thiago Braz, ouro em salto com vara, nossa medalha, como povo, nem é de ouro, nem de prata, nem de bronze. É marrom, a cor disso mesmo que o amigo pensou.
Concordo com seus comentarios mas com esse em particular. Sou brasileiro e moro nos EUA ha 17 anos. Aqui eu brinco que os EUA eh o pais mais socialista do planeta e explico. Meus filhos vao em escolas publicas (elementar e media) que sao gratuitas. Eles tem acesso aos mais diversos esportes como natacao, esportes com bola, atletismo, entre outros. Por 1US$ por dia eles almocam na escola, o cafe da manha eh de graca. Sem falar nas aulas de arte, musica (todos os alunos ganharam flautas yamaha de graca este ano), orquestra, e tecnologia da computacao ( o laboratorio de computaco eh show), e a biblioteca eh aberta no meio da escola e as criancas vao la e pegam o livro que quiser na hora que quiser sem controle. Isso no ensino elementar! Eles fican na escola das 7:30 as 3:30 todos os dias e com otima influencia….
Quem sabe se no Brasil tivesse um pouco de incentivo a coisa nao seria diferente…..
Simplesmente genial!!! Vale mais do que milhares de teses de mestrados sobre estes temas em curto espaço físico!!! Medalha de Ouro, Alberto!!!
Com certeza, se tivéssemos mais centros de treinamento, teríamos muito menos centros de detenção.
Helena, infelizmente! Triste constatação. Um País continental como o nosso, com talentos aflorando a todo momento e em todo lugar dessa terra varonil, mereceria uma melhor gestão em todos os aspectos, que com certeza a nossa participação não só em jogos olímpicos como em toda competições internacionais, seriam destaques.(vide a matéria bruta que temos em mãos (Isaquias Queiroz).