À nossa frente, o atraso

helenaO grande dramaturgo, escritor e cronista esportivo Nélson Rodrigues, costumava dizer que em 1958, com a conquista da Suécia, o brasileiro se desfizera da alma de cachorro vira-lata que embalava nas sovas diante de uruguaios e argentinos durante as décadas anteriores, até a tragédia do Maracanã.

Nélson, obviamente, se referia à falta de garra, de imposição do futebol brasileiro, sobretudo quando jogava no exterior. Costumávamos, então, a apanhar na bola e no tapa dos hermanos. Quando nossos times e a Seleção jogavam fora, era de uma covardia humilhante, assegurava o cronista.

Nem sempre foi exatamente assim. Mas, vá lá.

O fato é que, a partir de 58, demos a volta por cima. E, no Sul-Americano de 59, então, aplicamos uma literal surra nos bravos uruguaios., com aquela voadora de Didi, plástica, comovente, redentora, sobre um adversário. Logo Didi, a quintessência da elegância, nos gestos, no trato com as pessoas e, sobretudo, com a bola. E atingimos o ápice com a Seleção de 70, parâmetro para o que há de mais de mais moderno no futebol atual – o Barça e o Bayern de Guardiola, técnico que se inspirou naquele time, segundo suas próprias declarações.

De lá pra cá, somamos mais quatro títulos mundiais, uma penca de Libertadores, Mundiais de Clube, Copas América e das Confederaçôes e tal e cousa e lousa e maripousa. Ah, sim, nesse entremeio, encantamos o mundo com o Santos de Pelé durante mais de uma década, o Flamengo de Zico, o Inter de Falcão e outros mais. E, mesmo quando não chegamos lá, como em 82, o planeta idolatrou o futebol de Falcão, Cerezzo, Júnior, Leandro, Zico, Sócrates e cia. bela.

Bem, o fato é que, a partir de 2002, quando vencemos graças ao talento individual do trio R – Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho -, nosso futebol descambou para a vala comum. A ponto de perdermos uma segunda Copa em casa da maneira mais vexatória da história desse ilustre torneio.

E hoje ocupamos o sétimo lugar no ranking da Fifa, atrás de Bélgica, Chile, Colômbia, sei lá quantos mais fregueses do passado que agora nos assombram.

Até aqui, não estou dizendo nada de novo.

E, creio, nem o farei mais adiante, pois o amigo está cansado de saber que os 7 a 1 diante da Alemanha não foi marco de coisa alguma, a não ser da inércia, da incompetência e safadeza crônicas que paralisam as mentes e as ações dos responsáveis pelo nosso futebol – cartolas, técnicos, jogadores, mídia etc.

Na verdade, estamos sempre num processo de transição que jamais se completa, um círculo vicioso que não nos afasta do mesmo lugar.

Quanto à Seleção de Dunga – a escolha de Dunga é mais uma volta no parafuso -, nada a acrescentar que o amigo já não esteja farto de saber. Quanto aos nossos clubes, espie só: Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Flamengo, Botafogo, Fluminense, Galo, Inter, sei lá quantos dos grandes do Brasil, vivem em permanente reforma de elencos, trocando de técnicos a cada série de insucessos.

Não há na mesa um plano, uma ideia, um conceito a reger eventual reformulação do nosso futebol. Nada, zero!

O presidente interino, como os anteriores, é acéfalo, a não ser no que tange a tirar proveitos do poder.

Costumo dizer que o futebol é a dramatização do cotidiano, a representação da realidade de uma sociedade.

Não será esse também o caso?

Lembrei lá em cima o momento em que, segundo Nélson Rodrigues, nos livramos da alma de cachorro vira-lata. Justamente numa época em o Brasil vivia os tempos de JK, em que Maria Esther Bueno brilhava nas quadras de Wimbledon, o basquete de Amaury e o Diabo Loiro Vlamir conquistavam as primeiras medalhas de cunho mundial, em que Eder Jofre nos trazia o primeiro título mundial de boxe e Ademar Ferreira da Silva espantava o mundo com seus saltos triplos prodigiosos.

Tempos que se instalava no Brasil a indústria automobilística e que nascia a Bossa-Nova, o Masp trazia as mais seletas coleções de obras-de-arte do planeta, Anselmo Duarte ganhava a Palma de Ouro de Cannes com seu Pagador de Promessas, e Niemeyer projetava Brasília, uma capital de traços etéreos e definitivos na história da arquitetura.

Hoje, o que se vê são as ruínas de todas essas esperanças que começaram com a ditadura militar e se infiltraram na instalação da nova República de Sarney a Dona Dilma, Temer, Renan, Cunha et caterva. E, à nossa frente, apenas o atraso.

NA LINHA DO GOL

No dia do jornalista, uma raça em extinção, quero dar publicamente os meus parabéns ao jovem repórter desta casa Tomás Rosolino, que, na sua cobertura desta quinta-feira do São Paulo, dá uma aula de como deve se comportar um setorista ao cobrir as atividades de um time de futebol. Sugiro que toda a rapaziada pretendente a cursar a vida de repórter esportivo leia a matéria sobre o treino dos garotos Sub-20 do São Paulo contra os reservas profissionais. É a descrição de um treino como se fosse um jogo de fato, oficial. Era a instrução que costumava dar a meus repórteres, na época em que fui chefe de reportagem do JT, lá nos anos 70: vá ao treino como se fosse um correspondente estrangeiro, entrando pela primeira vez no recinto. Anote tudo, escolha o melhor ângulo e explore-o até suas profundezas. Isso é jornalismo. O resto é fofoca, shownalismo. Ou simples imbecilidade.

 

2 comentários

  1. Alberto Helena Jr,

    Você não imagina como me enche de orgulho ler seus comentários sobre meu filho Tomás Rosolino. Sua avaliação é mais do que um prêmio já que você é “fera” do jornalismo esportivo.
    Muito obrigada

  2. . Eu diria que o Brasil vive uma SVM (Síndrome de Valores Morais) e isso infelizmente pode levar muito tempo até que uma vacina seja criada para neutralizar essa epidemia. Todos os ramos da nossa sociedade foi afetada por ela, o futebol também não ficou imune.

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