Cuidado com o que você deseja

AFP
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Se o amigo está à espera daquele homem impoluto, fronte erguida repleta de ideias edificantes, mãos limpas e pés no chão, vá tirando o cavalinho da chuva. Esse cara não existe. Pelo menos, não na longa fila de cartolas que esperam avidamente as autoridades passarem o rodo na CBF e similares. Basta olhar o semblante de cada um e espiar suas folhas corridas.

No auge da campanha contra o nefando Ricardo Teixeira, lembrei meu querido Juquinha, o Traquinas, como costumo chamar carinhosamente o Juca Kfouri, do conselho acaciano: cuidado com o que você deseja.

Sim, porque na esteira do mal da hora pode estar à espreita um mal maior.

Não deu outra: saiu Teixeira, entrou Marin; saiu Marin, entrou Del Nero. É mais ou menos a ciranda que embala a política brasileira: sai Dilma, entra Temer; sai Temer, entra Eduardo Cunha; sai Eduardo Cunha, entra Renan…

Estou dizendo essas coisas porque acabo de receber do Juca Kfouri um manifesto, segundo ele assinado por gente da mais alta dignidade, pedindo a renúncia de Del Nero.

Em princípio, sou avesso a manifestos de qualquer ordem. Soa-me como lista de gado, um rebanho seguindo o sopro no chifre transformado em soturna corneta do capataz. E gado a gente marca, ferra, tange, engorda e mata, como bem dizia o Vandré em sua obra-prima Disparada.

Mesmo porque um manifesto, por sua natureza, não contém todos aqueles tons de cinza que tingem a realidade, sobre as quais prefiro refletir.

Como, por sorte ou azares da vida, disponho há mais de meio de século de um espaço público onde posso manifestar minhas opiniões, prefiro esse caminho ao do alinhamento coletivo sob um texto fechado em si mesmo.

Por exemplo: no caso presente, fico tentado a dispensar o ato de renúncia do presidente licenciado da CBF, Del Nero. Prefiro vê-lo sendo expulso pela justiça, pra que pague pelos seus males e sirva de exemplo aos que buscam ocupar sua cadeira.

A renúncia, no nosso imaginário cristão, é um gesto que soa nobre, algo do tipo abro mão de meus poderes e riquezas em favor dos mais necessitados e do bem comum. O cara vira mártir, vítima, ganha asas brancas e vai para o céu das lembranças vagas da opinião pública.

Você renuncia àquilo que por direito é seu. Nos planos da moral e da competência, a presidência da CBF não pertenceu jamais a Del Nero, nem a Marin, nem a Teixeira, nem a Nabi, Otávio Piteira, Heleno Nunes ou Havelange. Dessa longa linha sucessória de donos do poder do futebol brasileiro excluo apenas um nome, o de Giulite Coutinho, empresário no ramo de exportação de móveis, sujeito capaz e íntegro que, por isso mesmo, não durou muito tempo lá.

Mas, como sabemos que a justiça brasileira é morosa, cheia de subterfúgios para quem tem grana e conhecimento de seus meandros, vá lá, que seja a renúncia.

Assino embaixo, mesmo ciente de que esse processo de limpeza seguirá nos rastros do seu sucessor, seja lá quem ele for nessa lista de pretendentes atuais.

NA LINHA DO GOL

Pelo visto, Jadson está de partida pra China, segundo crava meu querido Chco Lang, que sabe das coisas do Corinthians como ninguém, entre outras filosofias da vida. A proposta, algo inacreditável, como dizem, veio do time de Luxa, da segunda divisão chinesa, o que não quer dizer nada, pois o governo lá está disposto a implantar o futebol pra valer no seu país a qualquer custo. E o Timão, como fica? Já está desembarcando em Itaquera Alan Mineiro, um meia de habilidade que se esmerou nos últimos tempos a atacar e fazer gols. Quem sabe?

Muricy assumiu o Flamengo e, além de brigar para manter o atual elenco, pretende esticar seu olhar para as categorias de base no Ninho do Urubu. Afinal, o Fla cultiva a velha máxima de que craque a gente faz em casa. Aliás, há muitos anos que essa tem sido a saída mais compatível com nossa realidade, mas que poucos ousam  adotar. Certamente, sua breve passagem por Barcelona tenha inspirado o nosso Muricy: lá, as canteras têm sido essenciais para o longo sucesso do Barça neste século.

Deivid, até outro dia auxiliar de Luxa e de Mano no Cruzeiro, assumiu oficialmente o cargo de técnico da Raposa. Confesso que, quando Deivid era excelente atacante do Santos, do Corinthians e do próprio Cruzeiro, jamais desconfiei dessa sua propensão. Mas, o rapaz fez o caminho certo até aqui, e torço pra que tenha sorte.

 

 

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