
Outro dia, este site publicou oportuna e bem feita reportagem de Marcos Guedes e Helder Jr. sobre a presença de Tite e Osvaldo Brandão na história das grandes conquistas do Corinthians.
O que eles têm em comum, além de serem ambos gaúchos, é isso aí mesmo: nas suas mãos, o Corinthians ganhou os títulos mais expressivos desde a metade do século passado até agora.
Ah, sim, e também foram bons jogadores profissionais, sem, contudo, atingirem a classificação de craques. Brandão, lateral-direito, duro, chegando às raias de violento, segundo relatos dos mais antigos; Tite, meio-campista de bom passe e visão de jogo.
Brandão, ainda jogador pelo Palmeiras, entrou com o pé direito na área dos treinadores, ao levantar o título paulista de 47, quebrando a hegemonia do São Paulo naquela década tricolor. Mas, só foi se consagrar mesmo na conquista do título do Quarto Centenário de São Paulo, em 1954.
É bem verdade que nessa história, dado o carisma de Brandão, ficou à sua sombra a figura modesta e extremamente competente de Rato, ex-craque corintiano dos anos 20/30, que cuidava das bases e montou o esquadrão bicampeão paulista de 51/52, rompendo o ciclo de dez anos de jejum do Mosqueteiro.
Foi Rato quem recolheu no Maria Zélia, vetusto time da várzea da Zona Leste, todo aquele contingente de craques que reinaria no Parque durante toda a primeira metade dos anos 50: Cabeção, Idário, Roberto Belangero, Luisinho, o Pequeno Polegar, Nelsinho, Colombo etc.
Com Rato, além do bi paulista, o Corinthians venceu dois ou três torneios Rio-São Paulo, o embrião do Brasileirão de hoje, mais a Pequena Taça do Mundo na Venezuela, disputada pelos grandes da América e da Europa.
Foi esse time vencedor e entrosado, com o ataque dos Cem Gols, que Brandão recolheu para se sagrar campeão do Quarto Centenário e entrar para a galeria dos imortais do nosso futebol. Depois, foi campeão pelo Palmeiras novamente, pelo São Paulo e, em 77, coube-lhe quebrar um jejum ainda maior – 23 anos de fila -, ao bater em 77 a Ponte Preta e levantar o título paulista daquele ano.
Místico, tipo paizão autoritário mas ladino, Brandão foi o Felipão de seu tempo, outro gaúcho adepto do futebol de resultados, aquele que privilegia a marcação à inspiração, nem que, para tanto, tenha de cuspir, bater no adversário, como já foi flagrado orientando seu time em relação a Edílson Capetinha, num histórico Palmeiras e Corinthians.
Já Tite, nesse sentido, representa o oposto de Brandão, embora tenha carregado por um bom tempo o epíteto de retranqueiro.
Mas, como ele mesmo gosta de dizer, a escola gaúcha tem duas vertentes fortes. Uma, parte do Capitão Froner, a que enfatiza a combatividade, à qual se filiam Brandão e Felipão; outra, inspirada em Ênio Andrade, ex-meia hábil, com refinado senso de orientação e coordenação de uma equipe de futebol, que estimulava um jogo mais sofisticado e ofensivo. Tite prefere considerar-se discípulo desta escola gaúcha, não daquela outra.
E isso é fato, sobretudo a partir da segunda metade do Brasileirão, quando seu time se livrou das amarras impostas pelo período natural de reorganização e disparou em direção ao título brasileiro e a um jogo mais envolvente e ofensivo.
Se Brandão tinha um vocabulário próprio, reduzido, composto de expressões particulares soltas aos arranques, Tite é fluente e cheio de construções barrocas, que a turma batizou de titês. Até nisso eles têm algo em comum no meio de tantas diferenças na forma de pensar o futebol: cada um, com sua forma particular de expressar suas ideias.
Mas o que os une definitivamente é a perenidade de ambos no coração da torcida e na memória eterna do Corinthians.
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