Guardiola, Luís Enrique, Sampaoli… E nós?

bolashelena

Guardiola, claro, Luís Enrique e Sampaoli (pelo amor de Deus, parem de acentuar esse ô inexistente em qualquer idioma conhecido da terra, muito menos o italiano, de onde provém o nome do treinador argentino) são os três técnicos escolhidos para o título de melhor do ramo pela Fifa.

Luís Enrique, que foi ótimo jogador – um atacante pelos lados que às vezes cumpria funções de ala tanto no Barça quanto no Real -, vem na esteira de Guardiola, de quem herdou esse Barça encantador e tão vitorioso, depois da breve e deplorável passagem de Tato Martino por lá.

Mas, é preciso dizer que Luís Enrique, além de abençoado pelas chegadas de Neymar e Suárez que formaram esse trio infernal de ataque do Barça – o MSN -, também fez sua parte. Acrescentou ao tique-taque catalão uma boa dose de lançamentos, sobretudo para explorar a velocidade do seu trio atacante e encarar aquele raro adversário que se atreva a jogar com sua linha de defesa mais avançada.

Como, por exemplo, a Real Sociedad, neste fim de semana, que decidiu pressionar o Barça no campo adversário. Resultado: 4 a 0 para os catalães, com vários gols nascidos de lances alongados do meio de campo e até da defesa.

Quanto a Guardiola, que a meu ver deveria receber esse título a cada ano, nada a acrescentar além de tudo que tenho dito por aqui e na tv: obsessivamente ofensivo, justamente pelo temor de ser atacado, levou seus conceitos para um Bayern supercampeão e conseguiu o prodígio de ainda mais aumentar a eficiência e a beleza do jogo dos bávaros.

E Sampaoli segue a mesma linha de ação, seja nos clubes que dirigiu, seja na Seleção do Chile, campeã da Copa América e que já havia feito bela figura na Copa de 2014.

O que eles têm de comum é exatamente essa vocação ofensiva, a capacidade de armar times que se atiram ao ataque, com a marcação alta, explorando o toque de bola, o envolvimento e  o bote final quando chegam à zona de finalização, com vários jogadores na área, indefectivelmente.

E aí o amigo pergunta: pô, nenhum brasileiro na lista?

Nem pensar. Pois, além do fato de nossos campeonatos mal serem vistos na Europa, nossos treinadores também mal veem o que lá se faz. Ou se veem, não enxergam.

Tempos atrás, quando Fàbregas estava esmerilhando no Arsenal, um famoso técnico brasileiro, tão amigo que vou omitir seu nome, passou uns dias na Europa. Na volta, me sentenciou convicto: “Não entendo porque tanto falam desse Fábregas. É um volante comum, que toca curto como tantos que temos aqui.”

Pois é. Vê, mas não enxerga.

Dias atrás, ouvi de outro treinador brasileiro, figura igualmente querida, o mesmo sobre Busquets: “Toca curto, não dá um lançamento, pô!”.

Eles veem, mas não enxergam que tanto aquele Arsenal de Fàbregas quanto o Barça de Busquets jogam compactos, com suas linhas defensivas vanaçadas a ponto de os beques se transformarem em volantes e volantes em meias não há espaço para lançamentos. O que prevalece é a troca de bola de primeira, vertiginosa, com esta ou aquela virada de lado. Mas, quando os espaços se abrem, tanto Fàbregas quanto Busquets, têm técnica, habilidade e visão de jogo para fazer um passe exato a la Gérson. Ainda contra a Real Sociedad, como na partida anetrior, Busquets meteu uma bola de cinquenta metros para Daniel Alves que resultou em gol do Barça, por exemplo.

É outro que vê, mas não enxerga, como a imensa maioria de nossos treinadores, praticamente todos sem nenhum embasamento teórico ou sobre a evolução das táticas e esquemas ao longo da história. Contudo, chamados de professores, preferem ficar ali encastelados na ignorância estimulada pelos salários absurdos que recebem, certos de que seu valor real está expresso nos altos salários ou nas conquistas de vitórias ou títulos. Isto é: nos resultados.

Um ou outro dá uma escapadinha em direção ao conhecimento, coisa breve e superficial, o que nos mantém nesta sombria zona da cena universal.

Resultado: ficamos nesse círculo de giz encantado, isolados da verdadeira modernidade, em nome dessa falsa modernidade.

Um comentário

  1. Acho que o Tite é uma agradável exceção. Ele valoriza a compactação e toques curtos, tanto que chegou a dizer uma vez que se pudesse escolher entre Messi e Xavi para jogar no seu time escolheria Xavi.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *