
Hummm…, sei não.
O Palmeiras, depois de um período de euforia, quando manteve por longo período a posição de quarto colocado no Brasileirão e chegou à final da Copa do Brasil, despencou. Só pra se ter uma ideia acaba de perder, em casa, para o Coritiba, um dos sérios candidatos ao rebaixamento, e reduziu sua chance de ir à Libertadores ao jogo decisivo pela Copa do Brasil, amanhã, contra o Santos.
O Santos, que, por sua vez, deu uma arrancada prodigiosa no Brasileirão, saindo das fraldas da zona do rebaixamento para a área nobre da classificação da Libertadores, a bordo de um futebol encantador e implacável, sobretudo na Vila. De repente descaiu a ponto de ficar de fora da disputa pelo quatro lugar no Brasileirão ao perder por 1 a 0 do Vasco, forte candidato ao descenso.
Ambos, é verdade, jogaram suas últimas partidas no Brasileirão com seus times reservas. Isso conta, claro.
Conta mais, porém, para esse jogo decisivo no Allianz Parque, pela Copa do Brasil, o estado anímico dos dois times.
Que o time e o futebol apresentado nos momentos que antecederam a esses pelo Santos é bem melhor do que o do Palmeiras. Mais ágil, envolvente, insinuante, incisivo e organizado. Além disso, venceu o primeiro confronto, na Vila. Mas, venceu por apenas 1 a 0, o que abre uma perspectiva enorme para o Verdão neste jogo da volta.
Isso quer dizer que o Santos entra em campo, mesmo fora da Vila mágica, com ares de favorito. Ou seja: mais comprometido com a conquista do que o adversário. Afinal, o que obteve até agora, a recuperação inaudita, tudo isso vai acabar em nada? É o que mexe com os nervos santistas, sem dúvida.
Já o Verdão, diante de sua torcida inflamada e há tanto tempo decepcionada que carga emocional levará a campo? O suficiente, imagino, para levá-lo a uma exibição épica, ou à frustração mais profunda, mais uma que acumula à alma verde.
Jogo de se ver com um terço na mão.
Sem dúvida, Helena, jogo pra ver com um terço na mão ou então, ficar com o terço na mão sem ver a partida. Haja coração. Mas para você que é um entusiasta do futebol bonito,. deixo aqui uma crônica de Plínio Marcos, sobre uma partida entre Santos e Palmeiras, que terminou em 7 a 6, em 1958. Bons tempos, não?
“Pelo Santos FC de glórias mil, se morre e se mata…”
Nas quebradas do mundaréu, o povão lesado que torce pra esses timecos que não dão alegria pra ninguém se atucanam de inveja com a intimidade que a torcida peixeira do Santos FC de glórias mil tem com os títulos. Aí, já viu. Inventam mil e um babados pra esculachar o nosso axé. Dizem os despeitados que nós, torcedores do alvinegro praiano, aparecemos junto com o Pelé e vamos sumir quando o Rei pendurar a chuteira. Cascata! Quem, como eu, nasceu na bela ilha de Iemanjá, em 35, teve a chegada ao mundo e a festa de batizado meio ofuscada pelas comemorações retumbantes do título espetacularmente conquistado por Ciro, Neves, Agostinho, Marteletti, Biruta, Araken. Junqueirinha e outros. E aí a gente se ligou no Santos FC de glórias mil.
Teve tempo que tivemos só Gradim no time. Outros, só o Antoninho. O genial Antoninho, que fazia das tripas coração pelo nosso alvinegro e que só não dava títulos e mais títulos pro timão peixeiro porque o Palmeiras, o São Paulo e o Corinthians se enturmavam na Federação e chavecavam o nosso Antoninho e nosso Santos FC de glórias mil. Mas não desanimamos nunca de torcer pro nosso time. Vibramos com os gols de Odair Titica e do Nicácio, tanto quanto com os gols de Pelé. Até que veio o tempo bom. Aí, com Zito, Ramiro, Álvaro, Pepe, Tite, Del Vechio, Pagão, Jair, Vasconcelos e outros embandeiramos o pagode. E só mesmo com quás-quás-quás os inimigos puderam encarar a gente. Na bola não deu. Mas deixa isso de lado. O que eu quero contar e o que pesa na balança é que, pelo Santos FC de glórias mil, se morre e se mata. Essas duas histórias que escancaro aqui são verdadeiras. Não inventei nada. Sente o aroma da perpétua.
O ataque mais fabuloso de todos os tempos do futebol brasileiro foi, sem dúvida nenhuma, o do Santos FC de glórias mil, em 58. Dorval, Jair, Pagão, Pelé e Pepe formavam uma linha que desconhecia ferrolho, retranca e outras bobeiras desse naipe, que só servem para enfeiar uma partida.
No tempo dessa linha, O Santos FC de glorias mil podia até perder. Sabe como é que é. Até araruta tem seu dia de mingau. Porém (e sempre tem um porém), pra ganhar do alvinegro praiano peixeiro, os inimigos precisavam fazer gol. Muito gol. Tanto gol que no final o placar ficava parecendo muito resultado de basquete.
Juro por essa luz que me ilumina que uma vez deu zebra. O Jabaquara, um timeco muito querido, mas só tinha as camisas, faturou o Santos FC de glórias mil. Mas, pra dar zebra, o Jabaquara, que era caixa de pancada da época, teve que virar bicho e botar 6 pepinos no barbante. Porque nesse dia a linha do Santos estava com pouca inspiração, só fez 4. Seis a quatro pro Jabuca. Ninguém estrilou nas sociais do Santos. Todos ali presentes haviam visto um grande espetáculo, haviam visto gols, que são a alegria do futebol.
E é isso aí. Podes crer, amizade. O espetáculo tinha sido magnífico. Bola na rede emociona, sacode e tudo o mais. Chega até a matar. E morrer de gol do time da gente deve ser mais doce que morrer no mar do Caimy. Ruim deve ser quando se morre por pixotada da defesa. Aí não presta mesmo. É uma gronga. E nesse tempo, a defesa do alvinegro peixeiro também fazia o coração de muito torcedor ir pro beleléu. Mas, até nesse escore macabro, a linha ganhava.
Lembro de um jogo terrível. Em 1958. O que morreu de gente não foi brinquedo. Foi contra o Palmeiras o jogo. E por causa dele, cinco torcedores foram falar com Deus.
O Santos FC de glórias mil entrou em campo com Manga, Hélvio e Dalmo; Fiote, Ramiro e Zito; Dorval, Jair, Pagão, Pelé e Pepe. Os polenteiros se alinharam com Edgar, Valdemar e Édson; Formiga (nesse tempo era do Palmeiras), Fiúme e Dema; Paulinho, Nardo, Mazzola, Ivã e Urias. E, sem papo furado, mandaram ver. Aos oito minutos Urias abriu a contagem pro Palmeiras. Pelé se invocou e dois minutos depois empatou. 1 a 1. Os palmeirenses tremeram nas bases. Ficaram de zonzeira. Mas não estava bom, e Pagão, o gênio, carimbou outra vez. 2 a 1 pro Santos, aos 25 minutos. Dada a saída, o Palmeiras ataca e pimba: Nardo de cabeça, aos 26 minutos empata para o Palmeiras. 2 a 2. Pro Palmeiras ficou legal. Dois a dois era bom resultado pro primeiro tempo. E pra segurar o placar, foram os onze polenteiros pra baixo da própria trave e ficaram plantados lá. Já naquele tempo essa apelação era besteira. Principalmente contra o Santos FC de glórias mil, que tinha uma linha de artistas geniais.
Cinco craques. Disse cinco. E disse bem. Linha, pra mim tem cinco jogadores. Isso pode ser antigo. Mas, que se dane. A coisa que o povão que berra na geral gosta é de gol. E linha de cinco faz mais gols do que a moderna linha de atacantes de três, de dois e até de um, que usam por aí. Mas, deixem isso de lado. O que quero contar e o que pesa na balança é que o Palmeiras empatou e se fechou na retranca. Se danou. No toque, a linha peixeira foi abrindo brechas e balançando as redes inimigas. Dorval, Pepe e outra vez Pagão, o gênio, balançaram o barbante periquito. E deu o primeiro tempo. 5 a 2 para o Santos estava legal.
No vestiário do alvinegro das belas praias de Iemanjá, o tesoureiro aproveitou o tempo pra, com tranqüilidade, pagar o bicho. Já no lado dos polenteiros, o perereco ficou escamoso. Os corneteiros do alviverde chiavam paca. Os cartolas apertavam o técnico. E esse apavorado, com medo de perder o emprego, esculachava os jogadores pedia pelo seu orixá pra que eles fizessem das tripas coração, não para a ganhar, que parecia impossível, mas pelo menos pra evitar vexame. E os craques palmeirenses, a bem da verdade é preciso que se diga, eram briosos e prometeram endurecer. E voltaram pro segundo tempo espumando pelos cantos da boca.
E a moçada peixeira voltou pro segundo tempo só a fim de fazer graça. E isso picou de raiva os craques alviverdes, que se encheram de gás e foram a forra. E Mazzola, Paulinho e Mazzola de novo deram o troco e o jogão ficou empatado.
Aí morreu o primeiro cara.
Estava abanando sua bandeira na geral e, quando a defesa do Santos engoliu o quinto, o pobre homem não se agüentou. Desabou. Culpa da defesa. Um morto na sua conta.
O defunto provocou aquele alvoroço. Mas nem por isso o jogo parou para fazer minuto de silêncio. Foram tirando o corpo da vítima e a bola rolando. E todo o povão pensou que ia ficar por aí. Mas que nada. O Urias marcou o sexto gol do Palmeiras. 6 a 5 pro alviverde.
E mais um torcedor santista empacotou. Esse apagou nas numeradas. Culpa da defesa do Santos FC de glórias mil, que estava transformando uma vitória retumbante em uma derrota de encabular até os maiores caras-de pau. Porém, o juiz ainda não tinha apitado o fim da partida. E o ataque do Santos FC de glórias mil daquele tempo não se assombrava com anda. Nem com as chineladas que a defesa do Palmeiras dava pra espantá-los da área. Aliás, aproveitaram pra cavar falta. O juiz estava com uma bruta má vontade de apitar. Custou pra ele marcar uma infração contra o Palmeiras. Fechou os olhos pra uns dez pênaltis claríssimos, desses que até juiz de várzea dá, mesmo contra o time do dono do campo. Por fim assinalou uma falta na intermediária do Palmeiras. Nem ele, nem ninguém acreditava que daquela distância do gol a falta fosse perigosa.
Esqueceram de Pepe, o canhão da Vila Formosa.
E ele não perdoou o esquecimento. Encheu o pé. A bola foi se encaixar na última gaveta. Nem o Edgar, nem outro qualquer goleiro do Mundo pegava aquela bola. E o jogo ficou empatado. 6 a 6 no placar do jogo.
E mais dois torcedores bateram as canelas. Um nego bom, que viajava num ônibus no bairro do Macuco, em Santos, escutando o jogo no seu radio de pilha e um outro que estava atrás do gol fazendo figa pra bola entrar.
2 a 2 no placar das mortes. Exatamente quatro mortos. Dois por causa da defesa peixeira e dois por causa do magnífico ataque.
Mas, não ficou aí a contagem. O próprio Pepe carimbou mais uma vez a rede dos polenteiros e mais um santista das gerais se abilolou e estrebuchou feliz com a vitória do timão peixeiro.
Foi sete a seis pro Santos FC de glórias mil. Três mortes na conta da linha contra duas na conta da defesa, que furava mais que picotador de táxi-dança. Ao todo cinco defuntos. E essa contagem mostra bem como a torcida do Santos FC de glórias mil morre pelo seu timão. Duvido que em outra partida tenham morrido tantos torcedores de emoção.
Rafael, que belas lembranças!
Só pra seu governo, quem escalou o grande ator, dramaturgo e amigo do peito Plínio Marcos como colunista esportivo foi o papai aqui, na Última Hora Dominical, criada e dirigida por mim em 1967.
E, pra sua inveja, vi esse jogo, em noite chuvosa, no Pacaembu. Pra mim, o mais emocionante e belo jogo de futebol de todos os tempos.
Abraços