E foi assim que Maanape inventou o bicho do café, Jequiê a lagarta rosada e Macunaíma o futebol, três pragas (do Brasil).
Pra quem não leu a rapsódia de Mário de Andrade, o inventor do modernismo brasileiro, obra-prima da literatura nacional, Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, vale dizer que essa frase extraída do livro refere-se ao lance em que Maapana e Jequiê, os dois irmãos mais velhos de Macunaíma, transformam um tijolo em bola de couro e a disparam sobre o herói, que mata no nariz e a envia, num chute irritado e poderoso, aos campos distantes. Quem sabe em direção ao Gasômetro onde o anglo-brasileiro Charles Miller botou pra rolar a primeira bola de futebol no Brasil, segundo as fontes oficiais.
Pra melhor entendimento do que quero dizer a seguir, é bom advertir sobre o título do livro. Macunaíma não tem nem bom, nem mau caráter. Simplesmente, não tem caráter algum, e, ao longo de suas aventuras e desventuras, muda de forma e de pensar de acordo com as conveniências ou inconveniências.
É o retrato acabado do brasileiro. um tipo sem identidade cultural em meio a tantas expressões culturais que herdou dos índios, dos europeus conquistadores e dos negros escravizados. E, portanto, sem o cunho da cidadania, que trata com uma amoralidade que parece fazer parte de sua natureza.
Não pense o amigo que estou aqui querendo fazer antropologia de boteco, pois me faltam dotes e conhecimento até mesmo para isso, como fuga para o nosso papo habitual sobre futebol, nada disso.
O futebol entra aqui, com o estrondo das arquibancadas desmoronadas do campo do Água Santa, de Diadema, recém-chegado à Série A do Paulistão.
Confesso que nem sabia da existência desse clube até outro dia, quando ouvi rumores de que era financiado ou pertencia ao PCC, facção criminosa de enorme influência na sociedade brasileira, sobretudo nas periferias e comunidades como as favelas passaram a ser chamadas ultimamente.
Fato que o presidente do Água Santa, ao ruir das tais arquibancadas, apressou-se a desmentir publicamente.
Ainda bem, meu! Já pensou? Este Brasil ínclito, infenso à corrupção em todos os seus estratos, do alto de suas autoridades ao mais humilde cidadão, tendo um time de futebol, onde campeia a honestidade mais transparente, paixão de todos nós, patrocinado pelo crime organizado?
Seria o cúmulo! Ou seria apenas um reflexo de nossa sociedade, amoral, extrativista desde o desembarque de Cabral, onde só prevalece o ter e não ser?