Um tributo ao Siri

Fernando Dantas/Gazeta Press
Fernando Dantas/Gazeta Press

Neste dia reservado aos que se foram, lembro de meu saudoso pai, que me legou duas lições decisivas sempre seguidas à risca: preservar a honestidade a qualquer custo e fugir do fanatismo como o diabo da cruz. Ateu,respeitava todas as crenças, a ponto de, embora católico por nascimento, viver entre os judeus do Bom Retiro como um deles, tendo sido talvez o único gói de seu tempo que falava íidiche corretamente em São Paulo.

Mas, tinha horror às tragédias que o fanatismo religioso produziu ao longo dos séculos, sobretudo entre cultos ao mesmo Deus, o dos judeus, cristãos e muçulmanos. Irmãos na adoração ao mesmo Pai espiritual e, biblicamente, humano, Abraão, trucidam-se até  hoje.

Numa escala bem inferior, detestava o futebol porque considerava uma fábrica de fanatismo, o pior de todos os sentimentos humanos, pois cegava a razão e colocava em campo a besta que sobrevive em nós desde o início dos tempos.

Embora amando o jogo da bola desde menino, jamais consegui me esquecer desses sábios ensinamentos. Mesmo porque, seja por traço atávico, seja por educação, o que mais me atraiu nesta vida foi a beleza, nos gestos, na postura, nos pensamentos e principalmente na capacidade criadora do ser humano em qualquer área.

Era o que já me encantava no velho Brás dos italianos da virada dos anos 40 para os 50, a partir das peladas de rua que rolavam dia e noite em frente de casa e diante do muro da garagem de bondes da Light. Gostava, por exemplo, de ver as manobras com a canhota descalça do Siri, um menino mirrado, dentuça projetada, tipo Ronaldinho Gaúcho, pele bronzeada e cabelos lisos aloirados, fã e clone de Luisinho, o Pequeno Polegar, seu paradigma, e que morreu cedo, como bêbado indigente. O bicho produzia magias com aquela perninha esquerda feita um fio de aço.

Não importava se eu, grosso e desajeitado, jogasse ao seu lado ou contra, sempre ficava extasiado com sua arte.

Engraçado…. E o Siri viva sendo esculhambado pelos parceiros, por seu individualismo e pouca praticidade, pois, depois de uma série de dribles, acabava perdendo a bola no chute final.

Siri era corintiano roxo; eu, tricolor naquela época. E mesmo assim o admirava como ao seu ídolo, o Luisinho, mesmo quando ele humilhava um dos meus ídolos, Mauro Ramos de Oliveira, o maior beque que este país já produziu dentre os que vi (Domingos está fora da minha visão), justamente porque jogava uma bola redonda e elegante.

Siri, descanse em paz, finalmente, pois aqui está um seu fã eterno ainda respirando, apesar de tudo.

Assim como a todos os Siris que encantaram as ruas, os campos de várzea, os estádios e a história do nosso futebol, não importa que camisa já tenho vestido um dia.

 

 

 

5 comentários

  1. Parabéns Alberto, gosto muito dessas histórias do futebol, como é bom relembrar de fatos que marcaram a nossa memória de um tempo que se foi e que nos deixou lindas lembranças.

  2. Até o final da década de 60 do século passado,a nossa querida São Paulo,que na época já era a maior cidade do país,tinha dezenas de campos de futebol e centenas de terrenos vazios espalhados pelos bairros e vilas,
    A partir da década seguinte,a especulação imobiliária desenfreada e inescrupulosa foi a responsável pelo
    desaparecimento das peladas de ruas,e como conseqüência,dos moleques descalços como Siri.
    As peladas de ruas de hoje são as escolinhas de futebol,onde moleques como Siri não entram.

  3. Muito boa sua crônica, Se todos nós deixássemos aos nossos filhos os ensinamentos verdadeiros que teu pai te ensinou, com certeza o munto seria e será um dia muito melhor.
    Assisto todos os dias o programa de esporte da Gazeta, e sempre admiro sua postura, discernimento, e dignidade que transmite aos telespectadores

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