
Pra quem acha que o sistema de pontos corridos não provoca emoções, dê uma espiada no encerramento do Campeonato Espanhol. Estádios cheios, e, em campo, muita arte e um desfecho de tirar o fôlego.
Comecemos pelo empate entre Barça, o campeão, num torneio em que o Real brilhou o liderou no primeiro turno para ser superado espetacularmente pelo seu maior rival no segundo.
Pois, o Barça vencia o La Coruña, no Camp Nou, por 2 a 0, dois de Messi – um, de cabeça, outro, num presente embrulhado em papel dourado por Neymar. Vencia e tinha plen0 domínio da partida com aquele passe e repasse hipnótico habitual, pontilhado de belos lances criados por Neymar, Messi, Rafinha e cia. bela.
Um jogo que combina criatividade, técnica e diversão. Como se fosse um cientista com alma de criança brincando com seus tubos de ensaio.
Aliás, por mera coincidência, inaugura-se no Cento Tomie Otake uma mostra do mais celebrado artista plástico catalão – Juan Miró -, cuja obra flutua entre o lúdico e o encontro com todos os arcanos da mente humana. Seus quadros parecem coisa de criança, uma sábia e profunda criança, de certa forma semelhantes no espírito às colagens surrealistas de Dali, seu conterrâneo. Tudo isso é catalão, meu, assim como o Barça, em camp0, a maior expressão dessa divertida e sensível alma de seu povo em campo.
No ar, pairava aquela sensação mista própria das grandes despedidas, um tanto de tristeza, um tanto de prazer pela homenagem a um dos mais significativos ídolos da história do Barça: Xavi, que cumpria sua última partida com a camisa que defendeu durante quase dezoito anos.
Eis, porém, que o La Coruña, com a corda no pescoço, prestes a cair para a Segunda Divisão, deu três ataques – uma bola no travessão e duas nas redes. O empate que o salvou no instante exato em que o trem ia passar por cima, como no fim-recomeço daqueles seriados antigos.
Entre mortos e feridos, como diria o amigo lusitano, todos saíram do estádio felizes.
Logo em seguida, é a vez do vice, o Real, sem alguns titulares mas com Cristiano Ronaldo em campo, diante do Getafe. Qual a novidade?: eis Cristiano marcando três dos sete gols de seu time. Isso mesmo: 7 a 3. Mas, atenção: não foi assim fácil, não, pois o primeiro tempo terminou com o placar de 3 a 3, e a coisa só fluiu a favor dos merengues depois de o extraordinário colombiano James Rodriguez cobrar falta magistral e desempatar o jogo.
E com direito à estreia do menino Hudegard, de 16 anos, canhotinho bom de bola que vai dar muito o que falar no futuro, caso o Santiago Bernabéu não o devore na sua ânsia incontrolável de contratar celebridades a peso de ouro e puxar o tapete de seus treinadores, um a um, como parece estar fazendo agora com Ancelotti.
Mas, voltando ao início do nosso papo, emoção não se forja em fórmulas mágicas de disputa de campeonatos. Em futebol, emoção nasce da arte de jogar bola em campo, o verdadeiro ímã que atrai o torcedor e enche as galerias de gente que vê seu dinheirinho e seu tempo serem bem empregados. Fácil.