
A questão não é saber se o técnico veio d’além fronteira ou se mora na taba ao lado. Tanto faz, se não for um Guardiola, por exemplo. E, mesmo ele não sei como se viraria com esse nosso calendário estúpido em que não há espaço para técnico nenhum treinar seu time adequadamente.
Eis por que nossos treinadores não se destacam por ousadias táticas, essas coisas, e, sim, pela capacidade maior ou menor de mobilizar o grupo de jogadores e motivá-los para se desdobrar em campo, duas vezes por semana, intercalando os jogos com viagens longas e cansativas, seja no Brasileirão, seja na Libertadores ou Copa do Brasil ou Sul-Americana, que diabo for.
Estou falando disso a propósito da iminente contratação pelo São Paulo do técnico colombiano Juan Carlos Osório, tido como um profissional bem preparado, com cursos e estágio na Europa e atualmente treinando o Nacional de Medellin, onde, dizem, não anda em lua de mel com a torcida do clube.
Confesso que pouco sei sobre a figura de Osório, muito menos sobre seus métodos de treinamento. Só sei que gosta de mudar muito a equipe, de acordo com o adversário, e que prega a versatilidade para seus jogadores. Traduzindo: gosta de poder utilizar seus jogadores em várias posições.
Em princípio, tudo bem, é isso mesmo. Quanto mais versátil, polivalente, como costumava denominar o saudoso Cláudio Coutinho, capaz de fazer várias funções na equipe, mais alternativas esse jogador dará ao técnico na formação do tme e até nas alterações durante uma partida de futebol.
Mas, isso não é nenhuma novidade por estas bandas, desde os tempos de Friedenreich. O problema é garimpar esses jogadores capazes de executarem essas várias funções num mercado coalhado de especialistas, a imensa maioria treinada desde pequeno a mais marcar do que a armar e atacar.
Não adianta nada você passar um volante para a lateral, se ele não tiver velocidade e cruzamento certeiro. Assim como avançá-lo na função de meia, se não tiver ginga e passe exato. E assim vai.
Por fim, há a questão da paciência da diretoria, da torcida e da mídia em relação ao trabalho de qualquer treinador, seja gringo ou tapuia, num futebol que se pauta exclusivamente pelo resultado: ganhou, é gênio; perdeu, uma besta quadrada.
E aqui volto ao início, à questão da metodologia de trabalho. Sim, porque para mudar a cara de um time, é preciso muito treino, muita conversa, muita explanação áudio visual, essas coisas elementares. Será que os métodos desenvolvidos por Osório em seu estágio na Inglaterra e nas atuações como técnco no México e na Colômbia serão aplicáveis aqui, com esse calendário e as características do jogador brasileiro atual?
Terá o São Paulo elenco suficiente para permitir ao técnico a troca de quatro, cinco jogadores, de um jogo para outro sem perder muito de sua eficiência em campo? Nos principais centros europeus, pelo poder econômico dos grandes clubes, isso é perfeitamente possível, embora, o Barça, por exemplo, o suprassumo da modernidade desde muito tempo atrás, só faz mudanças pontuais, por lesões ou descanso deste ou daquele titular. O que, aliás, explica aquela capacidade singular de tocar a bola, fruto óbvio do senso de conjunto adquirido ao longo de toda uma temporada.
Por outro lado, sempre que se fala em técnico estrangeiro no São Paulo, joga-se à mesa o nome ilustre de Bella Guttman. Peraí, meu! Bella Guttman veio do bojo de um futebol revolucionário em sua época – a Seleção Húngara e o Honved, base do selecionado nacional, com passagens pelo Benfica e outros grandes da Europa. Era um nome consagrado mundialmente, que pegou um São Paulo repleto de craques – Poy, De Sordi, Mauro Ramos de Oliveira, Dino Sani, Maurinho, Canhoteiro, e recebeu de presente a joia da coroa, Zizinho, o Mestre Ziza, o mais completo e inteligente jogador de futebol brasileiro de todos os tempos.
Além do mais, em 1957, jogava-se tão somente o campeonato estadual – com muito menos clubes do que hoje – e o Rio-São Paulo. Havia, pois, muito tempo para o técnico aprimorar seus jogadores, individualmente, e a equipe, como um todo.
Antes dele, em 53, o Tricolor teve o argentino Jim Lopes, que já estava integrado ao nosso futebol havia muito tempo. Assim como Poy, nos anos 70. José Poy, grande e saudoso amigo, veio para o São Paulo ainda moleque, em 48, como goleiro reserva de Mário, a quem sucedeu a partir dos anos 50, e se integrou de tal forma ao clube que foi o campeão de vendas de cadeiras cativas no período de construção do Morumbi, e, depois de pendurar as chuteiras, alternava as funções de supervisor com a de técnico tampão, uma espécie de Milton Cruz de seu tempo.
Situações, pois, muito distintas das atuais.
Mas, enfim, que venha o Osório e com ele um sopro novo capaz de agitar essa pasmaceira geral em que nosso futebol caiu nas últimas décadas.
Grande Helena! Não sabia que você estava por aqui! Descobri graças a sua genial entrevista para o Menon, que sempre acompanho. Concordo contigo. A ideia é ótima e a aposta apresenta um quadro otimista a longo prazo. A dúvida e ao mesmo tempo certeza é se esse prazo será longo o suficiente dado o imediatismo midiático, torcidático e presidênciatico nessas malfadadas terras tupiniquins! Ótima descoberta, ainda que tardia, saber que posso acompanhá-lo aqui neste websítio!! Um abraço!