
Outro dia, levei um papo agradável, como sempre, com o Mano Menezes pelo telefone.
Há quem não goste dele, como pessoa, ou de seu trabalho, como profissional. Coloque-me, por favor, fora dessa turma.
Mas, isso não vem ao caso. O caso é que Mano está estudando inglês pra valer, segundo me informou, e de olho numa estada na Europa não só para observar os treinamentos em alguns dos grandes clubes dos principais centros daquelas bandas, como também fazer um curso de aperfeiçoamento para técnicos de futebol.
Isso, sim, é importante: acompanhar de perto o trabalho dos treinadores de lá no dia a dia, não apenas trocar figurinhas no jantar com este ou aquele famoso.
Verificar se realmente há metodologias novas de treinamento, de ajuste de time, que justifique a disparidade flagrante existente entre o jogo praticado nos principais centros europeus e essa coisa insossa a que somos obrigados a assistir por aqui. Ou se tudo não passa da escassez de bons jogadores na atual safra doméstica do Brasil, além do calendário estúpido que impede nossos técnicos de executarem seu trabalho em sua plenitude.
Fala-se muito na excelência de um Mourinho, um Anceloti, um Van Gaal, um Sampaoli, mas quem os viu treinar de fato? Na verdade, os elogios vêm dos resultados obtidos por esses treinadores, que, como os nossos, têm lá seus momentos de euforia intercalados por depressões, dependendo do time que estejam dirigindo, das várias disputas e tal e cousa e lousa e maripousa.
Lembro que, quando Telê assumiu a Seleção, a moda eram as tais jogadas ensaiadas, que fizeram a fama de Rubens Minelli no Internacional. Mais de sessenta, segundo me assegurou mestre Minelli certa vez. Perguntei, então, a Telê a respeito, e a resposta veio num tom rascante:
– Ô, Helena. Não tem esse negócio de jogada ensaiada, não. A coisa é mais simples: acertar o passe e dar conjunto ao time. Jogada ensaiada, só em bolas paradas.
E dá-lhe coletivos, com as paradas necessárias para ajustar o passe e o posicionamento dos jogadores de cada setor.
Domínio de bola e passe, esses eram os fundamentos básicos em que Telê era rei como jogador e professor como técnico.
Justamente o que me diz trinta e cinco anos depois Mano Menezes pelo telefone:
– O duro é insistir com nossos jogadores nesses fundamentos. Eles acham que sabem e não precisam se aperfeiçoar nos quesitos elementares.
Então, caímos nessa vala comum da ligação direta, os beques distribuindo balões pra frente, muita correria, pega-pega, faltinhas às pencas e o gol como fruto isolado de uma bola parada bem batida, em direção à meta ou à cabeça do companheiro na área.
Outro dia, o meu querido Zé Elias que se destacou na era dos brucutus por ser um volante marcador, quando não violento, mas que tinha bom passe, durante a transmissão de um desses tantos jogos da Espn, advertiu para o fato de que tal time não conseguia atacar na medida certa porque os seus atacantes estavam mais preocupados em voltar pra marcar os laterais e volantes adversários do que em cumprir sua função básica – a busca pelo gol.
É a síndrome do contragolpe, uma epidemia já endêmica que assolou o futebol brasileiro há duas décadas, por baixo.
Torço que Mano vá em busca do tempo perdido e que tenha êxito.
Acho que o futebol brasileiro tem que se reinventar em todos os setores, principalmente financeiro. Por outro lado, vejo que temos que sobreviver com o que temos. Antigamente surgia mais jogadores na várzea, nos campinhos, hoje não é mais assim. Tem regiões, americana, por exemplo, que os campeonatos da várzea começam e nem terminam, segundo relatos dos meus colegas que ainda moram lá. Lembro-me quando garoto e morava na fazenda que o time da fazenda jogava em toda região de Maringá. Bem, sem fugir muito do assunto Mano, quando eu cito reinventar é se virar com o que temos. Esse treinamento que ele está fazendo no interior deverá ser muito bom para implantar no nosso futebol, porém, longe de quere ter elencos recheados como os dos treinadores citados acima. É isso aí…..