
Vi e ouvi o desabafo de Luxemburgo a respeito das restrições impostas pela federação carioca na utilização de jogadores de base, algo parecido ao que acontece em São Paulo. Seu discurso foi claro, firme e nem um pouco ofensivo: apenas detalhava o nível de estupidez que rege as ações dessas federações anacrônicas que, em vez de promover o futebol, seu único produto, o rebaixam a cada ano.
Como resultado disso, em vez de a federação carioca refletir a respeito, resolveu punir o técnico do Flamengo com suspensão automática, que já foi revertida por ação cautelar, e levá-lo a julgamento no tribunal esportivo do Estado do Rio.
O amigo perguntará, cheio de razão, por que o Flamengo, na hora de decidir o regulamento do campeonato, não se insurgiu contra as medidas da entidade que o prejudicariam lá na frente. Respondo. Em primeiro lugar, porque vence a maioria, e os clubes grandes nessas federações de araque são minoria absoluta. E a maioria é composta de clubes pequenos que querem que Flamengo, Fluminense e seus congêneres se estrepem, embora subsistam à custa dos grandes. Essa equação vale para o Rio como para os demais centros avançados do país.
Essas federações já eram há muito tempo. Lembro que em 1974, portanto há mais de quarenta anos, conversando com o presidente da Federação Paulista, na época, o empresário José Ermírio de Moraes, sugeri a ele que comandasse um movimento no sentido de extinguir as federações estaduais, substituindo-as por meras comissões, uma espécie de consulados da CBD, hoje CBF, em cada unidade federativa, para efeitos burocráticos, somente. Coisa reduzida, um escritório com meia dúzia de funcionários, um responsável e um auxiliar. Ponto.
Zé Ermírio, surpreso, me respondeu:
– E, eu, o que vou fazer?
– O senhor pode ser presidente da CBD ou viajar pelo mundo em seu iate, aproveitando as delícias desse mundo. – respondi.
Zé Ermírio não era exatamente um iluminado, mas, sem sombra de dúvidas, era honesto e bem intencionado. E teria sido um presidente da CBF muito melhor do que toda a legião dos que vieram desde João Havelange até o futuro Del Nero, pois conheci bem todos eles.
Mas, qual a saída, agora? Agora, meu amigo, estamos num beco sem saída: como Diógenes, de lanterna em punho, na busca do homem íntegro, em todos os sentidos, não há no horizonte uma alternativa segura.
A criação da Liga de Clubes seria a mais lógica opção. Mas, já tivemos essa experiência no passado e foi um desastre, pois os cartolas dos clubes a transformaram num balcão de negócios com a Globo e só.
Outra, seria a Globo, em nome de elevar o nível do espetáculo futebol, já que ela é craque em espetáculos, assumir o controle dessa joça. Mas, pelo visto, ela prefere ficar apenas com o ônus das lambanças, pois tudo recai sobre suas costas, da sustentação dos clubes com a grana que lhes paga até as porradas que leva da mídia e do público em geral. Aliás, nem sei se lá há alguém com estofo e bestunto pra assumir essa empreitada.
E o pior é que, gira pra cá, gira pra lá, todo esquema cai na procura do homem providencial. E isso é a falência definitiva. Porque qualquer esquema, por mais racional e aberto que seja, depende de quem o faça funcionar. E basta uma espiada geral, uma panorâmica no cenário onde atuam nossos cartolas, e, de imediato, sobrevém uma profunda melancolia.
Prezado Alberto,
Este texto me obriga a retroceder aos comentários que fiz em seu blog de días atrás
intitulado “Estupidez sem limite”,quando fui contundente em críticas à direção ao clube
do qual sou torcedor.Muito prudente de sua parte este esclarecimento complementar.
É difícil compreender a razão ou razões que fundamentam a imposição de restrições
impostas pelas federações na utilização dos jogadores de base.
De qualquer forma sabemos muito bem que no mundo do futebol,o mais santo rouba a meia do vizinho no escuro,ou como dizem os espanhóis,”el más tonto hace reloj”.
Abraço.