
No novo programa da Sportv, comandado com esmero pelo excelente Marcelo Barreto, lá estavam, além de Luxemburgo, uma pá de respeitáveis comentaristas, dentre eles os ex-craques, meus queridos, Carlos Alberto Torres e Ricardo Rocha, além do Cleber Machado, que deu luz à discussão.
Mas, quando o debate caiu na questão dos volantes, a turma embolou o meio-campo, confundindo às vezes semântica e função, o que ocorre, aliás, com muita frequência hoje em dia.
Percebi que alguns cunhavam a palavra volante justamente no sentido contrário ao seu real significado: referiam-se ao de cabeça de área, aquele cara que fica ali na entrada da área protegendo os zagueiros. Costumo brincar que volante vola, do latim vulgar volare, voar, no nosso português de sempre. Isto é: o mais recuado dentre os homens de meio de campo que vai e vem, incessantemente, da defesa ao ataque e vice-versa.
Volante vem de médio-volante, que antes era médio-apoiador, cuja origem era apenas médio (half, em inglês, abrasileirado nos anos 40 para alfo), mais precisamente, centro-médio ou center-half, também denominado de eixo, pois que se tratava do eixo central da equipe, para quem a bola convergia e de onde partia sua distribuição para o resto da equipe, no sistema clássico original, o 2-3-5 (dois beques, três médios e cinco atacantes).
Com o advento do WM, do escocês H. Chapman, no final dos anos 20, o eixo foi substituído por dois médios apoiadores e dois meias, formando o tal quadrado mágico que o pessoal até hoje confunde com quatro jogadores de excelência, seja no meio de campo, seja no ataque.
Mais tarde, já nos anos 50, surgiu a figura do quarto-zagueiro, um desses d0is médios apoiadores recuado para a função de zagueiro, o zagueiro que, além de destruir, sabia sair para o jogo, quando seu time estivesse de posse da bola, formando a linha de quatro zagueiros, já não mais de três – dois laterais e dois centralizados, em vez de dois laterais e um central.
Assim, caracteriza-se, à frente dessa linha defensiva, o médio-volante, um sujeito que guarnece sua entrada de área, mas que, com a bola sai para o jogo, em combinações lúcidas com seus meias e até mesmo ultrapassando-os na sequência da jogada.
Geralmente, esse médio-volante, reduzido pela preguiça nacional para simplesmente volante, era um meia, jogador com habilidade no passe e na articulação de jogadas, além de fôlego e velocidade para ir e vir, com capacidade adiconal de desarmar o adversário, recuado para essa posição. Esses foram os casos dos mais afamados volantes de nossa história, de José Carlos Bauer, o Monstro do Maracanã, na Copa de 50, capitão do Brasil na de 54, Dino e Zito, em 58 e 62, pra não citar uma infinidade de outros craques nessa posição em clubes.
Dudu, por exemplo, tido e havido como autêntico cabeça-de-área, quando essa figura foi inventada nos anos 60, aquele leão-de-chácara dos zagueiros, era, também, um meia avançado no trio inesquecível da Ferroviária daquela época, formada por Dirceu, o volante, Dudu e Bazzani, o craque da equipe.
Foi, então, que o conceito do cabeça-de-área, com Denílson, do Flu, o Príncipe Etíope de Rancho Carnavalesco, de Nélson Rodrigues, passou a ser o precursor de uma moda que vige até hoje: o volante que não vola, fica, uma espécie de terceiro zagueiro centralizado à frente dos dois zagueiros de fato.
Isso, até 1975, quando mestre Rubens Minelli, à frente daquele maravilhoso Inter, resolveu inverter a geometria do meio de campo composto sempre por tum triângulo. Em vez de um volante e dois meias, dois volantes e um meia. Na formação anterior, eram Falcão, Escurinho, um meia ofensivo, e Carpegiani, o meia-armador. Passou a ser Caçapava (depois, Batista), Falcão e Carpegiani.
A partir daí, instituiu-se o dogma dos dois volantes que nos persegue até hoje. Mas, como se justifica Minelli, o tal segundo volante era ninguém menos do que o genial Falcão. Além do que, seu ataque era formado por dois pontas genuínos (Valdomiro e Lula) e um centroavante típico (Flávio Minuano e depois Dario).
Aos poucos, esses dois volantes – às vezes, reforçado por um terceiro – deixaram de ser volantes pra se transformar em dois cabeças-de-área, com características meramente defensivas, o que vem mudando paulatinamente nos últimos anos, com os tais volantes que sabem sair, ou seja: o óbvio. Pois, quem não sabe jogar, passar, driblar, não pode ser jogador de futebol. Vá ser comentarista esportivo, em último caso, se não tiver outros atributos mais úteis.
Bem, o fato é que, agora, a turma despertou para um fato novo mais velho da história do futebol: nos principais centros futebolísticos do mundo, o tal volante, exclusivamente defensivo, foi jogado pra escanteio. Em seu lugar, entra o meia, jogador mais habilidoso por natureza, com disposição para também marcar, ou apenas fechar espaços, como o resto do time, defensores, armadores e atacantes.
No Brasil, a questão se resume, agora, à discussão meramente semântica: não devemos mais chamar o volante de volante, mas simplesmente de meio-campistas. Não basta trocar os nomes, pois isso não muda as características do jogador. Volante é volante, por estilo, vocação e técnica. Meia é meia, por esses mesmos atributos.
Tudo, por conta dos famigerados 7 a 1 diante da Alemanha, na Copa do Mundo recém disputada aqui.
Bem, então peguemos esse mesmo time alemão. Se o amigo escalar seu meio-campo com Khedira, Schweinsteiger e Ozil, terá um volante (Khedira) e dois meias. Se, porém, fizer assim: Schweinsteiger, Ozil e Götz, terá três meias, com Schweinsteiger ocupando a posição de volante. Se escalar o meio de campo do Barça com Busquets, Xavi e Iniesta, terá um volante e dois meias. Se, contudo, montar esse setor com Xavi, Iniesta e Rafinha, por exemplo, terá três meias e nenhum volante de ofício. E olhe que estou citando volantes que, no nosso linguajar, sabem sair jogando, tipo Khedira e Busquets.
É essa falta de sintonia fina na percepção de estilos e potenciais dos jogadores que falta aos nossos técnicos e comentaristas, em geral, com as devidas exceções, e que nos mantém, juntamente com tantos outros fatores adjacentes, no atraso em que vivemos.
“Não há mais tantos jogadores técnicos, por isso os treinadores têm de se adaptar e apostam na correria. Por outro lado, esta prioridade inibe o aparecimento de jogadores técnicos, que ficam com medo de não serem selecionados nas peneiras. É um círculo vicioso.”
“Não gostava de segurar e carregar a bola,e a punha em jogo o mais rápido possível
no sentido do gol e errava poucos passes”
Estas frases foram ditas por Dino Sani em uma entrevista que concedeu há poucos anos.
Foi o maior centro campista que vi jogar já em final de carreira no Corinthians de 65/67 e
fêz mais de 160 gols por onde passou. Chutava bem de fora da área,passes milimétricos,
também era bom no desarme e tinha um cabeceio impecável.
Os jogadores de hoje que vestem a 5 no futebol brasileiro,parecem soldadinhos de chumbo quando comparados a este mestre.
Peço desculpas aos descendentes de outros ilustres na posição como Amílcar Barbuy,
Bauer,Roberto Belangero e possivelmente mais craques,mas não os vi jogar.