Non sense surrealista

A sensação que tenho é a de que estou no meio de um filme dirigido por Buñuel, com roteiro e diálogos de Groucho Marx e imagens de Salvador Dali.

Ligo a tv e vejo um jovem parlamentar, com evidente dificuldade de domar a semântica, transformando o ladrão confesso da hora em herói nacional, a quem o Brasil agradece penhorado por confessar seu roubo, endêmico e sistêmico, durante anos, para escapar das grades, dedurando seus parceiros de roubalheira.

Mixaria, coisa de 97 milhões de dólares. Só pra ele.

Outro dia, um juiz de Direito foi flagrado passeando com o carro milionário que ele mesmo havia mandado sequestrar de um golpista famoso, cujo pai, diga-se, foi ministro dos tempos da ditadura, aquela época sombria em que as maracutaias todas não vinham à luz e que os ingênuos e espertos de hoje julgam tratar-se de um período austero e produtivo.

Tanto, que estão querendo resgatá-lo com panelaços e greves dos caminhoneiros, um replay desbotado das cenas trágicas a que assisti meio século atrás.

De outro lado, espio um agrupamento político, construído a sangue e suor sobre os pilares da integridade moral e ideológica desmoronar como um castelo de cartas diante dos olhos atônitos da nação, ao peso da incompetência e da corrupção. E sob o bombardeio de algumas figuras sinistras, surgidas, de repente, das sombras, intitulando-se historiadores e jornalistas, com o apoio de uma classe média ignorante, como tal, propensa a repetir os mesmos erros do passado.

Divulgação
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E, no centro desse redemoinho demoníaco, a figura patética de uma presidente, que, depois de vencer nas urnas, coloca em prática o programa do adversário, que, no fim, todos sabemos, pois essa história é velha e gasta, não nos tirará tão cedo da crise econômica em que estamos mergulhados. Em parte, pelos desmandos do governo; em parte, pela pressão dos eternos golpistas de plantão.

Traída pela própria pusilanimidade e pelos traidores de sempre, a quem se uniu em nome da tal governabilidade e que salivam diante da possibilidade de ter um dos seus no comando geral da nação, a presidente não revela tênue capacidade para assumir o leme, rechaçar os piratas prestes à abordagem, e tocar esse barco com firmeza pela tormenta que toma forma no horizonte.

Tudo isso no mesmo mesmo momento em que o presidente dos EUA denuncia a Venezuela como uma ameaça à segurança interna de seu país. A Venezuela?

Pois é, a Venezuela do petróleo, como o Iraque do petróleo e o petróleo da Petrobrás. Um rio negro que corre por esse mundo afora, apontando os caminhos da guerra de conquista interminável.

É ou não é o non sense de mãos dadas com o surrealismo?

 

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