Não é de hoje que vejo nossos técnicos reclamarem da inexistência na praça de laterais de verdade, que saibam defender e atacar. Só alas, como passaram a chamar esses jogadores do lado de campo, furtando do basquete essa expressão, que, por sinal, no nosso futebol de antes tinha outro significado: ala direita ou ala esquerda era a combinação entre o ponta-direita e o meia-direita, ou seus correspondentes do flanco oposto. Por exemplo: Cláudio e Luisinho formavam a ala direita do Corinthians dos anos 50; Carbone e Mário, a ala esquerda.
Mas, enfim, isso não tem a menor importância; é apenas uma digressão do cronista soterrado por informações inúteis.
O que importa é essa história do ala atual no futebol brasileiro. Mesmo porque esses mesmos treinadores tupiniquins asseguram que lá na Europa joga-se com uma linha de quatro atrás, incluindo aí os tais laterais-laterais.
Não sei de onde eles tiram essas coisas, a não ser que seja do fundo do baú da ignorância, quando bastava ligar a tv e assistir a dois três jogos dos grandes da Europa.
Claro que na Europa, essa miríade de países, cada qual com sua escola, há times que jogam com laterais basicamente defensivos. Em geral, essa prática se dá entre os pequenos ou os menos representativos times do velho continente.
Os grandes, os bambambans do pedaço, não. O Barça, o Bayern, o Arsenal, o City, o Chelsea, o Real, todos eles, têm laterais ofensivos, os tais alas, dos dois lados e às pencas. E nem por isso, os protegem com dois ou três volantes como se tornou hábito entre nós.
Ah, mas esses caras, lá, aprendem a marcar, aqui, não – respondem os professores, justamente os que deveriam ensinar nossos alas a marcar.

Quer dizer: o menino criado aqui como ala, ascende ao time titular e joga tempo suficiente para atrair os olhares dos grandes europeus, sem saber marcar. Quando chega lá, em menos de um ano, aprende o que não aprendeu em dez anos aqui?
Sempre haverá quem, com muita razão, colocará na conta do reinado do resultado e do calendário estúpido do nosso futebol, que não permite aos nossos técnicos treinarem devidamente suas equipes, muito menos fazerem experiências necessárias pra mudar o braço da viola cansada de guerra.
Estou falando tudo isso de olho nas manchetes dos jornais espanhóis, que anunciam com estardalhaço a briga entre Barça e Real pela aquisição de Danilo, ex-Santos, hoje no Porto. Coisa de dezenas de milhões de dólares na parada.
Danilo, indo pra um ou para o outro, se juntará à elite dos alas brasileiros que jogam nos mais atraentes times do mundo, como Daniel Alves, Marcelo, Maxwell, Felipe Luís etc.
Pra que jogassem aqui como jogam lá, livres e soltos, seus times teriam de se armar com três zagueiros, dois volantões e o Espírito Santo no gol.
Há algo errado na sala de aula de nossos professores.
PS: Só para constar, vale lembrar o trabalho executado por Telê em cima do futebol de Cafu, um volante muito bom que foi transformado num dos maiores laterais da história do futebol mundial.