Um nó na alma tricolor

Tite e Muricy no primeiro Majestoso da história da Libertadores Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Tite não foi só feliz em campo, vendo seu time muito mais bem organizado vencer o São Paulo, no clássico da Libertadores, mas, também, depois do jogo, na entrevista em que enfatizou o óbvio sobre seu adversário Muricy: quando ganha, o técnico deu um nó tático no outro; quando perde, é uma besta quadrada.

Aliás, era o que dizia o saudoso Oto Glória, que levou Portugal à terceira colocação no Mundial de 66, apresentando, diga-se, o melhor futebol daquele torneio: “Se ganha, é bestial; se perde, é uma besta”.

Não houve, na noite de quarta-feira, nó tático algum, se considerarmos essa expressão como um truque tirado da cartola pelo técnico na última hora, surpreendendo o adversário de tal maneira que o deixa atado e abatido em campo.

A propósito, quero confidenciar ao amigo aqui, a quem peço que creia neste velho escrevinhador, meu profundo arrependimento pela crônica de véspera que mantive apenas na intenção irrealizada. A crônica que não foi escrita.

Seria a descrição do jogo como se ele já tivesse acontecido, com vitória do Corinthians por 1 a 0, gol de Elias, que penetraria de surpresa no espaço aberto pela movimentação de Danilo. Exatamente o que aconteceu. Na verdade, o que Muricy instruiu sua equipe para evitar, algo que todo mundo sabia e o próprio Tite anunciou na véspera, ao explicar a escalação de Danilo. Era a jogada mais anunciada da história do futebol desde que inventaram a bola. E não deu outra.

Imprevidência da defesa tricolor, apesar de tantos avisos? Mérito dos corintianos envolvidos no lance por sua execução magistral? Diria que a combinação desses dois fatores.

A partir daí, caiu a sopa no mel para o Timão, que recuou e aplicou a velha e bem treinada tática de se defender, explorando os contragolpes numa equipe cada vez mais descoordenada pela ação do nervosismo misturada à falta de arrojo. Nenhuma novidade, pois é assim que o Corinthians vem jogando desde a passagem anterior de Tite por lá, incluindo o período em que Mano esteve à testa do time, com mais ou menos êxitos, de acordo com as circunstâncias.

Não há vivalma neste país que desconheça o fato irrefutável de que o Timão é a equipe que melhor sabe se defender coletivamente. Isso é treinado com afinco e afiado na repetição constante da mesma formação, com as pequenas variações de praxe, jogo após jogo.

Aqui é trabalho, meu! – poderia dizer Tite, roubando de Muricy a frase feita.

É isso: tanto Tite quanto Muricy são dois profissionais corretos, trabalhadores e inteligentes, cada um à sua maneira. Mas, não são – como de resto não o é a imensa maioria dos nossos treinadores – eméritos estrategistas, tipos geniais que tiram das pranchetas fórmulas originais e surpreendentes capazes de deixarem os adversários embasbacados e o torcedor deslumbrado. Nada disso.

Se um dos dois fugiu ao roteiro já escrito e testado, esse não foi Tite, mas, sim, Muricy. E nem foi uma fuga rocambolesca, de gestos radicais, não. Apenas, deslocou Michel Bastos para a lateral-esquerda, onde o jogador atuou milhões de vezes, e escalou uma dupla de zagueiros com dois beques que ainda não haviam jogado juntos – Tolói e Dória -, sempre um risco nesse setor tão delicado de um time.

Talvez essas alterações tivessem obtido melhores resultados, caso seus jogadores, sem exceção, não tivessem sucumbido logo de cara ao descontrole emocional, o que levou à perda de iniciativa, resultando na falência do princípio básico que move esse time – o passe, a troca de bola.

Resumindo: foi mais um nó mental do que tático que levou o Tricolor à tão desastroso desempenho, e o Corinthians a tão imporytante e categórica vitória.

 

 

6 comentários

  1. Sou Corinthiano, mas não vi o tal de nó tatico, vi sim jogadores alvinegros mais determinados, com mais fome de vitoria, vi um tricolor, acreditando que a genialidade de um PHG, fosse resolver o jogo a hora que quisesse, um Luiz Fabiano que havia dito que se tivesse duas oportunidades ao menos uma guardaria, ou seja, excesso de confiança, falta de humildade de saber que, embora o Corinthians seja um time de operarios taticos, onde um meia não tem vergonha de jogar de ponta, ou um sheick de ralar o bumbum no chão, de um Ralph que morde como poucos, mas um grupo que sabe da importancia do quanto a torcida valoriza, garra, determinação, vontade.
    Parabens tricolor, pois independente do resultado, foi um futebol digno, de respeito a todos os torcedores, mas principalmente aos colegas de profissoes, todos voltaram para suas familias inteiros.

    1. Caro Djalma, desde o dia do jogo eu não tinha lido ou ouvido um comentário e uma análise tão sensatos quanto os seus, inclusive por nenhum comentarista esportivo profissional de nenhum setor da mídia esportiva. Você fez uma leitura perfeita do comportamento dos dois times deixando de lado as brincadeiras, muitas vezes exacerbadas do torcedor, (que são legais pois fazem parte da cultura do futebol). Você fez um comentário à altura do nível do blog do Alberto Helena Júnior. Um corinthiano ganhou meu respeito. Abraço de um Sãopaulino.

  2. Caro Alberto Helena,

    Você sabe de trás para frente a história do bonde que custou 200 mil réis comprado pelo
    saudoso Paulo Machado de Carvalho em 1943,na época diretor do SPFC.
    O bonde chamava-se Leônidas proveniente do RJ onde, aos 30 anos,era considerado
    acabado para o futebol. O tal bonde rendeu 5 títulos ao tricolor e na trajetória paulista
    ainda patenteou para o futebol brasileiro a famosa “bicicleta”, em que em alguns países é
    conhecida como chilena.
    Mais recentemente,o mesmo SPFC comprou um tal de Ganso que era considerado por
    muitos como um BMW do futebol,mas está rendendo menos que um Ford 29.
    Para os amantes do futebol,independente das côres clubísticas,é uma lástima que não existam mais bondes como o titio Leônidas.

  3. Alberto Helena, o Muricy errou contra o Barcelona cuando estava en Santos, contra Ponte Preta, Penapolense, e todos jogo importantante de São Paulo, ele não tem coragem para tirar do time o Ganso, o time so joga com 10 jogadores, contra un time agrupado como o Corinthians coloca jogadores velozes como Cafú e Thiago Mendes, ele não tem leitura táctica, esta ultrapassado, abraço.

  4. Alberto,
    pelo menos responda este comentário, já que não costuma responder em maiorias

    vc criticou a escola gaúcha de futebol e disse do Felipão…e tal.e cousa e lousa e marupousa…
    agora fala em nó tático do gauchismo tite???
    adoro sua coluna , mas me faz um favor…..

    não sou corintiano nem são Paulino mas admiro o futebol bonito
    e o tite não entende nada de futebol bonito..
    joga com os meias recuados todo mundo atrás da linha da bola e jogando por uma única chance, fazendo assim mais de um gol quando o adversário erra mais de uma vez ou quando o juiz ajuda( se você me falar que não foi falta do Emerson…)
    o futebol mais feio que existe este tal tite
    fiquem com todos os títulos que esta escola gaúcha pode dar….
    e vamos sofrendo com nossa seleção pois não arriscamos mais…
    não tentamos…
    fazemos sempre o óbvio para não perde por 1 a 0 da escola gaúcha….
    e assim estamos afundando nosso futebol
    éee
    adeus Telê, Chico formiga, vadão e todos os técnicos que acreditam no futebol imprevisível…
    e que venham mais Tites…Endersons…

    1. Caro Wesley:
      O amigo não leu direito minhas crônicas ou eu não soube me expressar devidamente.
      Nem critiquei o futebol gaúcho, os técnicos gaúchos, as belas damas gaúchas, a literatura gaúcha, os pingos dos Pampas, a gaita de fole, o fandango, nada disso.
      Mesmo porque, como diz o próprio Tite, com toda razão, na escola gaúcha de futebol destacam-se dois estilos distintos – o do Capitão Froner e o de Ênio Andrade. Um, mais viril e enfatizando a marcaçã0; outro, mais técnico, privilegiando o ataque. Minha crítica limitou-se à figura de Felipão, e a seria fosse ele chinês, alemão, grego ou filho da Guiné.
      Tampouco disse que Tite deu nó tático em Muricy. Ao contrário: disse que NÃO deu nó tático algum. Releia, por favor.

      Obrigado pela leitura e um forte abraço.

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