
Parece irrelevante, coisa de velho saudosista que tem na ponta da língua pronta a surrada frase – “nos bons tempos não era assim”. Não é bem assim. Mesmo porque os tais bons tempos só existem de fato na memória seletiva das pessoas de qualquer geração ao longo da história da humanidade, aquela que preserva os momentos agradáveis e sufoca o resto.
Ainda mais que as sociedades não caminham em linha reta em busca da perfeição, nada disso. Elas avançam em certos sentidos, retroagem e avançam novamente. É a marcha de dois pra frente, um pra trás. Sempre foi assim. O que ilude é a carcaça, o invólucro do ser humano, a redoma tecnológica e científica onde ele se abriga.
Ah, sim, e as leis, que forçam o cara a trilhar certos caminhos em direção a uma vida comunitária mais justa e menos conflitante. Na essência, porém, somos os mesmos primatas originais. Ao lado delas, existem as leis morais, princípios de comportamento que passam de pai pra filho. E é aqui que a porca torce o rabo.
Estou falando, meu amigo de um episódio ínfimo, que passou despercebido pela imensa maioria dos comunicadores do futebol, ocorrido na noite de quarta-feira, na Vila Belmiro, antes do pontapé inicial do clássico entre Santos e São Paulo.
Bola no centro do gramado, os dois times devidamente postados, e o juiz decreta um minuto de silêncio em homenagem a um conselheiro santista morto. Ao contrário do que é de hábito entre nossos juízes, que abreviam a cerimônia, este resolveu dar o exato tempo destinado à homenagem.
Pois, do início ao fim do minuto de silêncio, as torcidas dos dois times não pararam de berrar suas imbecilidades a plenos pulmões.
Não, não foi um ato provocativo, uma ofensa deliberada à memória do homenageado, que, diga-se, certamente ninguém ali sabia quem era ou tinha sido.
Assim como não há perversidade no carinha de boné de banda que permanece sentado no ônibus apinhado de fim de tarde, enquanto, de pé, ao seu lado, paga todos os pecados do mundo aquela senhora grávida, saída de um trabalho exaustiva de oito horas ou mais.
Tampouco, no garotão sarado que irrompe intempestivamente à frente do velhinho para tomar seu lugar numa fila qualquer.
Você olha nos olhos dessa turma e percebe que não há maldade nenhuma ali.
Aliás, não há nada, nenhuma expressão.
Só um vazio aterrorizante.
Alberto,
Dez, com louvor.