
Havia uma máxima que andava de boca em boca, mas entrava por um ouvido e saía pelo outro: “futebol, política e religião não se discute”.
Futebol discute-se desde quando a primeira bola começou a rola em Cambridge, há mais de século. Política, com o fim dos confrontos ideológicos e a perda de carisma dos homens públicos, virou um brado único: “Fora, corrupção!”. E religião é tabu, uma área onde os argumentos não se sustentam diante da fé, a crença definitiva e irrevogável, seja razoável ou não.
Não é à toa que há milênios os homens se matam em nome deste ou daquele deus, até mesmo quando o Deus é o mesmo, como no caso de judeus, cristãos e muçulmanos, pela ordem de entrada, fruto do fanatismo que é a fé elevada ao nível da insanidade.
Ou da má-fé de alguns. Digo isso me recordando de um episódio que por pouco não chegou a extremos, quando o futebol, que guarda certos traços de religiosidade para boa parte dos torcedores, e a religião se juntaram numa charge do meu querido Otávio, na saudosa Última Hora de São Paulo.
Foi lá pelos anos 60, quando o Santos, o maior time de todos os tempos, anunciou uma visita de seus jogadores ao Santuário da Virgem em Aparecida. Otávio, então, desenhou o rosto de Pelé nas vestes da Nossa Senhora.
Nada ofensivo, nem a Pelé, nem à Virgem. Era apenas a junção de dois ícones da devoção do povo brasileiro à época numa só caricatura.
Sucede que o jornal, naqueles tempos, tinha como alvo de uma série de denúncias o Padre Baleeiro, um oblata que exercia o cargo de Secretário da Educação do Estado de São Paulo, no governo de Adhemar de Barros. Eram denúncias cabeludas.
O padre, tipo carismático e bom de oratória, aproveitou-se do fato para iniciar uma verdadeira conclamação pública aos fiéis católicos contra o jornal, acusando a charge do Otávio de sacrílega, herética, uma ofensa inominável a toda a comunidade cristã, essas coisas todas.
Pois, o episódio tomou tal vulto que culminou com uma multidão à porta do jornal, pedindo literalmente a cabeça do Otávio, que teve de se esconder por vários meses, antes de voltar à ativa. Não o fizesse, e seria linchado, apedrejado, como reza o Velho Livre, algo assim.
Bem que meu saudoso pai sempre me advertia pra não me apegar tanto ao futebol quanto à religião, fosse qual fosse, para evitar o perigo que os ronda – o fanatismo, o pior de todos os sentimentos humanos, entre outras coisas por ser a própria negação da humanidade.
Talvez por isso mesmo tenha me tornado um ateu que respeita todas as fés, povos e culturas, desprezando, porém, o fanatismo. E busque ver o futebol mais com os olhos de um crítico de arte do que de um apaixonado pela competição em si.
Falou e disse! Nem um caracter a mais ou a menos!