Mulheres, bem-vindas!

Djalma Vassão/Gazeta Press
Djalma Vassão/Gazeta Press

Foi no último feriadão, creio. Duas senhoras, cobertas de grifes casuais, como convém aos turistas que visitam o Grão Ducado de Ibiúna nos fins de semana, conversam diante da gôndola de produtos dietéticos do supermercado. A loira número 1 pergunta à loira número 2 sobre o seu marido.

– Ah, sempre com aquele sorriso confiante, dizendo que, no fim, as coisas vão dar certo. E não é que dão mesmo? Me dá uma vontade de esganar o desgraçado!

Creio que o amigo já ouviu algo parecido por aí. E, se julga que é desamor, pode estar redondamente enganado.

Diria, se fosse um estudioso da alma humana, que é amor demais. Aquele amor que confunde a figura amada com a ideal. Ou, consigo mesma. Mas, como dizem os especialistas no assunto, os polos se atraem, e aí está o mistério da vida, enfim.

É mais ou menos a paixão do torcedor pelo seu clube amado. Na verdade, ele não o ama pelo que é, mas pelo que imagina deveria ser.

Sempre há um traço comum que une os torcedores em torno desta ou daquela camisa. Mas, que traço é esse?

As cores do clube, o legado paterno, identificação sócio-cultural, o fato da sede estar ao lado de casa, o estilo de jogo, afinal, o quê?

Houve um tempo, lá atrás, que essas coisas todas estavam mais bem definidas.

O Corinthians era alvinegro e ai de quem se arriscasse a sugerir outra cor de uniforme. Pois, esse mesmo Corinthians já jogou até de roxo, e o torcedor saiu pelas lojas e quiosques em torno dos estádios comprando adoidado o roxo do Alvinegro.

O São Paulo, que unia os dois extremos da sociedade paulistana – os ambulantes que vendiam pipoca na porta dos cinema e o acadêmico de Direito das Arcadas -, passou a ser o clube da elite, o Didu Morumbi bem retratado pelo saudoso Estevam Sangirardi, nos anos 70. E hoje é um time tão popular nas periferias da vida como o Corinthians, que detinha tal privilégio nos anos 50.

E o Palmeiras, que não aceitava negros em seu time, a não ser um Og Moreira aqui, um Djalma Santos ali? Hoje, é um amálgama de todas as etnias.

Antes, o filho nem cogitava de torcer para um time que não fosse o do pai. Seria atirado ao poço no mesmo dia, deserdado e amaldiçoado para sempre. Pois, está difícil achar filho de corintiano que não seja palmeirense ou são-paulino, e vice–versa.

O São Paulo, que primava por um futebol clássico, técnico e elegante, só houve das arquibancadas o grito de Raça! Raça! Raça!

Assim como o Corinthians que esbanjava raça, desde os tempos de Sócrates e cia. busca jogar uma bola cada vez mais redonda.

E o Palmeiras, que nadava em dinheiro e montava verdadeiros esquadrões milionários, desprezando décadas a fio suas categorias de base? Briga pra não cair pela terceira vez, com um time modestíssimo, mergulhado em dívidas.

Você, então, vai ao estádio, que passou a ser chamado pelos idiotas de plantão de arena, e não importa que torcida domina as arquibancadas: os cânticos são os mesmos, as exigências, idem – o presidente é uma besta, o técnico burro, os jogadores um bando de pernas-de-pau e o juiz, claro, ladrão.

Há, porém, um belo traço se desenhando nos estádios, que me remete às duas senhoras tricotando no supermercado lá de cima: a presença cada vez mais constante e ampliada das mulheres nas arquibancadas. Não aquelas mocinhas ou senhoras que pontilhavam as tribunas de antigamente, simples accompanhantes dos maridos ou namorados apaixonados por este ou aquele clube. Muito menos a madame de Nélson Rodrigues, que ao sentar-se em sua cadeira no estádio, pergunta ao vizinho do lado:

– Quem é a bola, querido?

Nada disso: são autênticas e apaixonadas torcedoras, que vibram, xingam, choram de tristeza ou alegria por seus times, sabem  de cor a escalação dos times, têm opiniões formadas sobre a melhor tática a ser adotada, exigem a entrada de Fulano no lugar de Beltrano e discutem acaloradamente nas tais redes sociais como os marmanjos ainda o fazem nas padarias das esquinas da vida.

Eis um fato novo e revelador. Uma nova e suave luz que, em vez de desvendar, apenas aumenta os mistérios desse fascinante jogo da bola.

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