Mudanças na burrice nacional

Essa mudança do local e dia dos jogos do Inter e do Corinthians é mais um cravo no caixão da segurança pública neste país, incapaz de conter a incivilidade de meia dúzia de imbecis que se dizem torcedores de futebol. Ao que se soma a indecisão do Palmeiras de jogar a partida mais decisiva do ano em seu próprio Parque, construído a ferro e fogo dentro dos padrões mais modernos do mundo, por medo da reação dessa meia dúzia de baderneiros.

Ah, sim, não nos esqueçamos da suprema incompetência dos cartolas da CBF que não previram, lá na confecção da tabela e diante dessa questão recorrente da segurança, a inadequação de marcar jogos do Palmeiras e do Corinthians em seus respectivos estádios no mesmo dia.

É muita burrice junto, se me permite o amigo o desabafo.

Burrice endêmica que venho combatendo há mais de quarenta anos e que só faz piorar, o que me desperta a suspeita de que seja congênita, assim como a corrupção em todos os níveis da nossa sociedade.

Bem, o fato é que ficamos assim: Figueirense x Inter e Corinthians x Criciúma jogam no sábado, enquanto o Palmeiras recebe o Furacão no Parque, no domingo.

Nos meus devaneios, fico matutando se, diante desse quadro inalterado, não caberia uma ação pública contra as autoridades constituídas, exigindo a devolução de cada centavo que pagamos de impostos destinados à segurança pública nestes anos todos. Não uma ação pública assinada por meia dúzia de entidades tipo OAB ou de um punhado de intelectuais, essas coisas. Mas, sim, assinada por dez, quinze milhões de contribuintes que se sentem lesados pela inação das autoridades.

Hoje em dia, com as tais redes sociais bombando por todos os cantos, não seria difícil juntar essa turma, não, numa petição de reparação de danos ou coisa do gênero, não sou advogado pra saber o caminho legal mais adequado.

De qualquer forma, teria muito mais repercussão do que fechar a Paulista numa passeata justa mas inócua contra a falta de segurança e a corrupção. Além de ser um gesto mais civilizado e legal.

Na pior das hipóteses, faria esse pessoal se mexer em busca, no mínimo, de um paliativo, o que já seria um avanço.

6 comentários

  1. Boa tarde!

    Helena, ‘a priori’, a segurança pública não tem escopo primordial a garantia da perfeita fluência de eventos privados, pois, como se vê, os clubes demandam muito mais do aparato policial do Estado que o cidadão comum, no intuito de garantir seus lucros astronômicos. Para ilustrar, uma ‘casa de shows’, aberta ao público, não requer a presença policial no interior do estabelecimento, ingenuidade é imaginar que há condições de fazer o mesmo que concedem aos clubes às demais pessoas jurídicas ou naturais que exercem atividade empresária na área do entreterimento.

    Isto posto, entendo que cabe aos clubes garantir a segurança de quem frequenta o espaço, e paga para tal!

    Ah sim! Os clubes pagam a “taxa de segurança”, que é quando um estabelecimento usa demasiadamente da segurança pública para garantir algo que reverta em seu proveito. Mas, convenhamos, prefiro um efetivo policial realizando ações preventivas com a finalidade de inibir os delitos conjecturais da sociedade (furto para sustentar vício em drogas, o tráfico e etc) a apaziguar anseios acalorados que resultam em violência e, ainda, totalmente inocuos e ilógicos.

    1. Data vênia, preclaro dr. Guilherme Coimbra, mas não se trata aqui da simples segurança dentro dos estádios. As autoridades da área de segurança preocupam-se mais com o vaivém das torcidas rivais nas ruas, metrôs, ônibus etc. da cidade, que é seu dever proteger. Querem a mudança de local ou dia da realização de jogos entre rivais justamente para evitar tumultos e arruaças. Isto é: seguem reféns dos vândalos de plantão, em vez de afastá-los de vez do convívio social. E aqui entra tudo: a falência do ensino, em primeiro lugar; a falta de competência e investimentos na área de segurança, leis mais severas, justiça ágil etc.
      Obrigado pela participação.

      1. De fato, há razão na sua colocação. Contudo, no frigir dos ovos, buscando a extinção da causa do problema, remonta-se às políticas públicas de educação, que, por óbvio, há muito tempo não são eficazes, principalmente porque as pessoas responsáveis por elaborá-las são incompetentes para tal, muito da culpa é nossa, vide os mais votados. Nessa esteira, se o problema é uma maratona, a segurança pública somente é útil nos últimos quilômetros, sendo frustrante a busca uma solução do todo, devido a grande quantia de obstáculos.

        Destarte, não deixo de recomendar uma bela leitura acerca da crise da democracia representativa, que, ao meu ver, é o câncer que ocasiona a maioria dos problemas desse país e, o pior, nos impede de solucioná-los.

        1. Meu caro e dileto Guilherme Coimbra. Já li alguma coisa a respeito. Desde os escritos do meu antigo professor no ginásio Arlindo Veiga dos Santos, monarquista e católico convicto, líder do chamado Partido Pátria Nova, até o infame Mein Kampf, além de alguns estudos mais sérios e equilibrados sobre os problemas da democracia representativa.
          Nasci sob a ditadura Vargas e vivi na pele o horror da ditadura militar de 64, já adulto e jornalista. Aliás, atribuo ao regime militar, cuja repressão foi em parte financiada por donos de escolas particulares, o sucateamento da escola pública, cuja excelência, antes do golpe, era reconhecida até pela Unesco, à época.
          É verdade que, nesse campo, não houve o devido avanço depois da redemocratização. Mas, o câncer já estava instalado nesse organismo desde aqueles tempos sombrios, pois é a geração criada nas trevas da ditadura que hoje permeia o processo.
          A democracia representativa é falha, sobretudo, porque dá voz ao ser humano, esse bicho engendrado pela natureza com todas as suas engenhosas maravilhas e deploráveis instintos.
          Mas, essa voz sempre será um instrumento para que ela se aperfeiçoe ou se corrija ao longo do tempo, ao contrário dos regimes de exceção, que se embotam em si mesmo e perpetuam os seus males de geração a geração. O mundo está cheio de exemplos dos atrasos provocados pelas ditaduras de todas as cores e ideologias.
          Sugiro, em contrapartida, ao amigo a leitura dos Manuscritos Filosóficos, de Karl Marx, ou a Ética, de Espinoza. Ou, então, que reflita sobre a célebre frase de Sir Winston Churchill: “A democracia é o pior dos regimes. Mas, desconheço qualquer outro melhor”.

          1. Sim, o trabalho sobre o esquecimento/descrença da política do Espinoza é excepcional, discordo em muitos pontos do Marx, porém, não deixo de reconhecer sua genialidade, posto que suas conjecturas estavam bem a frente de seu tempo. Ressalto que o problema não é a democracia representativa em si, mas sim a adequação das instituições à sociedade moderna, em que há a massificação do indivíduo, Hanna Arendt trata bem disso, Primo Levi então, é uma experiência única. No mais, agradeço pela atenção e pelo conhecimento, uma vez que, o breve relato de sua vida já foi de utilidade, a exemplo de que, por inexperiência, eu realmente desconhecia que o ensino básico antes da ditadura era de boa qualidade, fato que me leva muito a refletir sobre as influências e comportamentos da atual geração.

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