
Sossegue, amigo: Pelé é imortal. Mortal é o nosso Edson, osso duro de roer, que está num leito de hospital defendendo com denodo o único rim herdado das tantas pancadas sofridas por Pelé, ao longo de vinte anos de carreira. Além do mais, sacumé, depois dos setenta, um cisco vira vergalhão, meu.
E por que faço essa distinção entre os dois? Porque o próprio Pelé a fazia, quando estava aqui entre nós, criando maravilhas, antes de ascender ao Olimpo da memória coletiva. Pelé se referia a si na terceira pessoas, seu alter ego Edson, e vice-versa.
Quem captou com muita clareza essa divisão de personas foi o extraordinário meia-esquerda alemão Overath, campeão do mundo de 74, ao escrever suas memórias. Lá, ele conta que percebia transformação de um no outro no exato momento em que a bola começava a rolar.
Antes, quando os times entravam em campo, era o Edson, cordial, afável, mão estendida aos adversários sob um sorriso aberto e amistoso. Bastava o juiz apitar o início da partida, que baixava no Edson a entidade Pelé, uma fera incontrolável, capaz de demolir as mais sólidas barreiras e provocar dilúvios.
Overath, confessa, sentia medo físico de Pelé, que não era de dar pontapés, a não ser em casos específicos e catalogados pela história. Era mais o medo do desconhecido, do sortilégio da transfiguração que ele via acontecer diante de seus olhos pasmos.
Pelé, pois, é uma entidade viva para sempre, ocupando o nicho mais alto do panteão dos mitos eternos.
Agora, é hora de torcer para que Edson siga plenamente recuperado no nosso convívio, o máximo de tempo que os fados permitirem.