Dunga e o medo de ser feliz

Foto: YASUYOSHI CHIBA/AFP
Foto: YASUYOSHI CHIBA/AFP

A cada vez que se fala da Seleção Brasileira, lá vem o fantasma dos 7 a 1 nos assombrar. E assim deve ser mesmo até o fim de nossas vidas, passando de geração para geração. Quem viveu aquela amarga experiência tem por dever de cidadania transmitir todo esse horror para seus filhos, netos, bisnetos e assim sucessivamente.

Mas, será que estamos fazendo a leitura correta da mais humilhante experiência vivida pelo futebol pentacampeão do mundo?

Cansei de ouvir dos nossos comentaristas – muitos deles, ex-craques campeões do mundo e outros bichos – que deveríamos ter calçado as sandálias da humildade e encarado a Alemanha fechadinhos lá atrás e jogando por uma bola. Pois,  esses meus caros amigos não se deram conta ainda de que foi exatamente essa receita, espalhada por quase todos os clubes brasileiros, incluindo a Seleção, que nos levou ao desastre histórico.

Há décadas, nossos times e a Seleção jogam por uma bola. A bola que cai nos pés de Romário ou de Ronaldo ou de Rivaldo até chegarmos à de Neymar. Ganhamos e perdemos jogando desse jeito, cheio de dedos defensivos e quase nenhuma imposição ofensiva.

Os técnicos repetem à exaustão que buscam o equilíbrio. Mas, promovem, a cada rodada, mês após mês, ano após ano, o desequilíbrio, ao enfatizar mais o poder defensivo do que o ofensivo. Não se trata de jogar apenas nas costas deles esse fardo negativo, pois se pensam e agem assim é porque são premidos pelas circunstâncias forjadas por uma estrutura mal engendrada e mal gerida – a falta de segurança, o calendário pernicioso e tal e cousa e lousa e maripousa.

A falta de segurança… Eis o X do problema. A falta de segurança gera o medo, que se reflete na forma de jogar: antes não perder do que ganhar. O empate, pelo menos, garante o emprego milionário dessa turma. Isso, de um modo geral.

O Brasil não levou de 7 a 1 da Alemanha porque jogou aberto. Perdeu porque jogou mal, como, aliás, vinha jogando ao longo de toda a Copa – e até antes. Jogou mal porque não tinha padrão. e não tinha padrão porque foi mal preparado pela dupla de técnicos – Felipão e Parreira – campeões do mundo cujos times jogaram por uma bola, tanto em 94 quanto em 2002.

Títulos, aliás, que referendaram o tal futebol de resultados, ungido no Brasil como algo sagrado contra o qual só os românticos incuráveis se insurgem, garantem os pragmáticos de plantão.

Não se trata de romantismo incurável. Ao contrário. Trata-se do conceito da mais alta competitividade. Aquele em que um time se impõe sobre o outro. Um time que, em casa, ou fora dela, chega peitando, empurrando o adversário pra trás, com energia, técnica e habilidade nas tramas com a bola, assim como fez a Alemanha diante do Brasil

As sandálias da humildade têm o número exato dos românticos, idealistas, sonhadores, ou até mesmo os ardilosos que fingem recato pra tirar uma vantagem ali na frente. Mas, não cabe nos pés do conquistador destemido que vai à luta atrás da vitória. Este, em se falando de futebol, calça as chuteiras de ouro fino, leve e de brilho eterno.

Estou falando essas coisas de olho, claro, na Seleção de Dunga, que me dá os primeiros sinais de mudanças no nosso estilo de jogar, algo mais próximo de nossa autêntica identidade futebolística. Mesmo quando derrotado, nosso time, num passado distante, tentava se impor em campo. E, por isso mesmo, ganhava mais do que perdia, criando uma legenda dourada no imaginário de todos os demais povos do futebol.

É esse o caminho que o time de Dunga começa a traçar, ainda sob muitas suspeitas, do tipo ah, os adversários são fracos, quero ver na hora H etc. Tudo isso faz parte. Mas, o fato é que Dunga, desta vez, ao contrário da sua primeira passagem pela Seleção, revela disposição para virar esse jogo enfadonho, entrando em campo para se impor, seja contra a Argentina, vice-campeã do mundo, com Messi e cia. bela, seja contra a Turquia.

Se vai seguir nessa trilha, deixando no rastro os volantes depressivos e colhendo à beira do caminho os meias eufóricos, não sei. Espero que sim.

Mas, esse medo já atávico do brasileiro atual, é insidioso. Fica ali, na moita do inconsciente do cara, à espera de dar o bote na primeira oportunidade.

A cura? É continuar vencendo desse mesmo jeitinho. Até que o medo se extinga de vez e seja substituído pela convicção de que a mais saborosa e eficaz receita é a de jogar sem medo.

 

3 comentários

  1. VOCE CAI EM CONTRADICAO QUANDO FALA QUE O BRASIL DEIXOU DE JOGAR BONITO, PRA FRENTE, POIS DERREPENTE COMECA A ELOGIAR O TRABALHO DO DUNGA. NA REALIDADE O QUE O DUNCA CONTINUA FAZENDO E QUE FUNCIONE UM COLETIVO, UM EQUILIBRIO EM TODAS AS LINHAS. ELE NAO VOLTOU AO FUTEBOL VERDADEIRO [ BRASILEIRO ], DA UMA OLHADA NOS LATERAIS. JA NAO EXISTE A AVENIDADE QUE EXISTIU NA COPA…
    O BRASIL PERDEU DE 7 POR NAO RESPEITAR O VALOR DO ADVERSARIO…NAO ACEITOU QUE A ALEMANHA ESTAVA E ESTA EM UM PATAMAR 1000 ANOS LUZ ACIMA DO NOSSO FUTEBOL…SO ISSO.

  2. O que importa para a seleção do Brasil não é ir ganhando, mas sim formar uma EQUIPA entrosada e ter mecanismos testados e não ter um grupo de bons jogadores que através de uma jogada individual decidam um jogo.
    Este modelo é de equipa pequena, como tem sido as equipas do Brasil desde o mundial de 1982, onde mesmo não ganhando não esquecemos o grande futebol apresentado pela seleção. Esta seleção tinha uma EQUIPA, onde até tinha grandes craques, as outras seleções tinam um grupo de bons jogadores sem terem uma EQUIPA.

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