
Outro dia, caminhava pelos corredores da Gazeta, lembrando da primeira vez em que aqui estive. Foi lá por volta de 1987, creio, na condição de diretor de jornalismo da TV Gazeta, de tão poucos recursos à época, mas plena de esperanças sob nova direção, com o Sérgio Felipe dos Santos de Superintendente.
A ideia era implantar uma programação jornalística, voltada para a cidade de São Paulo, vinte e quatro horas por dia. Isso, muito antes do advento da CNN americana e seus filhotes News – Fox News, Globo News, Band News, Record News etc.
Começamos com o Nosso Jornal, das 9 horas da manhã às 13h30, direto. Uma bancada, com vários comentaristas de primeira linha, por onde as notícias rolavam e eram interpretadas como se fossem páginas de um jornal viradas a cada seção: feminina, esportes, política, economia, polícia, variedades e assim ia.
Ah, sim, num tempo pré-internet, a tal da interatividade com os telespectadores era feita através de duas belas e competentes jovens ao telefone.
Num certo ponto, acumulavam-se as notícias sobre a crise política na União Soviética, deflagrada pela súbita abertura promovida por Gorbachov.
Decidi, então, promover um debate absolutamente inédito na televisão brasileira: capitalismo versus comunismo.
Para tanto, convidei dois filósofos de nomeada e posições claramente conflitantes: José Guilherme Merquior e Leandro Konder. E, durante duas horas, ambos desenvolveram suas teses para um público que certamente jamais havia tomado contato com aquilo, e nem tomaria depois até hoje, tantas décadas após a queda do Muro de Berlim, ocorrida dois anos mais tarde.
Estou fazendo essa referência aqui e agora porque acabo de saber da partida de Leandro Konder, filósofo marxista, irmão do meu saudoso e querido Rodolfo Konder, que nos deixou há alguns meses, filho de Valério Konder, um intelectual de primeira e pioneiro do marxismo no Brasil.
Fica a lembrança de um tempo em que ainda havia conflitos de ideais. Ou, simplesmente em que havia ideias no ar.