
Fico aqui matutando sobre o destino dos dois maiores craques do futebol brasileiro atual: Neymar e Diego Tardelli.
Ambos filhos de ex-jogadores sem maior expressão, que despontaram muito cedo para o futebol. Neymar, no Santos, com 17 anos; Tardelli, no São Paulo, com 18. E as voltas que o mundo deu pra cada um…
Tardelli tinha tudo pra cumprir uma trajetória semelhante à de Neymar. Quando o vi pela primeira vez em campo, ainda menino, fiquei extasiado com o potencial técnico do rapaz. Jogava com a facilidade dos craques que nem tomam conhecimento da bola. Cabeça erguida, pés alados, deslizava pelo campo como se tivesse rolimãs nos tornozelos e calçasse patins. Visão de jogo, drible limpo, passe exato e chute forte. O que mais se pode esperar?
Cabeça, meu. Filho de pais separados, nem por isso, necessariamente, a cabecinha do nosso Tardelli girava no sentido contrário ao do relógio. Aprontava o diabo; chegou certa vez a descer de helicóptero num treino do Tricolor, quando ainda estava no início de carreira.
E assim perdeu um tempo precioso rodando mundo, até que entrasse no eixo definitivamente depois daquela velha fórmula de encaixe: casamento e filho pra cuidar. E, há dois anos, vem esmerilhando no Galo, a ponto de merecer convocação para a Seleção, onde se houve muito bem, e de levar o título de melhor jogador do Brasileirão deste ano.
Já Neymar, criado numa família estruturada, sob a orientação de um pai esperto, capaz de dar chapéu até em doutor formado em economia, dava a sensação para quem não o conhecia que se perderia na primeira esquina da vida. Cheio de manhas no campo, ostentava cabelos e piercings, essas aparências que muitas vezes enganam. E não poderiam enganar mais do que em Neymar, que tomou nas mãos o relógio biológico e do tempo, fazendo-o girar rapidamente a seu favor.
E teria disparado antes se Dunga o tivesse convocado para a Copa, em 2010. Ele e Ganso, estou hoje convencido como estava na época, teriam nos dado aquele título.
Em quatro anos, Neymar já bateu vários recordes e ameaça outros obtidos em muito mais tempo de carreira de craques consagrados pela história. É um prodígio que não para de crescer. Até onde vai chegar? Quem sabe?
E o que ambos têm em comum? O prazer de jogar futebol, de estar sempre inventando, inovando, reciclando seu modo de tratar a bola e ao jogo coletivo. Eternos meninos num mundo de velhas ideias.