
Foi uma noite de quarta-feira em que duendes e fadas saíram por aí fazendo travessuras e milagres nos três campos em que a bola rolou no futebol brasileiro.
Em Guaiaquil, por uma vaga para as semifinais da Copa Sul-Americana, o São Paulo foi do inferno ao céu, para acabar se salvando não sem antes passar pelo purgatório de um segundo tempo sufocante diante do Emelec, quando teve de expiar todos os seus pecados.
Sim, porque, no primeiro, embora tenha saído perdendo logo aos 20 segundos de jogo, numa bobeira generalizada, conseguiu o sortilégio de virar pra 2 a 1, numa batida firme de Kardec, colhendo bola tocada de cabeça por Paulo Miranda, e outro, de Ganso pra Ganso.
Explico melhor esse gol que acabou sendo não só o da virada, antes da revirada, mas, sobretudo, o da classificação tricolor; córner contra o São Paulo; na rebatida, Ganso domina no bico esquerdo de sua área e passa para Álvaro Pereira, que lança Michel Bastos; dele para Souza, na ponta-direita, que cruza para Kaká, esperto, servir Ganso na boca do gol.
Troca de bola consciente e de alta técnica, típica desse time, que não mais soube, porém, repeti-la no segundo tempo, quando o Emelec marcou dois de pênalti e soltou os demônios sobre a defesa tricolor, São Rogério e a Santa Trave evitaram o malfeito final.
E, que dizer do que aconteceu no Mineirão? Novamente, o Galo, em seu terreiro, apoiou-se na fé inquebrantável que o havia levado à conquista da Libertadores, e virou uma derrota por 2 a 0 no jogo de ida, em delirante vitória por 4 a 1 sobre o Flamengo.
Claro que, time por time, no plano meramente técnico, o Atlético é melhor do que o Mengo. Basta ver a situação de cada um na tabela do Brasileirão. Mas, esta não foi exatamente a vitória da técnica. Foi, sim, o massacre da fé, da crença em si mesmo e da sua torcida, que criou um clima irrespirável para o adversário.
Bem que, na Vila, a torcida também empurrou o Santos ao limite da grande euforia. Pois, o Santos chegou a abrir 3 a 1 sobre o Cruzeiro, graças à velocidade e ao talento de seus atacantes, Robinho, Rildo, Gabigol e cia.
Mas, a Raposa, que havia empatado por 1 a 1, com Moreno, ainda no primeiro tempo, é ladina. Não se alterou, botou a bola no chão e chegou ao empate, graças à entrega pessoal de William, que ainda outro dia sofrera fratura de costela e era dúvida para o jogo. Pois, a dúvida transformou-se no gesto heroico dos dois gols que levaram a Raposa à final mineira da Copa do Brasil, diante do Galo.
Nada menos do que isso: Cruzeiro e Atlético decidindo o título da Copa do Brasil.
Haja duendes, fadas, demônios e anjos no dia desse Juízo Final.