A cartilha do não

Mowa Press
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E esse negócio da cartilha de comportamento dos jogadores na Seleção, revelada pela Folha?

A bem da verdade, há muito tempo existe esse tipo de regulamento interno, que alguns seguem à risca; outros, não. Creio que desde a Copa de 58, quando, sob o comando do Marechal da Vitória, apelido dado a Paulo Machado de Carvalho, dono da Record e chefe da delegação brasileira à Suécia, pela primeira vez nossa Seleção foi organizada devidamente, dentro e fora do campo. Não só na Seleção, como nos clubes também.

Alguns itens, aqui ou ali, sofrem alterações, de acordo com as novidades da época.

Por exemplo no tempo do Afonsinho (no singular, pra não confundir com os primeiros reis de Portugal), elegante e altamente técnico volante do Botafogo entre outros, pegavam no pé do rapaz por causa da barba e do cabelo longos, numa época em que a Gillette esculpia a face do mundo. A bronca com Afonsinho, na verdade, era menos de ordem estética do que cultural.

Afinal, o moço, estudante de Medicina num país de analfabetos, tinha ideias libertárias em plena ditadura militar, e sua imagem remetia a Fidel Castro e todos os barbudos revolucionários  da história recente. Zagallo, o Formiguinha, foi um dos seus maiores inquisidores, diga-se.

E Afonsinho acabou no Iarajá, digo, no Olaria.

Na cartilha atual, os inimigos são os brincos,os piercings, os cortes de cabelo exóticos, os chinelos, os bonés, os celulares e toda essa parafernália  eletrônica da moda. Ah, sim, é proibido discutir religião ou política.

As reviravoltas do ultimo capítulo da novela, ou  da Globo, ou as curvas da gostosona do reality show, pode? Pode. Ainda bem, ufa!

Então, temos aqui duas questões alvejadas: a estética, que se confunde com a moral, e a comunicação.

A estética é simplesmente uma imbecilidade sem tamanho. Essa gente está sempre anos-luz atrasada em relação ao seu tempo. Brincos, piercings e tatuagens já estão incrustados nos hábitos dos jovens – e de muitos coroas – de tal forma que nem mais atuam como elementos de distinção entre as pessoas. Não servem mais como emblema de revolta pessoal ou tribal pra ninguém. Tampouco simbolizam reforço da individualidade nefasta ao conceito de grupo, de time, que tanto buscam os responsáveis pela Seleção.

Quanto aos celulares e similares, vale uma reflexão. Se usados para se comunicar com as coisas que estão no do mundo, minha nega, tudo bem. Mas, se é para se desconectar dos que estão à sua volta, tudo mal.

Um dos males que nos assolam é justamente essa falta de diálogo vivo, cara a cara, entre as pessoas, sobretudo quando se trata de um pessoal cujo ofício é praticar um jogo coletivo.

É um vício brasileiro dizer-se que religião, política e futebol não se discute. Vai se discutir o quê, então? A banda de rock da moda? As formas da garçonete? O serviço do bar do Seu Mané? A melhor marca do carro do ano? As cores do arco-íris? O cara desliga o celular e conversa sobre o quê, além do futebol?

Aliás, gostaria muito de saber quem elabora essas cartilhas. Será um antropólogo laureado, um psicólogo de renome, alguém treinado devidamente para tratar de relacionamentos em grupo, enfim? Ou é o Gilmar Rinaldo e o Dunga, com um desses aspones da CBF servindo de auxiliar, que elaboram as tais listas de proibições de acordo com seus instintos e limitadas visões do mundo?

E, o mais importante: o que visa essa cartilha: ao cumprimento de uma moralidade discutível, à preservação de uma imagem pública, ainda que falsa ou à funcionalidade?

Se for a funcionalidade do grupo, que, neste caso, é o que realmente interessa, trata-se de um tiro no pé.

Pois, o mais funcional; isto é, aquilo que funciona num grupo preparado para os grandes desafios, nada é mais indicado do que o bem-estar de cada indivíduo. O cara tem que se sentir o mais confortável possível para que possa dedicar-se integralmente ao trabalho em conjunto.

As maiores provas recentes disso são as empresas de tecnologia modernas de informática, cujos donos e funcionários se livraram dos paletós e gravatas, vestiram bermudas e calçaram sandálias, botaram brincos, cortaram o cabelo a moicano, derrubaram as baias que os separavam nas empresas convencionais, e acumularam fortunas nunca dantes vistas, mudando a cara do mundo.

Por fim, nessas tais cartilhas não há uma linha sequer sugerindo quais os hábitos saudáveis que o atleta deve cultivar para manter seu corpo em forma e quais os livros, revistas, sites etc. sobre os quais a turma deveria se debruçar pra alimentar devidamente seu espírito. Nada, meu. Porque essa é a visão do brasileiro médio: evitar o pior, proibindo o que lhe parece ser perigoso para o convívio social, e não sugerir o que lhe possa ser melhor.

Se segura, Segurança! – advertia o sábio sambista.

 

 

 

 

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