
O atento leitor Thales Nogueira matou a charada. Na entrevista depois do jogo com o Japão, Dunga contou que as variações táticas do Brasil utilizadas ao longo da partida foram fruto de longas conversas que manteve com o ex-técnico italiano Arrigo Sacchi e de muitas observações e estudos feitos durante e depois da Copa do Mundo.
E que, de todas as formações táticas adotadas na goleada sobre o Japão, a que mais lhe agradou foi aquela aplicada nos últimos quinze minutos, depois da entrada de Kaká, que deixou o time com apenas um volante e cinco meias e atacantes. Justamente, a solução que venho apregoando há anos, não apenas para a Seleção como para o futebol brasileiro, em geral, a fim de que o espetáculo seja mais compatível com as exigências do torcedor e com nossa gloriosa tradição.
Arrigo Sacchi, pra quem não sabe, foi o técnico daquele Milan de Van Basten, Gullit, Donadoni, Reyjkaard, que ganhou tudo e encantou o mundo, na virada dos anos 80 para os 90, com seu futebol ofensivo, altamente técnico, vistoso, em contraponto ao chato e histórico catenaccio, o ferrolho italiano de sempre.
Estudioso do futebol, Sacchi, a exemplo do que ocorre hoje em dia com Guardiola, sempre foi profundo admirador do futebol holandês de Cruyjff e cia., assim como do brasileiro, aquele que praticávamos antes da invasão da horda dos pragmáticos de plantão. E foi neles que se baseou para mudar a face do jogo peninsular.
Ambos – nós e os holandeses de então – tínhamos algo em comum, além do gosto pela beleza do jogo da bola: a versatilidade.
Lembro que, antes da Copa de 74, pouco sabíamos sobre o futebol holandês, pois não havia essa profusão de transmissões de jogos da Europa na nossa televisão. Sabíamos apenas que era um futebol diferente do habitual por leitura dos jornais.
Na época, era chefe de reportagem e pauteiro do falecido Jornal da Tarde, quando o então repórter José Márcio Mendonça trouxe-me uma novidade: um preparador-físico holandês estava fazendo estágio no Guarani de Campinas. Pedi-lhe então que perguntasse a ele qual era a verdadeira cara do futebol holandês.
Resposta, em tom, de surpresa:
– Ué, vocês têm aqui um jogador que é a cara do futebol holandês: Ademir da Guia.
E como jogava o nosso Divino? Aparentemente lento, de longas passadas, carregava na costas o número 10 e a carga de meia-armador da equipe do Palmeiras, num estilo altamente refinado e metronômico, defendendo, armando e atacando, o tempo todo. Um passo pra cá, um passo pra lá, e Ademir estava sempre no caminho da bola, a bichinha vindo ou indo.
O que eu quero dizer com isso? Simplesmente, que você pode perfeitamente armar um time sem a obsessão da marcação, que o impele inexoravelmente a apelar para os brucutus de plantão, os tais carregadores de piano em excesso. Um, basta, costumava dizer João Saldanha – e olhe que esse um era ninguém menos do que Clodoaldo, um volante completo.
Quando começou a tal invasão de brucutus nos nossos gramados, já dizia nos meus espaços que seria muito mais fácil ensinar e estimular um Djalminha a marcar do que um Galeano a criar, referindo-me ao Palmeiras daquela época.
E está aí, pra quem quiser ver: um Kaká solitário, agora, solidário, ou um Oscar, meia nato, pleno de recursos técnicos, que é o maior ladrão de bola da Seleção, segundo qualquer estatística. E assim vai.
E quando o amigo ouvir do professor da hora, afivelando aquele ar de profundo e exclusivo saber prático, o clichê de sempre – “E quem vai marcar?” -, a resposta estará na ponta da língua: “Todos, professor, todos; e se o senhor não souber fazê-los cumprir essa tarefa básica, vá procurar outra cátedra, meu caro”.
Claro que isso não é a pílula mágica, que você toma e resolve todos os problemas. Jogando dessa forma, não há nenhuma garantia de que a vitória está no papo, mas a probabilidade de vencer é sempre maior do que da maneira vigente no nosso futebol. Com um adendo: ganhando, empatando ou perdendo, pelo menos, o espetáculo estará garantido aos olhos da multidão.
Resumindo: não há nada de errado em Dunga beber de sábias fontes. Ao contrário: é altamente edificante fazê-lo e revelar isso ao público, pois do que mais carecem nossos professores hoje em dia é de estudos.Estudem, professores, estudem, antes de ensinarem tantas asneiras.
PS: Esse post é dedicado ao Dia do Professor, celebrado hoje em todo o país. Os verdadeiros professores, claro.