Tirando o cartola do coelho

Houve um tempo em que o brasileiro, mais próximo, talvez, de suas origens africanas, diante da imponderabilidade do futebol, apelava para o Pai-de-Santo de plantão no terreiro mais próximo do clube.

Um dos mais afamados era Jaú, ex-zagueiro do Corinthians, do Vasco e da Seleção Brasileira na Copa de 38, reserva do Divino Da Guia. Pai Jaú, depois de pendurar as chuteiras, manteve durante anos uma lojinha de artigos religiosos ali próximo à praça do Fórum.

Era um tal de búzios rolando, galinha na encruzilhada à meia-noite, marafa, velas acesas para os tantos orixás que povoam os céus do imaginário afro-brasileiro.

Certa vez, um desses pais-de-santo convenceu o então presidente do Palmeiras (um dos melhores da história verde, diga-se) de que o Verdão deveria se vestir de azul na decisão do campeonato paulista de 54, o ano do centenário da cidade. E, não só: que ele, Pascoal Byron Juliano, deveria ir ao Pacaembu de terno branco e pé engessado.

Dito e feito, Corinthians campeão.

Pra contrabalançar, que ninguém é besta, no país mais católico do mundo (ainda é?), que se instale ali no vestiário um altarzinho para a Virgem, que é nossa protetora oficial. De quebra, chame o padre da paróquia mais próxima que ele é torcedor fanático do clube e vai abençoar todo mundo e nossas instalações.

Monsenhor Bastos foi, por décadas, o principal zelador das almas tricolores, o time que nasceu com nome de santo, diga-se.

Às vésperas da Copa de 58, na primeira formação de uma autêntica comissão técnica na Seleção, obra do Dr. Paulo de Carvalho, surgiu a figura do psicólogo, que logo ganhou popularidade. Na verdade, Carvalhaes era psicotécnico, aquele sujeito que faz testes em empresas na hora de admitir novos funcionários.

Carvalhaes atuava na CMTC, antiga companhia de ônibus urbanos de São Paulo, e avaliava se o candidato a motorista tinha ou não o equilíbrio emocional e os devidos reflexos para tocar em frente aqueles cacarejantes coletivos na já louca São Paulo em permanente transformação.

Ficou na história, provavelmente numa das tantas criações divertidas do jornalista Sandro Moreyra, por ter reprovado ninguém menos do que Garrincha, considerado na avaliação irresponsável e um tanto lelé. Por quê?

Porque, ao pedir que Garrincha desenhasse uma figura no papel, o Mané traçou algo como quatro linhas sugerindo um corpo humano e seus membros, com uma imensa bola no lugar da cabeça. Questionado sobre o que era aquilo, Mané foi direto:

– Ué, o Quarentinha, doutor. Não reconhece?

Quarentinha jogava no Botafogo do Rio, e Carvalhaes era paulista, não conhecia, não.

Mas, os psicólogos de fato só entraram em ação nos clubes lá pela década de 70, com o Paulo Gaudêncio, o Pupinha do velho Brás, e Flávio Gikovate, no Corinthians, cuja presença intermitente continua até hoje. Quando o time vai mal, chama o psicólogo, como se essa terapia fosse mágica e não exigisse longos períodos de papos e avaliações.

Deu-se, então, que entrou na moda o tal de motivador, na onda gigante da auto-ajuda. E dá-lhe palestra motivacional a sonolentos jogadores de futebol, cujas mentes vagavam da bola do dia seguinte à noite perdida naquele lero-lero.

Ah, sim, não nos esqueçamos da voga dos Atletas de Cristo. Com o avanço dos evangélicos de todos os matizes no Brasil afora, Jesus passou a estar no centro de todas as parábolas de nossos craques.

Eis, porém, que a nossa querida Lusa resolveu inovar no apelo ao imponderável, e contratou um hipnólogo. Isso mesmo, um cidadão com poderes de hipnotizar o próximo, como aqueles que víamos na tv em branco e preto tirando do ar espectadores da plateia do auditório.

Ou, como os que se apresentavam nos espetáculos circenses do fim do século XIX, pelo célebre P. Barnum, aquele que cunhou a frase lapidar: “A cada minuto, nasce um otário no mundo”.

Bem, confesso que não sei como o hipnólogo rubro-verde poderá tirar a Lusa da lanterna da Série B. Tampouco, se já começou a fazer seus prodígios.

Só sei que a Portguesa acaba de perder para o Vasco por 1 a 0 e cada vez mais se afunda nas sombras do poço profundo.

Quem sabe, um dia, alguém consiga a proeza de inverter o lugar-comum das cenas dos prestidigitadores, tirando o cartola do coelho indefeso?

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