Essa coisa está de tal forma impregnada na cabeça dos técnicos, jogadores, comentaristas, e, por consequência, torcedores, que não há detergente capaz de dissolvê-la.
Refiro-me ao medo patológico da turma de associar no mesmo time jogadores com perfil ofensivo e de habilidade.
Quando surge uma possibilidade remota disso, nossos jovens comentaristas juntam-se aos sábios professores no coro conjunto:
– E quem vai marcar aí?
Todos. E, nenhum, especificamente, a não ser, claro, os defensores de ofício.
Estou, obviamente, falando do quarteto tricolor formado por jogadores tipicamente de armação e ataque – Kaká, Ganso, Pato e Kardec.
Quando o São Paulo reuniu esses quatro em seu elenco, os especialistas no assunto, solenemente, do alto daquele pragmatismo de quem conhece o assunto profundamente e na prática, o pessoal repetiu o mesmo coro:
– Ah, é? E quem vai marcar?
O São Paulo, portanto, se ousasse juntar essa trupe no mesmo time viraria uma peneira, um saco de pancadas. E, mesmo quando começou a dar certo, Guerrero, atacante corintiano, deixou escapar a suspeita geral:
-Quero ver quando esse São Paulo enfrentar um grande.
Não era provocação, não. Era apenas fruto desse conceito vigente do pega-pega, marca-marca.
Lembrei-me então de um papo com Cleber Machado sobre esse mesmo tema, anos atrás, quando ele me dizia ter guardado na memória algo que eu havia escrito tempos antes. A frase em questão era assim, ó: “É mais fácil ensinar o Djalminha a marcar do que o Galeano a armar”.
Claro: marcar é mais fácil do que armar. O duro, segundo os pragmáticos de plantão, é convencer o craque a marcar, quando necessário. Duro pra quem não tem poder de convencimento, liderança e competência para montar um esquema capaz de induzir o craque a cumprir essa missão.
Nesses casos, sempre recorro ao exemplo maior, o paradigma de todos: a Seleção Brasileira Tricampeã do Mundo em 70, eleita a melhor de todos os tempos pela Fifa não só porque venceu todas como ainda por cima ofereceu um espetáculo suntuoso de futebol.
Basta ver a escalação daquele time do Zagallo que o amigo encontrará, do meio de campo pra frente, apenas Clodoaldo como um volante desses de arrancar a bola do adversário e sair jogando com classe. Os demais eram meias – armadores ou ofensivos – Gérson, Pelé, Rivellino, Jairzinho e Tostão.
Quatro craques consumados e um gênio que jamais deram um carrinho na vida, nunca correram atrás de ninguém, nunca marcaram, no sentido em que esse verbo tem sido utilizado com tal frequência que virou dogma.
Com a bola, investiam em tramas elaboradas ou em alta velocidade sobre o inimigo. Sem ela, ocupavam espaços para impedir que o adversário jogasse, provocando o erro de passe, que era quando retomávamos a pelota.
O mesmo modelo utilizado por Guardiola, quarenta anos depois, naquele Barça tão encantador como vencedor.
Em certa medida, é o que está fazendo o São Paulo do Muricy, que teve a coragem de escalar esse quarteto e a competência para convencê-los a dar aquele algo mais em campo.
Não sei por quanto tempo isso vai funcionar assim. O campeonato é duro e os desfalques inevitáveis. Mas que funciona, funciona. É só ter coragem e competência pra se livrar desses clichês velhos e desbotados.