Muricy, Ganso, Kaká, Riva e Gérson

Rubens Chiri/SPFC
Rubens Chiri/SPFC

Outro dia, um amável leitor mandou mensagem dizendo que, depois de me considerar por muito um tempo um chato saudosista, começava a gostar do que andava dizendo por aqui. Falava a propósito do que escrevi sobre Ganso. E pedia que contasse histórias sobre craques que ele, jovem, não teve a chance de ver em campo.

Pois aquela matada de bola de Muricy, com a respectiva embaixadinha, à beira do campo de Brasília, flagrada pelas câmeras da TV, me serve de gancho.

Mesmo porque acabo de ver na FoxSports, quando perguntado se Muricy jogava mais do que Kaká ou Ganso, Rivellino, meu querido Orelha, um dos maiores craques da história do futebol, foi direto e conciso:

– Jogava mais do que Kaká e Ganso, sim, senhor.

Jogava mesmo, posso assegurar por ter acompanhado Muricy desde os dentes-de-leite, onde ele foi simplesmente fenomenal. Mas, não me parece muito adequado comparar sua bola com a de Ganso, por exemplo. Eram estilos e funções diferentes.

Mais apropriado seria cotejá-lo com o próprio Rivellino, ou, mais precisamente, Gérson, o Canhotinha de Ouro.

Não só por serem três canhotos incorrigíveis, mas por cumprirem o mesmo papel em campo – o tal meia-armador.

E aqui vale uma observação: ao contrário de Gérson e de Ganso, Rivellino era, por talhe e vocação, mais um meia-atacante do que um meia-armador. Um virtuose, de drible curto e rápido, à maneira de Jair Rosa Pinto, e uma bomba atômica no pé canhoto, além dos passes medidos, sobretudo os longos. Riva carecia daquela regularidade essencial no armador, por quem a bola está sempre passando, indo ou vindo, como, por exemplo, eram Ademir da Guia, Didi ou Zizinho.

Já Gérson não tinha a virtuosidade de Rivellino, o primeiro violino da orquestra. Era o maestro, o regente, aquele sujeito que via o jogo em sintonia fina, organizava seu time tanto nos passes e lançamentos quanto no grito.

É de quem o futebol de Ganso mais se aproxima, sem, contudo, a força de liderança do Canhotinha de Ouro, mestre, entre coisas, nos lançamentos de vinte, trinta metros, recurso para que, entupido da fumaça dos tantos cigarros que tragava, antes, no intervalo e depois do jogo, não tivesse de correr como os outros.

A propósito desses lançamentos, Terto, atacante pernambucano do São Paulo nos anos 70, certa vez, brincava comigo sobre a diferença dos lançamentos de Rivellino e de Gérson:

– O Rivellino mete uma rosca na bola, que ela vem, bate no teu peito certinho, arranca todos os pelos e sai pra lateral. O Gérson lança, e quando ela bate no seu peito cai mansinho no frente do gol.

Voltando ao Muricy, por sua disposição tática em campo e características próprias a comparação mais próxima seria com Kaká, um meia habilidoso, destro, com muita movimentação, e sempre com os olhos voltados para a meta adversária.

Mura era muito mais hábil do que Kaká no trato com a bola, e, não fosse um joelho estourado às vésperas da Copa de 78, numa época em que isso era fatal, ouso dizer que Zico seria seu reserva na Argentina.

O joelho e as birras não deixaram Muricy, ainda jovem, recuperar a bola de antes, embora fosse para o México e lá fizesse muito sucesso, como craque e como treinador.

E, por aqui vou parando, pois as histórias dessa gente começa a se desenrolar na memória sem fim.

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