
Bem, o que restou, afinal, desse reencontro de Dunga com a Seleção, além das duas vitórias magras sobre adversários de categoria razoável, digamos, no cenário mundial – Colômbia e Equador?
Em primeiro lugar, a expectativa de que, com os devidos treinamentos e os ajustes necessários, o caminho para jogarmos sem um centroavante típico está aberto. Aliás, esse sinal já havia sido dado por Mano Menezes, pouco antes de ser demitido.
Em segundo lugar, que Dunga precisa rever seu esquema de jogo. Se quiser embarcar na canoa da modernidade, terá de jogar num 4-3-3, que é o modelo resgatado pelos principais clubes e seleções da Europa hoje em dia.
Isso, o forçará a escalar os armadores, os meias de habilidade e descortino de jogo, por dentro, deixando as pontas para os pontas, atacantes velozes que também contribuem na marcação aos laterais adversários. Em geral, estes jogadores têm mais pique do que os armadores para cumprir tais funções.
E, sim, inverter o triângulo de meio de campo, com um volante e dois meias.
Aliás, seria reinverter, pois essa inversão de dois volantes e um meia foi criação de Rubens Minelli, no maravilhoso Inter, campeão brasileiro de 1975. Só que, no caso, havia um fator determinante para tal mudança: a presença de Falcão, na qualidade de segundo volante, um jogador com visão de jogo extraordinária que podia exercer na sua plenitude o ofício de armar sua equipe, ao lado de Carpegiani, com Caçapava na cabeça de área.
A coisa pegou de tal jeito, a partir dos anos 80, que muitos técnicos a levaram ao extremo de escalar três e até quatro volantes, matando os meias criadores no futebol brasileiro, luto de que começamos a nos desvestir muito recentemente e ainda pudicamente.
Pegue-se o caso da atual Seleção de Dunga. Nos dois jogos, ele teve de substituir os dois volantes e os dois meias. E o resultado foi o mesmo – a falta de criatividade. E olhe que foram utilizados quatro volantes e quatro meias de boa qualidade técnica.
O problema é que os meias jogaram abertos pelas pontas e os volantes acabaram tendo a função de armadores. Tá errado. Cada macaco no seu galho, já nos ensinavam nossos avós primatas.
Junta a turma de intermediária a intermediária e toca a bola, meu, que esse é o jogo moderno. Moderno e eterno.
A propósito, gosto de contar essa historinha de boa moral.
Lá pelos anos 80, num fim de tarde, cruzei na avenida Paulista com o saudoso João Avelino, o 71, técnico folclórico e vivido.
Com aquele sorrisinho maroto, ele insistiu para que eu fosse ao Pacaembu, à noite, ver sua Portuguesa Santista enfrentar o poderoso Corinthians.
– Vá lá ver minha nova tática.
Qual?
– A tática das galinhas no terreiro.
E explicou-me essa revolucionária tática, tão mineira quanto o próprio 71: enche o time de meias, junta todo mundo no meio de campo e fica ali ciscando, bola pra cá, bola pra lá, até que um escapa e dá a bicada fatal.
Fui ao Pacaembu e vi: Portuguesa Santista, duas bicadas, Corinthians, nenhuma.