
Estava aqui posto em sossego na varanda de casa quando desvio os olhos dos galhos das primaveras desfolhadas que dão à tarde cinzenta um ar tétrico de filme de terror para retomar a releitura amena das crônicas escolhidas de Rubem Braga, o nosso Sabiá. E topo com o seguinte trecho de suas lembranças de infância em Cachoeiro do Itapemirim; mais especificamente, ele e os meninos jogando bola em frente à casa dos Teixeiras:
“Não consigo me lembrar se a marcação naquele tempo era em Diagonal ou por Zona; em todo caso, a técnica do futebol era diferente, o jogo era ao mesmo tempo mais cavado e mais livre…”
Bem, se a crônica é de 1953, a lembrança do Braga remete-nos aos anos 20, quando não havia nem Diagonal, nem marcação por Zona. Nessa época, nos campos de futebol dos marmanjos, jogava-se no clássico 2-3-5: dois zagueiros (o stopper, que saía para dar o combate, e o back, que ficava na sobra, o beque de espera, como passamos a chamá-lo; três médios e cinco atacantes – dois pontas, dois meias e o centerforward, o nosso tradicional centroavante). E a marcação era homem a homem.
Assim como continuou sendo no WM (três zagueiros, dois médios apoiadores, dois meias e três atacantes – dois pontas e o centroavante), que deu origem à Diagonal, uma variação do sistema criado pelo escocês H. Chapman patenteada pelo nosso Flávio Costa.
Quem, aliás, trouxe o WM para o Brasil, com atraso de quase dez anos desde sua implantação na Europa (alguma novidade nisso?), foi o austro-húngaro Dori Kruschner, que dirigiu por pouco tempo o Flamengo, nos anos 30, tendo Flávio Costa como auxiliar.
Ao assumir o Fla, na saída de Kruschner, Flávio fez uma leve maquiagem no sistema. ao recuar o ainda chamado de centro médio e avançar o meia-esquerda, traçando o quadrado de meio de campo com duas linhas diagonais.A marcação, porém, ainda era individual. (Mais tarde, esse médio recuado passou a formar na linha de zaga, até então composta por três defensores; por isso recebeu a denominação de quarto-zagueiro.)
Deixou de ser quando Zezé Moreira implantou a tal Marcação por Zona no Botafogo de 1948, sistema que aplicou também na Seleção Brasileira campeã do Pan de 52 e na que disputou a Copa de 54. A estratégia resumia-se no estabelecimento de zonas destinadas à defesa de cada jogador. Não mais sairia na cola do adversário predeterminado, mas, sim, guardaria sua zona de ação, não importando qual inimigo cairia por ali.
Com o tempo, o mundo inteiro passou a adotar esse sistema. A mais relutante foi a Itália do catenaccio, cadeado, ferrolho,que acabou sucumbindo à marcação por zona após a final da Copa de 70, quando Facchetti acompanhou Jairzinho para o meio, dando aquele corredor na direita por onde Carlos Alberto Torres entrou para fuzilar o quarto gol do Brasil. Mesmo assim, até hoje, os italianos preferem um sistema misto – alguns marcam por zona; outros, homem a homem.

Mas, por que cargas d´água estou tirando do baú essas histórias antigas? Porque essa é a magia da leitura, que faz a imaginação soltar-se, viajar em busca do passado, cotejá-lo com o presente e sempre de olho no futuro.
Quem não conhece o passado não é capaz de entender o presente muito menos preparar-se para o futuro, porque os três se entrelaçam como se fossem um só.
E porque o presente, neste momento, clama para que nosso futebol saia do passado em que se encontra há, pelo menos, duas décadas, dentro e fora do campo, preso como se fosse num círculo de giz encantado. E comece desde já a construir as bases de um futuro melhor. Algo que lembre o pioneirismo e ousadia de técnicos como Flávio Costa e Zezé Moreira, que romperam com o lugar-comum e deixaram sua marca na história.
Parabéns, Helena.
Sua crônica é uma aula tática sobre o futebol.
Em tempos cuja invasão de ex-jogadores e que tais é um tapa na cara de todos nós, jornalistas, é uma honra tê-lo como colega de profissão.
Abs.
Caixinha, obrigado! Vindo de vc Márcio…
AULA?
PÕE AULA NISSO. É UMA SUPER CONFERÊNCIA. O ALBERTO HELENA É FERA NO ASSUNTO. QUE CRÔNICA FENOMENAL
PATRÍCIO AUGUSTO
jornalista e historiador esportivo em Barretos
Caro Alberto Helena Jr, estou com saudades de seus comentários nos programas da SportTV. Olhando a meninada de comentaristas fica faltando a pitada de conhecimento e cultura em geral que enriquecia os programas que você participava. Na mesma toada me pergunto, por que um futebol cinco vezes campeão do mundo, a despeito dos 7 x1, de uma hora para outra ficou imprestável? E eu mesmo respondo não mudou em nada do que sempre fomos, apenas perdeu uma copa como ganhou outras cinco. Quando os medíocres das TVs esportivas de plantão, principalmente as que transmitem apenas campeonatos europeus, clamam por um futebol brasileiro igual aos europeus, com sua mesma agenda e calendário aí acho que os cretinos querem que nosso futebol realmente morra. Afinal os cinco títulos vieram da pulverização que ocasiona os campeonatos estaduais pelo país, pela diferenciação que é nosso calendário dos europeus, enfim pela “zona” que é nosso futebol brasileiro. Por exemplo, por que os EUA são o país do basquete? Vá lá pedir para eles eliminarem o campeonato da basquete nas universidades só por que na Europa não tem campeonato universitário de basquete. Eles provavelmente, como não têm complexo de vira-latas mandarão os cretinos plantar batatas, pois todos sabem que basquete universitário é a base do NBA. Mas por aqui onde ainda campeia o complexo de vira-latas o mantra para o Brasil copiar Europa no futebol e aniquilar aquilo que só um país ( com as dimensões e condições para praticar futebol em todos os seus rincões) com cinco títulos tem passa a ser a solução milagrosa para salvar nosso futebol. O único retoque que precisa realmente se fazer no futebol do Brasil é encurtar o campeonato brasileiro que dura os exagerados oito meses e deixar de sufocar os campeonatos estaduais. Simples assim, quem sabe a volta do mata-mata no Brasileirão deixe mais datas para o resto do Brasil praticar o futebol.
Parabéns meu querido, é sempre uma alegria ler as tuas aulas de futebol.
Obrigado! =)