
Mano Menezes, depois do pavoroso empate por 0 a 0 do seu Corinthians com o Coritiba, declarou que a turma, com base nos jogos da Copa do Mundo, passou a achar todas as partidas do Brasileirão piores do que realmente são. Ou qualquer coisa assim.
Não lhe falta razão quanto à recorrente citação à Copa do Mundo e, em especial, a Alemanha, como parâmetro para as grandes mudanças no futebol brasileiro, que, pelo visto, não virão tão cedo. E, nisso, há erros de avaliação, claro. Afinal, a Copa do Mundo é uma disputa no sistema mata-mata, de tiro curto, da qual participam a elite do futebol mundial. E o Brasileirão, ao contrário, é uma competição de pontos corridos e longa, da qual participam clubes mal administrado e jogadores, na sua imensa maioria, de nível técnico razoável, comandados por treinadores que, por várias razões, jogam mais pra não perder do que pra ganhar.
E o fazem não apenas por falta de mais profundos conhecimentos sobre o seu próprio ofício, o que é um fato, mas, sobretudo, por uma questão de sobrevivência profissional, prisioneiros de uma estrutura falida por mal engendrada.
A começar pelo calendário insano do nosso futebol, que não oferece condições para que as equipes sejam bem preparadas a partir de uma pré-temporada decente, e que, na sequência, possam ser submetidas a treinamentos adequados para a manutenção ou até reformulação de táticas e outros bichos.
E a coisa desce ao seu ponto básico: chute a gol, aquele exercício diário que qualquer garoto no mundo todo, desde que ele existe, passa o dia carimbando com a bola o muro do quintal de casa.
Sucede que esse elementar movimento do futebol é o que mais exige da musculatura e das articulações de um jogador profissional. Por isso, qualquer preparador físico meia boca já vai avisando dos riscos de se treinar chutes a gol na véspera de um jogo. Ora, no futebol brasileiro, só há vésperas de jogo: o cara joga no domingo, descansa na segunda, treina levemente na terça, pois o jogo já é quarta, e assim sucessivamente.
No jogo, se o seu time consegue criar uma rara chance de chute a gol, diante das múltiplas retrancas espalhadas por esse país afora, ele certamente não terá a mesma precisão no remate que aquele outro, bem treinador em todos os quesitos. Mesmo porque se o drible e a visão de jogo são requisitos natos, nascem com o sujeito, a precisão, seja no passe, seja no chute, é fruto de treinamentos exaustivos.
Pegue como exemplo, o jogador de basquete. O bicho chega a fazer quinhentos arremessos na cesta por dia. E olhe que é com as mãos, a ferramenta natural que fez o homem se diferenciar dos seus ancestrais e refazer o mundo, com os pés plantados no chão, em perfeito equilíbrio.
Mas, os cartolas – apaixonados ou interesseiros -, a torcida que só sabe pedir raça e a mídia em grande parte despreparada exigem o quê? Resultados. Ora, o resultado de empate passa a ser a boia salva-vidas do técnico, do cartola e até mesmo dessa mídia que vive exaltando a grande capacidade de armar defesas intansponíveis deste ou daquele time adversário do grande e, claro, dos jogadores, que saem de campo enaltecendo a força defensiva do inimigo e a falta de atenção naquela bola parada que treinaram muito mas, na hora, deu bobeira.
Então, meu, fecha a casinha lá atrás, impeça o contragolpe na marra e seja lá o que Deus quiser.
Bem, se há um Deus justo e criador de tantas belezas no universo, por certo não é isso que Ele quer. Só não pode interferir, pois se tudo é Sua criação, o acaso e a estupidez humana também o são.
E o resultado é isso que estamos cansados de ver em nossos campos: um futebol chato, murrinha, pontilhado de faltas e reclamações conjuntas, cuja duração do tempo de bola rolando, mesmo que enfadonhamente, mal passa dos 40 por cento. Um assalto ao bolso de quem paga ingresso ou assinatura de tv a cabo. E uma bofetada nas nossas mais caras tradições e anseios.