Esquemas, Felipão e o’scambau

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Permitam-me responder aqui um questionamento feito pelo amigo que se assina Forg, num dos comentários abaixo, pois a confusão que ele faz é comum não só entre os aficionados pelo futebol, mas, sobretudo, por grande parte da mídia.

Quando me  refiro ao atraso do futebol brasileiro, afora o primarismo de nossos cartolas em geral, sempre busco a palavra exata – conceito. Conceito de jogo, não esquema ou tática, que são outro departamento, embora correlatos.

Esquema ou sistema de jogo é aquela formulação básica, que nasce com o sistema clássico (2-3-5, dois zagueiros, três médios e cinco atacantes), superado pelo WM de Chappman, base de todas as variações subsequentes – 4-2-4,  4-3-3, 4-4-2, 3-5-2 etc. Sem falar no Catenaccio italiano ou o Ferrolho suiço, retrancas deslavadas que, no Brasil, foram reproduzidos pelo saudoso Caetano De Domênico, nos anos 30/40/50, através da Cerrada ou Cerradinha, um acúmulo de defensores (as duas linhas quatro atuais) com dois ou apenas um atacante, dependendo do gosto do freguês.

Tática é a opção imediata do treinador, de acordo com as circunstâncias de um jogo específico – o estilo dos jogadores de que dispõem naquele momento, as fraquezas e forças do adversário etc.

Nesses dois aspectos, não há nada de novo sob o sol. O que se alterou ao longo das duas últimas décadas é o conceito de jogo.

É a maneira como você encara a armação de sua equipe em relação ao objetivo, ao sentido do jogo. Se você acha que seus objetivo é vencer, jogando por meio de passes, sempre com a clara intenção de marcar gols. Ou, se você parte do princípio de que o mais importante é impedir que o adversário jogue, faça gols, e, na medida do possível, então, cumprida esta fase do plano, o seu time vai lá, e, pimba!. carimba o inimigo.

A chamada escola brasileira de futebol encantou o mundo e conquistou o imaginário de europeus, asiáticos, africanos o’scambau, partindo do conceito (ainda que tenha sido inconsciente) de um jogo de passes, envolvimento, dribles, invenções e muitos gols.

Os europeus, em geral, sobretudo ingleses e alemães, viam o futebol sob outra ótica, mais pragmática, mais objetiva: antes de tudo, marcar; e só atacar na boa, nem que fosse aos chutões, o que, para o brasileiro (para os argentinos também) era um anátema, uma heresia, um pecado.

Há coisa de vinte anos, os polos começaram a se inverter até chegarmos ao oposto total hoje em dia: eles jogam como nós jogávamos; nós jogamos como eles jogavam.

E O FELIPÃO COM ISSO?

Tem tudo a ver, pois, quer queira, quer não, ele é o porta-bandeira dessa mudança, que instalou em nossos campos o chamado futebol de resultado, pragmático, aquele conceito de vencer a qualquer custo. Ora, como acabou fazendo nome e fortuna dirigindo clubes, sobretudo em torneios de tiro curto, quando o emocional muitas vezes supera o técnico e o tático, passou a ser um exemplo para todos os demais treinadores brasileiros, incensado pela mídia sem a devida formação e cobiçado pelos cartolas.

Para coroar essa carreira, a conquista da Copa do Mundo de 2002.

Esse jeito de conceber o jogo, porém, implica sempre na presença lá na frente de um ou dois jogadores que resolvam sozinhos todos os defeitos de um time sem a devida criatividade a partir do meio de campo. Em 2002, Rivaldo e Romário, assim como em 94, com Parreira, Romário e Bebeto. E até aqui, era Neymar.

Como esse expediente parte do pressuposto defensivo, a zaga joga próximo de sua área, o que faz com que volantes recuem, juntamente com os eventuais meias. Resultado, de posse da bola, dá-lhe chutão para os atacantes lá na frente brigarem com os zagueiros e a tal segunda bola, objeto sagrado para nossos treinadores, caia nos pés de um meia ou volante.

Ah, sim, outro dogma encravado na alma dos nossos treinadores e da nossa desatenta mídia é a presença de dois volantes. Disso, não se abre mão nem a pau.

E aí você espia esse time alemão, como o Barça, o Bayern, o Arsenal, sei lá quantos times de ponta da Europa. e lá está apenas um volante, se tanto. No caso da Alemanha nesta Copa, Khedira.

E Kroos? E Schweinstiger? Só são volantes na cabeça dos nossos jovens comentaristas.

Schweinsteiger, que começou como um meia ofensivo, por talhe e vocação, é um autêntico meia-armador, assim como Kroos.

São pequenos mas vitais detalhes que acabam fazendo a grande diferença. E marcam nosso atraso, pelo visto, irremissível.

 

 

17 comentários

  1. O que presenciamos nesta terça feira, não foi exatamente o que se joga nos campos brasileiros (lógico que ao menos a retórica de manter Fred no ataque, como se fosse uma atacante de jogo de “pregos”, típico do jogo de Felipão). A primeira situação no mínimo constrangedora, foi o David Luis não confiar em seu companheiro de zaga (Dante). Por que?
    Porque não houve preparação, os dois não estavam entrosados. A zaga estava perdida no setor de defesa. Não houve proteção do meio de campo, porque simplesmente se preocuparam em encobrir as falhas que os laterais davam; deixaram o meio de campo livre; pior: o Brasil nunca teve um armador de ofício. Nos jogos anteriores, Neymar teve que fazer essa função precariamente. Se notarmos outros jogos, o camisa 11 é que fazia a bola chegar nos atacantes. Luis Felipe Scolari não é estrategísta e pelo visto, sabe escolher mal seus comandados.

    1. Prezados, Tenham meu bom dia, ou tentem ter um bom dia. Moro em UK, e estou com ressaca antes de voces, pois acordei primeiro, se é que vocês conseguiram dormir. Meu saudoso Pai com 11 anos de idade teve o seu drama com o maracanaço de 1950. Ontem meu filho de 16 anos teve o seu drama no futebol. Daqui a pouco ele vai acordar (07:10 am). Mediante sua tristeza disse que meu drama foi mais intenso, pois me referi sobre nosso esquadrão de 1982. Por volta das 03:45 am desta madrugada aqui na Inglaterra (estamos com quatro horas de diferença de fuso), ele apareceu na sala e disse: Pai, como o senhor teve um drama se aquela seleção encantou o mundo? Acabei de fazer uma pesquisa no google. Respondi a ele que até hoje eu meus olhos enchem de lagrimas quando vejo alguma imagem daquela seleção. Corroborando com o Mestre Alberto Helena foi a partir desta seleção e tambem da de 1986, que o importante passou a ser vencer. Jogando feio ou bonito é vencer. Fui um bom engenheiro e com bons resultados, mas sempre tive que justificar os meios, como todos vocês em seus processos. No futebol não é assim. O importante é vencer, e não importe como. Quanto ao meu filho disse a ele: Fique tranquilo, pois você acaba de adquirir mais uma historia sobre futebol, para contar a seus filhos e netos.

    2. Prezado Agnaldo. Corroboro com suas observações. Preparação!!! Dante treinou com Henrique durante 30 dias. Aqio na Inglaterra, Jose Mourinho usa por vezes David como volante que ajuda na marcação e acredite, ele tambem apoia. Sabe porque Jose Mourinho faz isso? Porque prepara!!! Ele estuda de fato cada adversario antes do campeonato iniciar, observa durante, e prediz com base em fatos e dados. Pois sabe que o time dele tambem e observado e estudado. Por fim, quando saiu a convocação, pensei: Meu Deus!!! Escolheu mal os seus comandados para essa copa do mundo no Brasil.
      Tenha um bom dia. Pois aqui a cada 5 minutos me perguntam: What happened? E não sei responder!!!

  2. Rivaldo e Romário em 2002? Romário não jogou 2002… Tinhamos Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho… pelo amor de Deus. Nunca entendi você comentando nas outras emissoras.

  3. Os maiores responsáveis pela derrota vexatória são os dirigentes da CBF. Total falta de planejamento para nossa seleção. Tínhamos, pelo menos, 4 anos para isso. Acho necessária a imediata troca de todos os dirigentes da CBF: Seu Presidente, o vice, gerentes, acessor de imprensa, acessores, etc. Este time improvisado é fruto destes dirigentes. Se isto não for motivo para a saída deles não consigo imaginar o que poderia.

    1. Se pudéssemos dizer que há um outro Técnico no Brasil, para por no lugar do velho e teimoso Felipão, que jogou o palmeiras pra série B, salvo o vexame até seria bom. Mas acontece que vamos colocar quem? . Precisamos urgente pela CBF preparar técnicos e sistemas de jogo tático etc. senão vamos continuar dando vexames, e sendo ridicularizados até aqui na América do Sul.

  4. Lógica e clara a visão do Alberto Helena sobre a condição atual do futebol brasileiro. Técnicos e esquemas ultrapassados que contam com o talento de alguns jogadores (poucos) para resolverem o jogo a seu favor. É necessária uma reciclagem, urgente, em uma escola ascendente como é a da Alemanha (o problema vai ser ensinar inglês ou alemão ao Joel, ao Muricy e outros). Outra mudança necessária é na mídia que precisa ser mais honesta e declarar os defeitos ao invés de cobrí-los em nuvem de fumaça azul.

  5. A nossa sorte foi a Alemanha ser bastante piedosa com os anfitriões… se tivessem continuado no ritmo dos 30 primeiros minutos do primeiro tempo, teriam nos imposto a maior goleada de todos os tempos em Copas do Mundo!!! Fariam 15, 20 gols facilmente!!!

    1. Gostaria de ouvir uma declaração do Romario. Ele defendeu (e muito!) o Felipão na Record quando o Brasil perdeu a medalha olímpica para o Mexico. Me lembro bem; ele disse que o Felipão sabia convocar e escalar! Gostaria de ouvi-lo sobre a escalação de ontem do Felipão e de como ele formou o time.
      Para ele também serve: Romario calado é um poeta.

  6. O FUTEBOL BRASILEIRO COMEÇOU E DECAIR E MORRER DEFINITIVAMENTE QUANDO COMEÇARAM A ENDEUSAR ESSA GAUCHADA DE TREINADORES. CONCLUSÃO: SÓ MARCAÇÃO, PORRADA E ESQUEMAS MEDÍOCRES!!!
    NÃO PODEMOS ESQUECER DA INCOMPETÊNCIA DOS DIRIGENTES E PRESIDENTES DE FEDERAÇÕES DOS ESTADOS.
    DEPOIS DESSA DERROTA MERECIDA, ESTÁ AÍ A GRANDE OPORTUNIDADE DE MUDANÇAS DRÁSTICAS QUE SÓ TRARÁ FRUTOS À LONGO PRAZO.

    1. Nao acredito que os jogadores brasileiros desaprenderam de jogar futebol. O conceito to Treinador (Scolari) foi aplicado ao pe da letra, o resultado foi o que se viu, uma falha completa do plano de jogo logo de inicio, como nao existe nenhum tipo de lideranca dentro do campo, todos se naufragaram sem a possibilidade de reagir; nostalgia me leva ao passado aonde o requisito mais importante para o time seria baseado em um equilibrio mental, jogadores de caracter forte sem medo de discordar dos “tecnicos” quanto a maneira de se ganhar jogos importantes e o que me resta agora e apreciar o futebol envolvente que os germanicos estao proporcionando, futebol continua…

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