O refúgio dos canalhas

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press
Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Um sábio já disse que o patriotismo é o refúgio dos canalhas. Os canalhas aqui são aqueles que usam o ardor patriótico em seu próprio benefício ou em favor de suas ideias (não ideais) quase nunca democráticas e sadias.

São aqueles que, sentindo no ar a oportunidade, desfraldam bandeiras, entoam hinos e fazem discursos inflamados, sempre de olho no butim da hora.

O verdadeiro patriota é aquele que, no dia a dia, em silêncio, ama o cenário onde vive, se solidariza com sua gente, curte as tradições de seu povo, seu idioma, suas artes e culturas.

Para tanto, não precisa hastear bandeiras na porta de casa, como fazem os americanos, num gesto quase clerical, nem sair por aí batendo no peito e berrando que é brasileiro, com muito orgulho e muito amor. Basta ser, sem alarde.

Patriota de fato é aquele que zela pelas coisas de seu país, que vota com critério, que respeita as leis e o seu semelhante nas situações mais corriqueiras.

Estou dizendo isso porque vivemos dias de euforia verde-amarelo pra cairmos na maior depressão depois da blitz avassaladora dos alemães.

Acreditávamos num final feliz, entre outras coisas, porque inflados pelos discursos fascistóides do nosso treinador, que beiravam o infame Ame-o ou Deixe-o dos tempos da ditadura militar. Mesmo que caminhássemos no sentido contrário à nossa história, às nossas tradições nos campos dessa significativa expressão cultural – o futebol.

O então técnico do Barça, o catalão Pep Guardiola, quando questionado por um repórter brasileiro sobre o estilo encantador e vitorioso de seu time, como se fosse uma grande novidade, ouviu do treinador a seguinte resposta:

– Me surpreende essa pergunta vindo de um brasileiro, pois meu pai e meu avô sempre me disseram que era assim que vocês jogavam.

E era mesmo.

Por ironia do destino, o futebol brasileiro que deixou de ser brasileiro para ser felipesco, o tal futebol de resultado que foi simplesmente pulverizado por uma Seleção cujo dedo invisível de Guardiola lá está, nitidamente visível.

Sim, porque Guardiola trocou o Barça pelo Bayern e imprimiu no time alemão, base maciça da Seleção que acaba de meter 7 a 1 no Brasil, o mesmo jogo brasileiro dos bons tempos.

Traduzindo: em última análise, o Brasil de hoje tomou um chocolate histórico do Brasil de ontem.

Um estrangeiro na Seleção?

É o que muita gente vem pedindo depois da tragédia do Mineirão: um gringo que venha recolocar nosso futebol nos trilhos corretos.

E pensar que Guardiola, quando se despediu do Barça, acenou positivamente para uma eventual chamada da CBF…

Muita calma nessa hora, minha gente.

Guardiola é um caso à parte. Diria que único no futebol mundial. Basta ver com que presteza ele transformou o jogo com os pés do goleiraço Manuel Neuer. De assustador perna-de-pau, em líbero de causar inveja a um Beckenbauer.

O bicho é bom demais de serviço.

Mas, será que a simples presença de um técnico estrangeiro na Seleção, que joga esporadicamente, que se reúne hoje, viaja amanhã e joga no dia seguinte, bastaria para mudar esse panorama? Duvido.

Ou, então, importar técnicos de outros países para os clubes, a fim de formar uma rede de novos traçados?

Ora, o Atlético Paranaense há pouco tempo, trouxe Lothar Matheus, que chegou e partiu num vapt-vupt. Ainda outro dia, passou pela Arena da Baixada um espanhol que mal esquentou o banco, diante de uma série de fracassos.

O Corinthians daquele iraniano sinistro importou Passarela, e deu no que deu.

A única saída está numa drástica transformação de mentalidade dos nossos cartolas (os dos clubes, das federações e da CBF), assim como de nossos treinadores.

Há que se estabelecer um calendário decente, com sumária redução de jogos, espaço adequado para férias e pré-temporada, de cara. Além disso, que os clubes ofereçam garantia de tempo suficiente aos treinadores (brasileiros ou estrangeiros, não importa) para que possam desenvolver seu trabalho transformador.

E, sobretudo, fazer uma verdadeira revolução nas categorias de base dos clubes, incentivando mais os jovens talentosos do que os brucutus em formação.

Por fim, jogar na lata de lixo da história esse amaldiçoado conceito do futebol de resultados, exigindo de todos – técnicos e jogadores – bons espetáculos, qualquer que seja o placar final, pois, trata-se de um jogo, onde se perde jogando bonito ou feio.

Afinal, futebol é diversão, não guerra.

10 comentários

  1. Concordo em gênero, número e grau. Chega de sou brasileiro com muito orgulho e muito amor e ir prá Paulista quebrar o patrimônio alheio. Chega de emporcalhar as ruas de lixo. Chega de desrespeito para com o direito do próximo. Mais açao e menos falação. Queira Deus que essa derrota acachapante de 7 x 1 prá Alemanha sirva prá alguma coisa. Não estamos indenizando e com justiça as vítimas da ditadura militar? Então porque mantemos no congresso e na própria CBF pessoas que apoiaram a ditadura militar? Acorda povo brasileiro. As eleições estão chegando e vamos fazer uma limpa nesse congresso que tanto nos envergonha. Abcs

    1. Um dos primeiros técnicos brasileiros a triunfarem no exterior foi Oto Glória,que disse a
      conhecida frase muito usada no mundo do futebol “…….não se faz omelete sem ovos!”
      Qualquer clube com qualquer técnico,necessitam tempo para a formação de novos talentos e é dos clubes que sairão os novos craques para a seleção.
      É a mentalidade e o perfil dos dirigentes de futebol que precisam de mudanças, para que os efeitos positivos sejam colhidos em seus devidos momentos,o que pode levar no mínimo de 4 a 5 anos.

  2. Para estes canalhas de carteirinha a derrota do brasil x ALEMANHA não foi nada e nem afeta o brio deles, afinal não sebem o que é isso pois não tem. Conseguiram ganhar o que queriam qué fama e muito DINHEIRO as custas do inocente patriotismo do povo brasileiro neste brasil que hoje o futebol se escreve com letra bem minuscula.

    1. Depois do Felipaço que o Honrado povo das gerais assistiu no mineirão o que resta a fazer pelos torcedores que por acaso tiverem disposição de assistir brasil x Holanda é levar para o Mané Garrincha três caixões para fazer o velório da CBF, do felipão e sua comissão técnica e dessa temida seleção (pelos torcedores). Cantar o Hino Nacional Brasileiro com Orgulho e Honra, mas, de camiseta preta e de costas para essa seleção que não merece ser lembrada na história do futebol brasileiro. E para nosso filhos dizer que o BRASIL Já foi o pais do futebol quando este não era negócio onde o dinheiro tirou a honra e a dignidade de seus representantes e sim, quando o coração de um povo pulsava na ponta da chuteira de seus jogadores. Viva Barbosa!!! Viva o povo brasileiro!!!

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