Fred, por uma bola

Fernando Dantas/Gazeta Press
Fernando Dantas/Gazeta Press

Fred, eis a questão. Está na boca do povo: com Fred, não dá.

Afinal, um centroavante que não faz gol, nem participa ativamente do jogo coletivo, no fim das contas, é um peso morto. Peso maior se levarmos em consideração o estilo de jogo dos alemães, feito de muita troca de bolas no meio de campo e velocidade no ataque, mais ou menos ao jeito Bayern atual de ser nas mãos de Guardiola. E o Bayern, todos sabem, é a base da Seleção Alemã.

Mas, Fred tem estrela. E, quando menos se espera dele, uma cabeçada certeira, um rebote do goleiro, uma bola vadiando na área, e, pimba!, lá vem o gol da vitória. Essa é a sina dos centroavantes típicos como Fred.

Felipão sabe disso. Mais: aposta nisso. Portanto, não creio que ele venha a atender a voz geral. Além do mais, se não for o Fred, será Jo, ídem com batatas.

Mas, pelo sim, pelo não, o técnico brasileiro vai fazendo experiências nos treinamentos, segundo os relatos que nos chegam da Granja Comary. Repõe Daniel Alves na lateral, coloca e tira Bernard, Hernanes, Ramirez, William, todas as alternativas possíveis e imagináveis para suprir a dolorosa ausência de Neymar. A resposta, porém, só virá na hora do jogo. Ou melhor, depois do jogo. Isto é: se o que ele fizer deu certo ou não., pois trata-se de um jogo só, eliminatório, com tantas variantes em tão pouco tempo que é impossível prever seu desfecho.

O máximo que nos cabe é analisar o passado, não prever o futuro. E o passado, embora tenha sacramentado nossa vinda até às semifinais, não nos anima muito, ainda que reste a esperança de sempre.

Sim, porque o fato é que, apesar de termos um time que joga junto há um bom tempo, cimentado pela conquista da Copa das Confederações e tal e cousa e lousa e maripousa, surpreendeu até aqui pela absoluta falta de entrosamento e da capacidade mínima de tocar a bola como reza o figurino. Veio aos solavancos, aos soluços, aos espasmos das investidas de Neymar e das bolas paradas

Atribuiu-se isso muito ao desequilíbrio emocional dos jogadores, expresso nas crises de choro de Thiago Silva, Júlio César e Neymar, sobretudo.

Chamem a psicóloga! E a psicóloga materializou-se de súbito na Granja, explicando que isso faz parte do plano. Não duvido. Como não duvido que o emocional, nesse tipo de disputa, muitas vezes é até mais significativo do que o tático ou o técnico. Mas, isso não explica tudo, não.

Na verdade, desconfio que a falta de um jogo bem jogado, tramado, bola no0 chão de pé em pé, deva-se muito mais a ausência de jogadores com essa habilidade peculiar no elenco. Resumindo: mais meias e menos volantes, uma distorção que venho anunciando há muito tempo, diga-se.

Mas, agora, amigo, Inês é morta.

O CAPITÃO E O LÍDER

A turma, sempre ávida por achar pelos em ovos, deu um espaço generoso a essa questão, baseada, principalmente, naquela imagem constrangedora de Thiago Silva, nosso capitão, sentado na bola em prantos e de costas para a cobrança de pênaltis decisiva.

Lembro que numa dessas Copas Américas, Luxemburgo escolheu Cafu como capitão do nosso time. Na entrevista coletiva, Leonardo, que aspirava essa patente, decidiu pedir demissão do elenco, elaborando um discurso prolixo e  inconsistente.

Na plateia, levantei a mão e questionei o craque:

– O amigo me desculpe. Mas, capitão, cara, só serve pra tirar toss e escolher o lado de campo que seu time defenderá. O resto, cabe ao líder. E, como líder, você tem mais a acrescentar do que como capitão.

Leonardo empacou, mas ratificou sua decisão de sair fora.

Pena. Porque, apesar de ser um rapaz inteligente, com um belo perfil para levantar a taça diante da mídia, dominando três idiomas, Leo, como a maioria da nossa crítica, não percebeu ainda uma velha diferença entre o capitão e o líder.

A figura do capitão foi inventada pelos ingleses, clonada do capitão de regatas, aquele que comanda o barco. Em geral, também o técnico da equipe, muito antes do advento dos nossos professores.Quando não atuava como juiz em confrontos entre times que não o seu.

O mesmo figurino  foi adotado duas primeiras décadas da implantação do futebol no Brasil. Foram os tempos de reinado de Rubens Salles, Lagreca e Amílcar Barbuhy. Todos capitães e líderes ao mesmo tempo.

Mas, com o tempo, a coisa mudou. O capitão nem sempre seria o líder. Em geral, o mais antigo, aquele que melhor sabe se expressar publicamente, essas coisas. Já o líder é o outro departamento.

Na Copa de 50, por exemplo, o capitão era o austero e veterano beque Augusto. Mas, o líder, ah, o líder não seria outro senão Zizinho, o Mestre Ziza, uma espécie de gato-mestre, cappo di tutti i cappi, para o bem ou para o mal, que se imponha no grito e na bola.

Em 54, Bauer era o capitão, mas quem comandava o elenco era Didi, ainda que caladão e introvertido, fato que se repetiu em 58, tendo Bellini como capitão. Mas, já aí, Zito fazia sua voz ser ouvida, amplificada, claro, em 62. Isso, sem falar em Gilmar, Mauro e Newton Santos e Pelé, que, na intimidade do grupo, atuavam decisivamente.

Já, em 70, Carlos Alberto era um capitão com voz ativa. Quem, porém, ditava as ordens em campo era o Gérson, não à toa apelidado de Papagaio., um autêntico treinador em campo. E, claro, Pelé, sempre, sem deixar de lembrar Piazza, o capitão do Cruzeiro.

E assim vai até chegarmos ao time atual, onde é mais do que evidente a liderança de David Luís, um tipo carismático, bem articulado na fala e que, na bola, responde a todos os anseios.

Eis por que a saída do capitão Thiago Silva não chega a ser tão desesperadora como a ausência de Neymar, por exemplo. Afinal, Dante não apenas joga muita bola como tem personalidade e voz de comando, sim, senhor.

Nesse aspecto, pois, nada a temer, gente.

AFP
AFP

GRACIAS, VIEJA! GRACIAS, VIEJO…

Quando pendurou as chuteiras, Don Alfredo Di Stefano, instalou no jardim de sua casa em Madri uma bola de bronze sobre um pedestal onde se lia a seguinte inscrição: Gracias, Vieja! Era sua retribuição a tudo que a velha bola lhe havia proporcionado na vida.

Bem faria a Bola se plantasse no campo dos sonhos uma estátua de Di Stefano, com a legenda que ele imprimiu na alma de todos nós que amamos o futebol como arte e engenho: Gracias, Viejo…

Sim, porque, pra quem não sabe, até o aparecimento de Pelé, Di Stefano era considerado, sem ressalvas, o maior jogador de futebol de todos os tempos. E, mesmo pelas poucas imagens que dele vi em ação – a maioria nas telas dos cinemas, agora reproduzidas na Internet – assino embaixo.

Surgiu no River Plate, La Máquina, em meados dos anos 40 com um ponta veloz, hábil e incisivo, logo apelidado pelos argent6inos de Saeta Rúbia, Flecha Loira, ao lado de craques memoráveis como Labruna Pedernera, Moreno e Lostau.

Em consequência de uma greve geral de jogadores na Argentina, juntamente com Nestor Pipo Rossi, o maior centromédio da história argentina, Moreno e até o nosso Ieso Amalfi, que jogava então no Boca Juniors, transferiu-se para a Liga Pirata (não era reconhecida pela Fifa) da Colômbia. antes de ir para o Real Madrid, onde virou mito, já como um centroavante ao mesmo tempo cerebral e finalizador.

Vinha aqui atrás armar as jogadas, ao lado de Puskas, com passes e lançamentos exatos, e chegava à área para concluir com precisão. Ou, então, partia aos dribles, pedaladas, chapéus, em direção à meta adversária varando defesas como uma faca aquecida cortando uma barra de manteiga.

Foi uma pá de vezes campeão espanhol e da Europa, campeão do mundo e otras cositas más.

Nunca jogou pela Argentina, mas vestiu a camisa da Colômbia e da Espanha, com a qual foi à Copa de 62, quando, machucado, só pôde assistir La Fúria perder para o Brasil sabem Deus e o juiz como.

Gracias, Viejo.

 

 

 

 

5 comentários

  1. Um dos maiores do mundo e o maior da história do Real Madrid,tendo inclusive falecido
    como Presidente de Honra do clube.
    Exemplo de profissional e um ser humano de grandes qualidades e virtudes.
    Mais do que nunca devemos respeitar e reverenciar sua memória e suas conquistas.
    Eu assisti a diversos momentos deste craque em muitos filmes do principal período de sua
    carreira que foi de 1953 a 1960,mas também assisti ao vivo o Pelé jogar e Don Alfredo
    fêz a metade dos gols de Pelé e não ganhou nenhuma copa do mundo.
    É duro engolir da imprensa espanhola e do atual presidente do Real Madrid de que foi
    o maior jogador de todos os tempos.

  2. COM FRED, JULIO CÉSAR E DANIEL SILVA, MAIS O MANCO HULK, SERÃO IMPOSSÍVEL PASSAR PELA ALEMANHA.
    SOU FÃ HÁ MUITOS DESTE COMENTARISTA E FIQUEI PASMO COMO TODA A NAÇÃO TAMBÉM FICOU DO SEU SILENCIO DOS PENALTIS DEFENDIDOS PELO GOLEIRO JCESAR DIANTE DO CHILE, ORA O MUNDO INTEIRO VIU OS ADIANTAMENTOS NA HORA DAS COBRANÇAS DAS PENALIDADES (lei de Gerson).
    O GOLEIRO DE VILÃO SE TORNA HERÓI….BRINCADEIRA TEM HORA.
    ATENCIOSAMENTE.

    1. Dizem os mais velhos que esse sim, poderia ser comparado ao Pelé. Pena que jogou em tempos que não havia televisão. Refiri-me, evidentemente a Di Stéfano…

      1. Obrigado Alberto Helena pela aula de conhecimento e que nos leva a refletir o quão o futebol é e sempre foi maravilhoso nas grandes jogadas de craques como Di Stefano, Pelé, Garrincha, Neymar – este o nosso Flexa Ligeira, ccujas jogadas são semelhantes as do Di Stefano tão bem descritas por você. Hoje seremos onze Neymares liderados pelo grande David Luís que reúne com propriedade as qualidades de capitão e as líder que já vem exercendo desde o começo da Copa. Eu ACREDITO!!!

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