Craque à beira do campo

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Alex, aquele canhotinho de passes magistrais e gols fantásticos que fez fama no Palmeiras, no Cruzeiro e no Fernerbach, volta a aos gramados. Desta vez, à beira do campo de Cotia, seu primeiro passo como treinador de futebol.

Alex foi um craque, mas, sobretudo, é um moço inteligente, com visão apurada do futebol e que, apesar de toda a experiência acumulada com os técnicos que o comandaram mundo afora, está disposto a ampliar seus conhecimentos, estudando o assunto em todas as medidas.

E aqui me pergunto: quais lições deveria aprender nesses estudos?

A bem da verdade, os métodos de treinamento que se mostraram mais eficientes para construir uma equipe sólida, eficiente e capaz de oferecer um bom espetáculo para o público, pois futebol não se resume apenas a obter resultados, mas, sobretudo, a oferecer um espetáculo que dê prazer a quem o acompanhe.

Sim, porque nas últimas décadas, os treinadores, aqueles que dão as últimas orientações aos seus jogadores, foram cercados de uma parafernália incrível oferecida por robustas comissões técnicas (preparadores físicos, auxiliares, médicos, fisioterapeutas etc.), além do apoio cibernético ao qual os tais analistas transformam suas observações em números mágicos e imagens detalhadas de como jogam os adversários e tal e cousa e lousa e maripousa.

Sou de um tempo em que nem preparador físico existia. Era o próprio treinador quem comandava os exercícios dos jogadores, o que se resumia em escaladas nas arquibancadas do estádio, corridas no bosque, e uma sessão de ginástica sueca (aquele agacha e levanta, abre e fecha os braços, essas coisas). O ponto alto era o coletivo, prática em desuso, hoje em dia, por falta de tempo para treinar, por conta desse calendário maluco, embora esse recurso seja essencial pra conferir harmonia de movimentos em qualquer equipe, independendo do fator época.

Vale lembrar que a primeira comissão técnica de fato criada no Brasil foi aquela da Copa de 58, em que Paulo Amaral passou a cuidar desses exercícios, e que havia até um dentista na delegação brasileira, o divertido Mário Trigo.

De lá pra cá, a evolução foi sensacional, principalmente nas três últimas décadas.

Mas, atenção! Do ponto de vista tático-técnico sofremos um processo regressivo brutal. Abrimos mão de nossa principal característica – a habilidade individual – em favor de um pragmatismo cinzento em que a marcação ao adversário passou a reinar em nossos campos, sem a devida correspondência nos resultados e matando o espetáculo de vez.

Isso se dá, sobretudo, porque os observadores do futebol (técnicos e comentaristas) pertencem a gerações dos anos 70 em diante, período em que a figura dos dois volantes (quando não, três) passou a ser um dogma irrefutável, o que acabou criando a falsa figura do Camisa 10, cuja origem e desenvolvimento histórico essa turma desconhece.

Tanto, que ainda nesta sexta-feira, assistindo à Seleção Sportv, comandado pelo excelente Rizek, ouvi meu queridíssimo amigo e ótimo comentarista Caio Ribeiro advertir Alex de que não cabe mais no futebol dito moderno a figura do meia-armador clássico, o tal Camisa 10, aquele sujeito que pensa o jogo e aciona com descortino seus atacantes. E foi além: essa figura não existe nem nos grandes clubes do mundo, como Barça, City, Real, ou Bayern.

Êpa! E o Kevin De Bruyne?

Sempre que o vejo em ação me vem a lembrança de Ademir da Guia, o Camisa 10 do Palmeiras. Não só pela semelhança física, pelas passadas largas, a precisão no passe e a chegada à área inimiga, mas, acima de tudo, pela disposição em campo, pois tanto ataca como arma e marca aqui atrás, quando é preciso.

E aqui está o grande equívoco da imensa maioria dos nossos comunicadores, que não tiveram a chance de ouro de acompanhar ao vivo as carreiras dos nossos grandes meias-armadores, como Mestre Ziza, Didi e Gérson, por exemplo. Todos eles também eram marcadores, ao lado do único volante e um pouco atrás do chamado meia ponta de lança, o meia mais ofensivo que se juntava, então, com os três atacantes (dois pontas e um centroavante). A exceção era Rivellino, que não gostava nem um pouco de marcar, a não ser aqueles gols inesquecíveis, de preferência cobrando faltas.

No Barça, De Jong faz essa função com extrema eficiência, desde que liberado pra atacar, e, no Bayern, a tarefa cabe a Goretzka, assim como Kroll e Modric dividem esse trabalho com equilíbrio no Real.

Alex, a exemplo de tantos outros Camisa 10 que surgiram depois do estabelecimento férreo do sistema com dois volantes de marcação, nunca foi um genuíno meia-armador. Era um meia que jogava a partir do meio de campo, mais como o antigo ponta de lança do que como um especialista na armação, embora tivesse talento pra tanto.

Essa visão com sintonia fina é que anda faltando no nosso futebol pra que ele se desgrude dessa estagnação tático-técnica e alcance a verdadeira modernidade, aquela expressa claramente no trabalho de Guardiola desde o Barça, passando pelo Bayern até chegar ao City, um técnico voltado para a combinação exata entre o resultado e espetáculo, capaz de alternar esquemas de jogo que vão do clássico 2-3-5 às demais formulações, todas elas, porém, voltadas para o ataque e a conquista de gols, o objetivo final do jogo da bola, como sempre foi.

 

 

4 comentários

  1. Alberto Helena Jr.

    Foi uma boa escolha do São Paulo em contratar o Alex para treinar seu time sub 20, na realidade uma aposta pois foi o clube que abriu as portas para o excelente jogador e carrasco do próprio São Paulo quando jogava pelo Palmeiras, lembra Alberto daquele gol em ele chapela um beque do São Paulo e depois um outro chapelaço no Rogério Ceni foi um dos gols mais bonitos que eu vi no futebol, enfim voltando ao assunto se derem espaço para ele trabalhar em paz, com suporte da diretoria que eu acho muito difícil no São Paulo pois o time tricolor virou um moedor de técnicos de uns anos para cá ele tem chance de prosperar e desejo boa sorte ao Alex nesta empreitada….Deus te ajude e te proteja Alex…..rindo até 2026.Saudações palmeirenses.

  2. Helena bom dia, só para lembrar, tinha também a primeira novidade em seleções brasileiras, um psicólogo, seu nome, João Carvalhaes na comissão técnica, os 3 camisas 10 aqui lembrados vestiram a camisa Tricolor, Zizinho(campeão em 57 pelo tricolor) em fim de carreira, também em fim de carreira, Didi, Gerson jogando com a 10 no Tricolor, campeão do mundo em 70

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