
Até parece senha na Internet, mas é apenas uma marca, um preito à memória de Arthur Friedenreich, que, se vivo estivesse, teria completado 128 anos no sábado.
Fried, porém, morreu muito antes do advento do fax, do celular, da Internet, de todo esse mundo virtual que nos cerca, sem deixar rastros visuais de sua extraordinária passagem pelos campos de futebol, aqui e lá fora.
Até onde sei, o que restou foi apenas um brevíssimo trecho de filme resgatado pelo meu saudoso amigo Fernando Faro, quando diretor do Museu da Imagem e do Som, em que aparece Fried em ação. Talvez haja algo mais no acervo da Cinemateca Brasileira, se esta sobreviver ao ataque sistemático à cultura brasileira que se desenrola no quartel do Capitão.
Mas, sou capaz de desenrolar na memória um filme com Fried e a bola, produzido pelas tantas informações colhidas desde a mais tenra infância com os mais antigos que se reuniam à porta do bar da Dona Lili, na esquina das ruas Dr. Costa Valente e Coimbra, no velho Brás dos italianos.
Esguio, lépido, de reflexos vertiginosos, Fried era um centroavante que não se limitava a ficar ali na área à espera da bola fatal, não, tipo Feitiço, por exemplo. Movia-se com, destreza fora da área, onde chegava de surpresa para o bote final.
Alguém comparou seu estilo ao de Pagão, o ídolo maior do meu compadre Chico Buarque, um dos raros gênios que a estupidez tupiniquim tenta destruir nestes tempos de pandemia mental.
Foi o autor do gol que nos deu o primeiro título internacional, contra o Uruguai, no Sul-Americano de 19, em plena Gripe Espanhola, o covid do início do século passado. Além de ter sido o comandante da espetacular campanha do Paulistano, em 1925, em campos de França, quando o time brasileiro foi coroado como Les Rois du Foot-Ball (Os Reis do Futebol), pela magia com que tratava a bola, na construção da Escola Brasileira de Futebol, refundada outro dia pelo português Jorge Jesus.
Vi, assim, ó, de frente a frente, Fried pela primeira vez quando garoto ainda, levado pelas mãos do meu tio Oswaldo Sanz Duro, médico da FPF e da Federação Paulista de Boxe, a um dos jogos do Campeonato Suil-Americano de Veteranos, no Pacaembu, lá pelos idos dos anos 50.
Magro, com um sorriso cortês, cigarro na piteira dourada, terno branco de linho, cumprimentou-me como se eu fosse alguém.
Filho de uma negra doméstica com um comerciante alemão, Fried não escondia sua mulatice, como o faziam os negros, mulatos e cafuzos cariocas, segundo se depreende do antológico livro de Mário Filho – O Negro no Futebol Brasileiro –, recorrendo a boinas pra esconder o pixaim ou até mesmo usando pó de arroz no rosto pra disfarçar a cor morena. Usava, sim, uma rendinha na cabeça, mas era pra manter o cabelo na moda englostorada da época, recurso usado por muitos brancos também.
De certa forma, orgulhava-se da mestiçagem que daria o chute inicial dessa forma de tocar a bola com arte e ciência que fez a história de nosso futebol mundo afora. E que nós, tão desmemoriada gente, temos desprezado nas duas últimas décadas.
Pois, futebol é uma expressão cultural que transcende à simples competição esportiva. É, sobretudo, um espetáculo divertido e emocionante que congrega raças e culturas distintas no plano maior da invenção individual somada à eficiência dos movimentos coletivos.
Nada, portanto, mais moderno num mundo globalizado.
Mais uma aula de história! Parabéns!