
Não que Jorge Jesus seja um técnico genial, inventivo, criador de inesperadas novidades no velho jogo da bola. Nada disso. Simplesmente, em sua breve e extraordinária passagem pelo Flamengo, deu uma bofetada no rosto apavorado e medíocre do nosso atual futebol.
Não inventou nada. Apenas devolveu-nos o que criamos, décadas passadas, e depois desprezamos – um jogo ofensivo, pautado nas habilidades dos seus jogadores e, por conseguinte, vencedor.
Jesus, enfim, devolveu-nos o prazer de assistir a um futebol jogado sem medo e criativo, dois elementos essenciais do que éramos no passado e deixamos de ser nos últimos anos – os artistas da bola.
Lembra-me a também breve passagem do Bella Guttman pelo São Paulo, nos anos 50. A diferença é que o húngaro deixou a semente da objetividade que faltava aos nossos artistas da bola, o que resultou nas conquistas das Copas de 58 e 62, enquanto o português restaurou a inventividade dos nossos craques.
Tenho cá minhas dúvidas de que seu sucessor siga o mesmo caminho, sobretudo sendo um desses tantos treinadores que vagueiam por aí. Não apenas por incapacidade de se livrar desse medo atávico dos treinadores atuais. Mas, também por vaidade, aquela necessidade de provar que faz a diferença, de colocar suas digitais no time.
E aqui faço uma ressalva para Fernando Diniz, vaga estrela da Ursa nesse céu nebuloso que já foi azul de anil e gentil.
A sorte do Mengão é que seu elenco, de tão bom, destoa dos demais, o que lhe dará, por certo, fôlego pra seguir o caminho traçado por Jesus por mais algum tempo.
Grave, porém, se não irremediável, seria a saída de Gérson e Bruno Henrique, que, segundo se diz por aí, Jesus teria a intenção de levar para o Benfica. Pois, são eles o arco e a flecha, a criação e a conclusão desse ataque, até aqui, avassalador.
Sei lá que motivos íntimos teve Jesus pra optar pela volta à terrinha. Mas, não é difícil imaginar que essa palavra tão lusitana e única em todas os demais idiomas tenha falado mais alto: saudade.
Pois, saudade dele sentiremos. Que pena…
NA LINHA DO GOL
E o Real, como se esperava, levantou o caneco espanhol, afinal. Não foi, por certo, uma campanha exuberante do campeão, que contou mais com a queda vertiginosa do futebol de seu maior concorrente, o Barça, do que pela magia de seu próprio jogo. Mas, este deve muito ao trio que forma a espinha dorsal da equipe: Sérgio Ramos, Casemiro e Benzema.
Sérgio Ramos, defendendo sua área com denodo, atacando e marcando gols de pênalti e de cabeça, transformou-se no maior zagueiro-artilheiro da história merengue. Casemiro, a âncora do time à frente da zaga e no meio-de-campo, destruindo, armando e atacando com precisão e elegância, é hoje o melhor volante do mundo, sem dúvida. E Benzema, além de artilheiro contumaz, voltou a ser aquele centroavante-meia dos tempos do Lyon, quando não se limitava a ficar enfiado na área, participando das jogadas de criação com frequência.
Por fim, um prêmio extra para esse admirável Zinedine Zidane, um dos maiores meias-armadores da historia do futebol mundial, se não o maior, que já havia dado ao Real títulos europeus, contribuiu, com sua sobriedade e inteligência, para mais essa conquista.