Tradição traduzida

Foto: Divulgação/Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians

Sempre que se fala em extinção ou redução do tempo destinado aos campeonatos estaduais no calendário brasileiro, um bando Neanderthal abandona suas cavernas, tacape em riste, bradando em defesa da tradição e da salvação dos pequenos clubes, celeiros de craques.

Que tradição, meu, neste país desmemoriado? Aqui, vai pro espaço tudo o que aconteceu cinco minutos antes, engolido pelos fake-news da vida e do congênito desprezo verde-amarelo pelo passado.

Mesmo porque tradição não significa estagnação. Ao contrário: tradição é a dinâmica de passagem, de geração a geração, de uma determinada história. Ora, já diz o velho ditado, que quem conta um conto aumenta um ponto. Isto é: a história vai se modificando de acordo com as mudanças que o tempo opera sobre as circunstâncias do conto contado.

Quanto à questão da sobrevivência dos pequenos, os estaduais não contribuem em nada para a grande massa desses clubes. No Paulistinha, por exemplo, participam, sei lá, dez clubes do interior? Quantos ficam de fora? Oitocentos? E, desses, grande parte pertence aos empresários de jogadores que os mantêm apenas como vitrines de seus produtos, de olho no futebol de fora do país.

Prova disso é que, enquanto você toma conhecimento pela tv de jovens brasileiros atuando na Europa que sequer passaram pelos grandes daqui, estes vivem importando de lá nossos craques já em fase terminal de carreira.

Além do mais, aqueles pequenos clubes que tiveram o privilégio de disputar o estadual (ou seja: faturar algum enfrentando os grandes), findo os três meses de duração do torneio, dispensam a maioria de seus jogadores e passam o resto do ano à mingua.

E por quê? Simplesmente porque não há suficiente arrecadação de dinheiro, seja em patrocínio ou bilheteria, na ausência de um calendário destinado especificamente a eles. Mesmo porque esses clubes do interior não possuem de fato uma massa significativa de torcedores próprios; estes, na verdade, são aficionados dos grandes clubes do Estado. Ao contrário, por exemplo, dos centros mais civilizados da Europa, onde os pequenos mantêm seus adeptos de geração em geração, lotando seus estádios mesmo disputando a terceira ou quarta divisão de seus respectivos países.

A outra forma de faturamento desses clubes, que era a venda do passe de jogadores forjados em suas bases, passou para as mãos dos empresários desde quando o jogador é garoto do primeiro vídeo-game.

Só pro amigo ter uma vaga ideia disso tudo, enquanto aqui ainda se discute essa questão, a UEFA se debruça sobre a ideia de substituir os campeonatos nacionais de lá por um grande torneio europeu, disputado pelos maiorais do continente e das Ilhas Britânicas. Aifinal, futebol não é filantropia; é, sim, um espetáculo de massa grandioso e feérico.

E, cá pra nós, não há como comparar a capacidade nossa de manter tradições com a dos europeus. A diferença básica é que eles conhecem bem o significado da palavra tradição.

NA LINHA DO GOL

Não sei por que nestes dias não me sai da cabeça os versos de uma velha marchinha de carnaval que diz mais ou menos assim: Nóis, nóis, os carecas, com as mulheres somos os maiorais/ Pois, na hora do aperto, é dos carecas que elas gostam mais…/ Pra que cabelo, pra que, seu Queiroz, a coisa agora está pra nóis, nóis, nóis…

 

Um comentário

  1. Alberto Helena Jr.

    Muito obrigado pelo texto neste post dedicando-se a responder sobre a manutenção dos estaduais mas gostaria que você refletisse se os estaduais fossem extintos não seria um passo grande e colaborativo para o que você criticou e com razão, naa influência de empresários do futabol na colocação de fracos jogadores dentro de grandes times, em suma uma imensa maioria hoje em dia de pés de rato que nos tempos aureos não serviriam nem para limpar a chuteira de um Pelé, de um Ademir da Ghia, de um Pedro Rocha (São Paulo), de um Gerson canhotinha de ouro, de um Rivelino, isso só para citar alguns e também acredito que essa história de se acabar com os estaduais seria uma tremenda alavanca para, de forma negativa para espanholizar o futebol brasileiro visto que neste país Europeu só dois times a se revezar em termos de disputa verdadeira dos campeonatos que disputam. Quanto ao restante…Lei Rouanet, bilhões de verbas para uma imprensa mediocre e mamadora de dinheiro publico….não mais….acabou a mamata e não vou nem falar dos bilhões surrupiados pelo pinguço cachaceiro….rindo até 2026.. Saudações palmeirenses.

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