
Arthur Friedenreich, Leônidas da Silva e Pelé, sucessivamente, são os três maiores ícones da história do futebol brasileiro.
Fried, mulato, filho de uma negra brasileira com um imigrante alemão, foi o autor do gol solitário contra o Uruguai que nos deu o primeiro título internacional – o Campeonato Sul-Americano, em 1919. Assim como, ao longo de extraordinária carreira de mais de vinte anos, transformou-se no primeiro grande ídolo nacional, numa época em que nosso futebol estava regionalizado e sob intensa disputa entre cariocas e paulistas, os dois principais centros da bola.
Leônidas, negro de pele levemente azeitonada, reinou ao longo da metade dos anos 30 ao fim dos 40. Foi o artilheiro da Copa do Mundo de 38, com oito gols marcados, recorde que resistiu até 58, e até hoje é reverenciado como o inventor da bicicleta, lance acrobático, um dos que levou o mundo a chamá-lo de Homem de Borracha. Seu outro apelido era Diamante Negro, que, por sinal, deu origem ao clássico chocolate ainda hoje encontrado nas gôndolas dos supermercados.
A partir de Leônidas, outro negro retinto, um moleque de 17 anos de idade, assume o cetro, não por acaso denominado de Rei ainda adolescente: Pelé, um fenômeno até hoje inigualável na genialidade do trato com a bola assim como no recorde insuperável de gols marcados – mais de mil. Era a síntese perfeita da arte somada à eficiência. Falar de Pelé esgotaria o espaço deste site, mesmo porque ainda resta um resquício de lembranças dele nesse desmemoriado brasileirinho.
E o que os três têm em comum, além dos seus feitos e perfis incomuns?

A senzala, de onde viajaram até eles os cromossomos dos escravos arrancados a mosquete e espada da África, desde a descoberta do chamado Mundo Novo.E que, quando foram libertos dos grilhões tardiamente (todos sabem que o Brasil foi o último país a abolir a escravatura) acabaram jogados nas ruas e nos campos, sem o mínimo preparo para igualarem-se aos brancos dominadores, o que resultou nas favelas dos grandes centros urbanos, sementes tanto de engenhosas expressões culturais como o samba, quanto da criminalidade que atinge picos inauditos hoje em dia.
Atirados à sorte sem o amparou de uma educação adequada, o suficiente ao menos para competir com brancos numa sociedade competitiva, as únicas brechas para o sucesso eram o futebol ou a cena musical, duas portas abertas mais para a intuição, o dom natural, do que para o conhecimento.
E foi por aí que Fried, Leônidas e Pelé construíram seu legado eterno, assim como tantos outros negros e mulatos que os sucederam.
No Dia da Consciência Negra, permita-me o amigo prestar uma singela homenagem a esse bravo povo, escalando aqui a minha seleção de negros e mulatos campeões do mundo pelo Brasil:
Dida; Cafu ou Djalma Santos, Aldair, Zózimo e Everaldo; Mazinho, Didi e Pelé; Jairzinho, Ronaldo Fenômeno e Romário ou Ronaldinho Gaúcho.
PS: E há ainda quem suspire pela volta da monarquia, como aquele ministro da Educação que não sabe conjugar o verbo haver e que escreve paralisia com z. E aquela senhora do azul e rosa que conversa com a goiabeira como se fosse a sarça flamejante de Moisés? Sem falar no zelador do meio ambiente que vive de olhos fechados pra evitar o brilho ofuscante das nossas matas em chamas. Pelo visto, a senzala está aí, ó, a dois passos da nossa civilização, que caminha celeremente em direção à Idade Média.
Mestre Helena nos brindando mais uma vez. Uma verdadeira aula de história. Meus parabéns mestre. A vc e a todos os negros, mulatos e afins que nos deram e nos dão tantas alegrias no futebol.
Mestre, obrigado pelo texto, ácido e contundente como os tempos (e suas paralizias) exigem. Não vi Pelé, mas ouvia meu pai dizer que Pelé só há um. Vai lá, todo mundo é único. Mas que uma meia dúzia de cronistas esportivos com essa sagacidade e capricho com as palavras poderia contribuir para uma vida menos ordinária, com cabeças-de-área menos fascistas, ah, disso não há duvidas. Quem dera dois Pelés, quem dera meia dúzia de Alberto Helenas… (ah, em tempo, e se por ventura couber: entre os ativistas e pensadores que procuram rompimentos com os processos de colonização, debate-se muito o signo mulato – pejorativo por fazer alusão às mulas e seu trabalho de carga).
Texto sobre historia e politica do futebol nacional e mundial, atualizadíssimo, uma aula instrutiva, formativa e recheada de conhecimento para quem ama o futebol. Mestre, incentivado e ilustrado por seus fundamentos históricos sobre esse esporte que amamos,, peço permissão para homenagear, com muita humildade e simplicidade outros atletas, como: Mané Garrincha, Dada Maravilha, Zé Maria, Everaldo, Caçapava, Andrade, Adílio, entre outros.
Saude e prosperidade…
Alberto Helena Jr.
O preconceito racial é uma das piores manchas de mediocridade da humanidade, não se pode e não se deve ter qualquer preconceito, principalmente o racial, porque o tom de pele não determina dignidade, bondade e outras virtudes do ser humano, somos todos iguais perante Deus e deveria ser assim à vista dos homens, porém o ser humano tem dois dos maiores defeitos que uma alma pode ter arrogância e prepotência, não somos nada, ninguém é melhor do que ninguém por causa da cor da pele, somos todos iguais, principalmente no esporte em que temos histórias que colocam abaixo da bosta do cavalo do bandido essa coisa de preconceito racial, veja nas olimpiadas não me lembro o ano em que aquele corredor mulato americano derrubou diversos recordes e ganhou diversas medalhas nas fuças daquele ser abjeto que personifica bem o preconceituoso o tal de Adolph Hitler que teve que engolir com casca e tudo o seu preconceito e premiar aquele corredor, o esporte nos ensina isso e não seria diferente no futebol. Saudações palmeirenses.
Ola Alberto, que beleza o seu texto de hoje. Voce e’ capaz de nos oferecer um texto com encanto sobre esse nosso futebol fazendo-me lembrar artigos do Tomaz Mazoni, Nelson Rodrigues …
Tive a felicidade de assistir jogos do Leonidas e intuitivamente acho que nao perdi nenhum. Pele, desde
sua primeira partida. Fried so fotos e estorias fantasticas.
um abraco e aguardo outros desse estilo
Belo texto,caro amigo Helena, realmente na atual conjuntura onde, existe sim essa onda de discriminação racial, homofóbica e xenofobia.
Temos que olhar o passado,para que possamos ver dias melhores na nossa sociedade,e que essas crueldades do passado não voltem e viva o futebol brasileiro!!
Singela e bela homenagem do mestre Helena.
Hoje não torcerei para o Flamengo, mas pelo Brasil. Não porque o “Flamengo é Brasil nessa Libertadores”, mas pelo resgate definitivo da verdadeira alma do futebol brasileiro. Não estou falando de conceitos táticos ou de intensidade de jogo, em que os modos de jogo atuais não podem ser comparados com os antigos. O verdadeiro futebol moderno, que é eterno, como diz o mestre Helena, não versa sobre o que é circunstancial, impermanente, não remete ao que diz respeito as condições de cada hora e lugar. Mas simplesmente ao que é essencial. Jogar e desfrutar o jogo, com confiança e prazer. Essa é lição esquecida e que um dia mostramos ao mundo, e que agora nos relembra nosso Messias português. O resto passa. Libertadores da América, que nos liberte enfim.
Mestre Alberto Helena Júnior
Zizinho não faria parte desta constelação?
Essa seleção é formada só por campeões do mundo pelo Brasil. Infelizmente, Mestre Ziza, o mais completo craque de todos os tempos, não foi.