Pra Renato, praia ensolarada

Reprodução/Instagram

Parecia um bando de loucos aqueles jovens cavalheiros de Cambridge correndo desenfreados para chutar uma esfera de couro entre os três paus plantados nas extremidades do retângulo verde. Era uma bagunça só. Até que um dia alguém resolveu botar ordem na casa e estabeleceu o primeiro sistema de jogo conhecido, o proverbial 2-3-5 – dois zagueiros, três médios e cinco atacantes.

Essa formação vigorou até o final dos anos 20, quando um escocês ligado à matemática, Herbert Chapman, desenvolveu um novo esquema, o WM – três zagueiros, quatro meio-campistas (dois médios e dois meias) e três atacantes. Dele, partiram as demais disposições que chegaram até nós: o 4-3-3, o 4-4-2, o 3-5-2, o 4-1-4-1 etc.., sem falar nas tantas retrancas disfarçadas ou explícitas.

Isso me voltou à cabeça ainda na terça-feira, vendo o City de Guardiola em campo. Era como se mergulhasse num túnel do tempo e emergisse naquele final do século 19, quando se plantou em campos ingleses a raiz de todos os esquemas.

Sim, porque lá estavam Kompany e Stones fazendo o papel do 2 (dois zagueiros). Um pouco mais à frente, a linha média, com Walker pela direita, Fernandinho de centromédio e Delph na esquerda. No ataque, Sterling ou Mahrez, Bernardo Silva, Gabriel Jesus, David Silva e Sané. Quatro deles, canhotos incorrigíveis e bons de dribles e assistências.

Era a volta do parafuso. Ou seja: Guardiola resgatando a própria essência do futebol, acrescentando-lhe uma dose significativa da tecnologia disponível hoje em dia, aquela que cuida do corpo do atleta com esmero, fornecendo-lhe mais energia pra cumprir várias funções em campo, cujo obsessivo alvo é meter a bola no meio daqueles três paus, há muito, revestidos de uma rede diáfana e aureolar.

Aliás, isso não é nenhuma novidade para Guardiola que vem aplicando esse sistema desde o Barça, passando pelo Bayern, isto é, em três países de escolas distintas: Espanha (ou seria melhor, Barcelona?), Alemanha e Inglaterra.

Falo essas coisas me reportando à divertida entrevista de Renato Gaúcho, o mais arejado dos nossos treinadores em atividade no momento, explicando os motivos que o levam mais à praia do que aos bancos da escolinha do Professor CBF, uma exigência protocolar.

Ninguém mais do que este velho aprendiz de cronista exalta a educação, o conhecimento, enfim. Quanto mais, melhor. Aliás, este país deveria ser mergulhado nas águas profundas do conhecimento, uma educação livre de preconceitos e pratos feitos nas cozinhas engorduradas das ideologias ou das religiões.

Por isso mesmo, é preciso verificar item por item desse cardápio de conhecimentos oferecido pela turma didática da CBF, pra saber se o que ele oferece não passa de um feijãozinho com arroz em tempero de embalagem sofisticada, porém, contendo os frugais sabores de sempre da Dona Maria.

Esse é o maior problema da educação, seja em que nível for: a competência dos mestres e o nível dos ensinamentos por eles ministrados.

Enquanto isso não se resolve, praia ensolarada para Renato poder respirar e refletir fora da caixa.

 

2 comentários

  1. Alberto Helena Jr.

    Está certo amigo Alberto que o mundo está sempre em franca evolução de ordem até global porém certas máximas continuam até como cláusulas petreas em qualquer atividade do ser humano como por exemplo que futebol se ganha jogando bola no campo sem pranchetinhas, sem nhem nhem nhem e lousa e cousa e maripousa (aprendi com um grande jornalista), veja se os principais técnicos do mundo como Guardiola, Mourinho e até o Felipão, Mano Menezes, Abel Braga no Brasil usam essa indefectível pranchetinha dentro de campo, usam sim a sua experiência de anos a fio dentro e fora do campo a beira do gramado comandando seus times, exemplo atual de que essa pranchetinha é completamente descartável veja como revelação o Renato Gaucho do Grêmio que dá de ombros para estes famosos cursinhos de técnico ministrados por quem nunca vestiu uma chuteira lá na CBF, uma série de dificuldades impostas a técnicos de campo para obtenção de licença para treinar como se a bola precisasse de licença para rolar em campo, feliz é você Alberto que tem a possibilidade aí da sua idilica Ibiuna acompanhar de perto o futebol Europeu que virou o futebol brasileiro, em termos técnicos, de décadas atrás. Saudações palmeirenses.

  2. Renato Gaúcho é um cara brincalhão, todo mundo sabe disso ! Na entrevista que concedeu, ele foi bem claro que não é contra o curso da CBF e sim contra a programação no período de férias ! Por que não programar durante o ano ? Quando chega o período de férias ele quer curtir a família, a praia, o futevôlei, o chopinho e os amigos ! Vão dizer que o cara está errado ?

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