
Assistindo à derrota da Itália para Portugal por 1 a 0, pela Liga das Nações, lembrei uma historinha de muitos anos atrás, acontecida aqui mesmo. Nos anos 50, o Nacional (antigo SPR) da rua Comendador Souza era dirigido pelo ítalo-brasileiro Caetano De Domenico, o inventor da Cerrada e da Cerradinha, duas ferozes retrancas inspiradas no Catenaccio que sempre afivelou o futebol da Bota.
De repente, De Domenico resolveu escalar seu time só com jogadores brancos, deixando até mesmo o ícone Charuto, cujo nome já denota a cor da pele, no banco. E a cada jogo era uma goleada sofrida atrás da outra. Sempre que o time descia para o vestiário carregando aquele baú de gols tomados, Charuto sussurrava no ouvido do treinador: “Tem que pintar esse time, Seu Caetano”. Até que um dia, o técnico se irritou:
-O que você quer dizer com isso?
-Quero dizer que tem de botar crioulo nesse time, Seu Caetano, pô!
Conselho que viria a calhar no caso da Seleção Italiana, antes tão poderosa, que só amarga insucessos há décadas.
Não é por acaso que o futebol europeu deu um salto de qualidade prodigioso nos últimos anos, desde que se socorreu do crioléu de todas as partes do mundo, sobretudo da África. Aquele jogo mecânico – a tão decantada cintura-dura -, robotizado, de antes, passou a ganhar plasticidade e invenção, essas coisas que eram até então coisas nossas, muito nossas – a bossa e a prontidão versejadas pelo gênio da Vila -, hoje desprezadas em campos nacionais.
Se os europeus colonizadores de séculos passados, como ingleses, franceses, holandeses, belgas e portugueses, por exemplo, mantiveram seus laços com os antigos colonizados da África, o que facilitou em tempos modernos a miscigenação entre brancos e negros e a absorção dos imigrantes africanos, a Itália sempre foi infensa a esse processo, quando não declaradamente racista em muitos bolsões de sua sociedade.
Mesmo quando invadiu a Etiópia, naquele episódio deplorável da Segunda Guerra, promoveu leis impedindo a mistura do branco com o preto.
Ah, mas tá lá o Balotelli, dirá o amigo. E quem mais? Uns poucos caboclinhos brasileiros, como Jorginho e Palmieri, que jogaram contra Portugal. E para por aí.
Em contrapartida, a França, por exemplo é um desfile interminável de negros e mulatos (parece escola de samba do Carnaval brasileiro), que lhe deram dois títulos mundiais nos últimos anos, apresentando um jogo de extremas beleza e eficiência, pra desespero do nefando M. Le Penn, pai da Marie, que disse não torcer pela França, pois sua Seleção não era francesa, era africana.
E até mesmo países que estiveram ao longo da história à margem das colonizações da África, feito Noruega, Suécia, Dinamarca etc. exibem seus crioulos sem a menor cerimônia até mesmo em Copa do Mundo.
É isso mesmo,
Os negros não se destacam somente no futebol. O basket é outro grande exemplo. Porém, as melhores seleções italianas de todos os tempos as de 70 78 82 só tinham jogadores brancos. Como explicar?
Caro Helena:
Brinde-nos com um livro com essas deliciosas histórias que, de tempos em tempos, relata em suas crônicas.
Na esperança,
Luiz Carlos