Classe não se compra, sentenciou Mourinho, destilando veneno diante de um clipe sobre o City em que ele aparece como vilão retranqueiro nos gritos da torcida azul, com o que, de imediato, concordou Guardiola, seu emérito opositor, obviamente com sentido inverso.
Transportando o bate-boca para o campo de jogo, o que tivemos no último fim de semana? Um City avassalador do início ao apito final, metendo 6 a 1 no Huddersfield, com direito a mais umas quatro chances claras desperdiçadas ou conjuradas pela defesa adversária, e um United destemperado, desconexo, perdendo para o Brighton por 3 a 2 – um ônibus com os quatro pneus furados e com a carroceria enferrujada diante de sua área, pra recuperarmos a imagem criada por Mourinho para definir seu esquema de jogo defensivo.
E aqui entra uma questão paralela, pois é hábito de alguns frequentadores desta praia ressaltarem que os times ingleses costumam apresentar um futebol superior aos nossos por mera questão financeira – com aquela grana toda, até eu!, exclama essa turma.
Pois lhes digo, meus amigos: classe não se compra. É algo indefinível que está lá na alma do sujeito e que se expressa em gestos e ideias ao longo da vida.
O United, por exemplo, é um dos clubes mais ricos do mundo. Lá está um grupo ultra seleto de jogadores vindos de toda parte, e, no entanto, não consegue fazer seu ônibus sair do lugar desde que Sir Ferguson entregou o volante aos seus sucessores, sobretudo o tão festejado Mourinho.
Enquanto isso, o City de Guardiola dispara em direção àqueles recordes todos da temporada passada, que se prenunciam já no início desta como uma repetição.
O que quero dizer é o seguinte: na base de tudo está o conceito. Se o técnico planeja um time que jogue ofensivamente, de forma envolvente o tempo todo, sem aquelas recaídas na defesa próprias da maioria dos seus congêneres depois do gol conquistado ou da goleada perpetrada, e saiba treiná-lo devidamente para executar seu projeto, não apenas estará flertando com a vitória como seduzindo o torcedor pelo espetáculo plástico oferecido.
Caso contrário, cai no lugar-comum do perde, ganha, empata sem viço nem propósito, a não ser o de apenas preservar uma eventual situação conveniente.
É nesse momento que se separam os que têm e os que não têm classe.
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